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1 de fevereiro de 2018

Pelos vencidos


[...] “A justiça há-de ser para nós amparo criador, consolação 

e aproveitamento das forças que andam desviadas; há-de ter 

por princípio e por fim o desejo de uma Humanidade melhor; 

há-de ser forte e criadora; no seu grau mais alto não a 

distinguiremos do amor.
   Por isso mesmo estarás sempre ao lado dos vencidos que se 

tratam com arrogância, com brutalidade ou com desprezo; 

não te importarás que as suas ideias sejam diferentes das tuas, 

mover-te-á o olhares que são homens e não hás-de duvidar nem 

um momento da infinita possibilidade que neles há de um mais 

definido pensamento e de um mais perfeito proceder; não os vejas 

condenados para sempre à mesma estrada que tomaram; que exista 

para ti a esperança das reflexões e dos regressos.
   Ao teu amigo ou adversário dirás sempre a verdade a respeito dos 

vencidos, sem que te impeçam o afecto ou o ódio: levanta a voz, 

seja qual for o lugar ou o instante, a favor dos que, tombados na 

luta, ainda têm de sofrer as prepotências; protesta, enquanto te 

deixarem protestar, contra a vileza, contra a cobardia dos que esmagam 

quem têm à mercê, dos que torturam os corpos e as mentes, dos que 

se armam contra os desarmados; e, quando não te deixarem protestar, 

protesta ainda.
  Nessa batalha a ninguém feres; vais servir os próprios que censuras; 

pode ser que às tuas palavras se convertam os Césares e deixe o centurião 

tombar a espada; pode ser que os cativos se redimam; mas, se nada 

conseguires de imediato, terás dado ao mundo um exemplo de liberdade 

interior e de firme coragem; terás lançado a tua pedra – e não das menores  – 

para a grande construção; terás ganho para a vida uma força ante a qual, 

mais tarde, se hão-de aplanar os ásperos caminhos e abater os 

alterosos obstáculos.”
  
Agostinho da Silva, in Textos e Ensaios Filosóficos I, 

Âncora Editora, Abril 1999 (p.112,113)

11 de setembro de 2017

sobre Agostinho, de Risoleta Pinto

Tênues fronteiras, a morte vista não como fim, mas continuidade da vida. Falar da vida é focar a realidade e a existência, sendo que a humanidade é vista por Agostinho como um sonho de Deus, logo, a vida como criação do sonho e segura pela fatalidade total do sonhador, numa declaração de absoluta fé: Como durmo sossegado sabendo que por mim vela uma coisa que sonhando vivo me tem dentro dela.

16 de julho de 2017

O Brasil tem de converter-se num grande ator global. Artur Alonso




Os tristes dias pelos que está transitar o Brasil, dentro dos ciclos menores de expansão e 
contração, pelos que atravessa em um determinado momento, uma determinada comunidade; 
está a focar a atenção do país nas suas próprias misérias internas. A sombra negra da divisão 
irreconciliável e da polaridade  estende seu manto por toda as camadas sociais. 
Fomentando a separabilidade entre irmãos e irmãs, que deveriam em harmonia 
criar a rede de força que movimente um grande, imenso, poderoso, fortalecido e amoroso país. 
Essa sensação de confronto, fomentada desde certas elites políticas, empresariais 
e mesmo culturais (e sobre dimensionada por uma Mídia totalmente sensacionalista), 
é um sintoma claro da falta de visão global dos verdadeiros poderes brasileiros e da 
própria decadência do projeto nacional (assim como do ainda não ultrapassado 
acervo mental, do extenso neocolonialismo vivido ate épocas muito recentes). 
Acontece a América do Sul obter no século XIX uma independência política, 
mas não económica, ficando pressa de vassalagem real, primeiro a Grão  
Bretanha e depois dos EEUU (os quais consideravam o continente como seu 
pátio das traseiras, sendo o mesmo Brasil a “porta de entrada a fazenda”).

A princípios do século XXI, a América do Sul, baixo o comando firme de Brasília 
parecia abandonar definitivamente a tutela norte-americana e rumar, baixo o
guarda chuvas do BRICS, a jogar nas grandes ligas globais, onde no 
(nosso desgraçado mundo de confronto pelas hegemonias, ainda vigente na humanidade) 
se discutem os grandes temas, que afetam ao mundo. Mas, pela contra, em estes 
últimos cinco anos, as elites globais financeiras do ocidente parecem de novo ter 
iniciado a retoma do Pátio Sul Americano das traseiras. O continente aparenta rumar 
à entrega parcial ou total da sua soberania e património. Condensando em mãos 
de grupos de investimento estrangeiros suas mais valias materiais e mesmo imateriais.
O Brasil como centro continental e porta de entrada a região é vital na realização 
deste plano de imposição, aos povos sul-americanos, dum novo e forçado vassalagem, 
definitivamente atrelado ao poder financeiro privado do Ocidente globalista.
Do mesmo jeito também o Brasil converteu-se já numa peça chave para os BRICS, 
na sua tentativa de  fomentar um poder multi-global que concorra com o poder 
unilateral ocidental ou, quanto menos, procure um difícil acomodo mundial que 
evite um confronto planetário, entre estes dous poderes encontrados 
(mias homogéneo o ocidental, com mais heterogeneidade dentro dos emergentes BRICS).

O problema foi que a contrario da Rússia, o Brasil não tinha (ainda não tem) projeto de 
poder regional ou global (mais parecido com a Índia, aparenta encolhido sobre 
suas próprias fronteiras, mesmo assim a Índia é muito mais ciosa da sua 
Independência real). No caso da Rússia a famosa frase, do seu máximo mandatário, 
Vladimir Putin: “… aqueles (referindo-se ao povo russo) que não sentem saudades 
da União Soviética não têm coração, aqueles que acreditam, que nós, devêramos 
voltar aos tempos da União Soviética não têm cabeça...” resume perfeitamente 
a capacidade de integração histórica, política e social, num projeto de continuidade, 
no que respeita a projeção internacional da Rússia, além fronteiras…  
Somente dirigentes que tem a capacidade de unir seu povo 
(conciliando-o, por cima das divisões partidárias da base, no lógico acomodo - 
concorrência, entre os diversos sectores de interesses diferentes, no interior do país) 
podem assumir a chefia dum país que sonha ser grande. 
  

Parecera que o Brasil não estivesse preparado para esse reto maior e, no entanto tanto, 
a cidadania brasileira em seu conjunto tem desenvolvido um amor a seu território, 
cultura e identidade, que criam uma unidade, muito por cima das rivalidades políticas atuais.

Esse mesmo amor, desenvolvido com sabedoria permitiria ultrapassar, sem muita 
dificuldade, o marco atual de confronto; criando um novo marco inovador em 
favor da consagração do poder regional e global brasileiro, no exterior 
(para o qual é indispensável a unidade interior em torno dum projeto país – continente); 
assim como o fortalecimento do entendimento e dialogo permanente no interior

Por sua vez, o país da Amazónia, tem um grande problema de falta de 
Grupos Especialistas em fomentar Ideias e Pensamento, os famosos 
Think Thanks; o mais importante agora seria criar precisamente um 
Think Thanks que trabalhara em favor da unidade esquerda – direta em 
um projeto real, factível e realizável de Independência política – económica do país. 
Grupos ou grupo  que ponha em valor a consagração dos recursos cientifico 
– tecnológicos, patrimoniais, culturais, ecológicos, económicos… no intuito de 
assegurar estes não sejam entregues a poderes estrangeiros ao serviço de 
escuras agendas (por parte duma elite local com mentalidade pequena), 
cuja centralidade e realização dependam de tomas de decisão, que estejam, 
na prática, a milhares de quilómetros da nação.  

Senão rumar, toda a sociedade e suas elites, em este sentido de unidade 
– confraternização, os brasileiros e brasileiras acordaram algum dia vendo 
suas industrias energéticas em mãos de investidores privados internacionais, 
seu Banco Central em mãos de banqueiros globais, seu património florestal e 
cultural dependente de centros de controlo no exterior. Deixando Brasília na
pratica atada às políticas monetárias e decisões estratégicas, levadas à frente 
desde Washington ou Londres, e urdidas em salões privados, muito perto de Wall Street. 

O Brasil tem também uma responsabilidade com a humanidade como guardião 
dum basto património natural, humano e cultural, que deve ser preservado. 
A única forma passa pela emancipação de poderes alheios e a reconexão do 
imaginário coletivo num projeto fraterno e cívico (que some sectores, permita 
discrepância harmônica e vitalize a inclusão de propostas inovadoras, em cada 
mesa de diálogo, tanto no nível acadêmico como social e político).
A sua vez o país é chave, também, como ponta de lança indispensável 
para consolidação dum espaço lusófono, mais visível internacionalmente, 
desde a CPLP – hoje tristemente transformada quase que um clube de negócios 
– mas que, por própria evolução biológica, em algum momento deve voltar à 
sua essência, muito eticamente inseminda, por pensadores, da categoria de 
Agostinho da Silvar ou Aparecido de Oliveira, por citar algum exemplo.
Muitas pessoas no mundo trabalham para essa futura confraternização da 
humanidade, da qual a Lusofonia terá de ser uma coluna basilar. Pois fielmente 
são essas mentes maravilhosas que, ciclicamente, iniciam toda mudança, por meio de 
insuflar amor nas mentes da cidadania .

As pessoas que podem mudar estas inercias, serão verdadeiramente chamados 
de servidores da humanidade, esses grupos de pessoas ao serviço da paz global, 
que agora estão também a ajudar como forças de união no Brasil; tal como 
afirmava Alice A. Bailey surgem de todos os estratos sociais: … Portanto, os 
verdadeiros servidores de todas as partes pertencem a este grupo, quer 
prestem serviço no campo cultural, político, científico, religioso, filosófico, 
psicológico ou financeiro. Constituem parte, saibam ou não, do grupo 
interno de trabalhadores para a humanidade (…)


Estes grupos não demonstrarão nenhum senso de separatividade, 
nem terão ambição pessoal ou grupal; reconhecerão sua unidade 
com tudo o que existe e permanecerão diante do mundo como um 
exemplo de vida pura, criadora e construtiva, de atividade criadora 
subordinada ao propósito geral, de beleza e inclusividade”

Em uma humanidade em que ainda existem estados e fronteiras, em que ainda 
existe medo do diferente, em que ainda prevalece o teu e o meu e, pelo tanto, 
os muros de contenção…
Não pode haver ainda uma grande evolução. Podemos ter grandes avanços científicos e 
tecnológicos, mas eles, em ultimo caso, estão ao serviço dos senhores do capital e não 
da população. Pode haver grupos com grande consciência dos problemas vários e, 
das várias crises interligadas (ecológicas, económicas, sociais, energéticas, políticas) 
que deles surgem… Mesmo pode haver grupos de pessoas com uma consciência 
ética elevada, que possa vislumbrar que estas crises interligadas são em realidade os 
sintomas duma crise mais ampla, de raiz única: a crise do modelo de guerra e dominação 
que ainda comanda na humanidade.

Pode haver mesmo grupos de pensamento que já rumam a confraternização mundial: 
queda de todo tipo de barreiras e fronteiras, começando pelas mentais… No entanto, 
esse pensamento não permeia todavia ao resto das elites e menos ao grosso do povo 
comum. Assim que isto demonstra que vivemos ainda muito longe dum patamar 
evolutivo que nos permita eliminar para sempre o fantasma permanente da guerra.

Entendamos, por sua vez, que não podem ser levantados os muros, barreiras, das nações 
sem antes ultrapassar a mentalidade de confronto e medo pela sobrevivência, ainda 
permanente na humanidade. Entendamos que essa transição e abertura de consciência, 
tem seu tempos suas cadências, seus ritmos ate assentar em todo o tecido social... 
Por isso é preciso um centro novo mundial que comece a implementar esse novo pensamento.

Dai, que precisamos criar um centro geográfico novo, que dinamize estas novas 
tendências, um novo centro civilizacional, desde o qual podamos irradiar esta nova 
conceção ético-ecológica a toda a humanidade. E em este sentido o Brasil tem umas 
possibilidades e capacidades imensas, que de superar com acerto, estas provações 
momentâneas da sua história atual, sem duvida debocharam para o serviço de toda à humanidade… 

“O conhecimento leva à unidade, assim como a ignorância à separação”

(Sri. Ramakrishna)

4 de junho de 2017

Quando o espírito fecunda                                                  
Deus em nós nasce menino
e para mostrar que é homem
de nenhum ou pouco tino

depois cresce e vai pregar
por palavra ou por acção
certo de que o pensamento
é nada sem coração

e quando em glória esplende
duros o cravam na cruz
aprendendo que é na dor
que se apura sua luz.


  Agostinho da Silva, Uns Poemas de Agostinho. Ulmeiro, 1989

17 de março de 2017

Serás mais livre
na vida se vires
em seus efeitos defeitos
nas qualidades nos defeitos.

Não repita coisa alguma
do futuro é o renovo
se faz anos os desfaça
e a tudo nasça de novo.

 Agostinho da Silva, Quadras Inéditas. Ulmeiro, 1990

15 de março de 2017

Porque a areia dos tempos tudo varre e as memórias desaparecem, que fiquem as palavras. 
Embora não datadas, poder-se-á romanticamente assumir a eventualidade de terem sido 
escritas no dia de hoje. De Agostinho da Silva,

 ODE BREVE AO EINSTEIN


Só Causa das causas sabe
causa de causa sem causa
e por isso a matemática
em seu não ser se dá pausa.
                              
                                                                  Se não se conhece a máquina
nem se lhe mexe em rodinha
pois quem sabe se era dela
força que a máquina tinha.
                              
                               Portanto digo com Gandhi
                               quem decide que decida
                               e nem vou tomar morfina
                               que a dor faz parte da vida.

         Agostinho da Silva

                                  


Albert Einstein                                                            George Agostinho Baptista da Silva
(14 de Março, 1879 – 18 de Abril, 1955)                             (13 de Fevereiro, 1906 – 3 de Abril, 1994)                    

4 de janeiro de 2017



 
  Saudar de Novo                                                                       
por Maurícia Teles da Silva 
 

Que o abrir do novo ano nos conceda a visão em frente, para lá do horizonte, e 

os necessários momentos de reflexão sobre o antigo, em que passado e futuro 

são este tempo que vamos construindo. Deste modo, mirando o agora enquanto 

semente do devir, surgiram-me as quadras de Mestre Agostinho, compartilhemos:
 

                                                  O mais simples alicerce
                                                  traz logo a casa traçada
                                                  se eu quiser chegar a Deus
                                                  começarei por ser nada.

 

                                                  Aperfeiçoa-te ao máximo
                                                  em tempo que nada valha
                                                  pondo toda a tua pressa
                                                  no que de tempo é migalha.

 

                                                         (Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, Ulmeiro, 1990)  

Pensando a liberdade e para fraternizar,  que não se perca o mote... 

“Livre de ordenar verso
ao servidor Agostinho”
[1]
Espírito em seu amplexo
para traçar o caminho.

Ousemos acreditar
que o vero é possível
ainda que não visível
é o mister de Criar.

                        

 [1] A. S., in Carta datada de 8/3/93, Ode breve a Mestre Sócrates 


Assim, agradecemos: ao Professor João Ferreira que nos renovou a memória do

convívio com Agostinho da Silva em Brasília; à nossa associada,  pintora 

Anabela Vieira, pelo singelo retrato de profundo e longínquo olhar criando 

aquele lugar que afinal poderá não ser utópico. Felicitamos 

Alexandra Vieira responsável pela Livraria Arquivo, em Leiria, 

e a autora Patrícia Martins que não esqueceu as crianças 

na oportunidade de lhes dar a conhecer: 

Deu-me o Nome LIBERDADE o avô Agostinho da Silva”, com adoráveis ilustrações.
Assim, prosseguimos solidários com todos aqueles que acreditam 

na possibilidade de uma Vida mais fraterna

25 de dezembro de 2016

Agostinho da Silva e a Galiza



A visão agostiniana da Galiza emerge no âmbito da sua reflexão
sobre Portugal, sobre o seu sentido histórico. Desenvolveu 
Agostinho da Silva essa reflexão em diversas obras, desde 
logo, na sua Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa
obra publicada no Brasil, em 1957. Nessa obra, logo no 
primeiro capítulo, Portugal e Galiza aparecem a par,
 “como dois noivos que a vida separou”. Separação que 
Agostinho lamenta, por Portugal sobretudo, dado que, 
como nos diz, se ela não tivesse ocorrido, “talvez o ouro da
 Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena época de afluxo de riquezas, 
de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal e pão”.

Separado da Galiza, Portugal perdeu pois, à luz desta visão, as suas raízes mais profundas, 
o seu Norte. Eis, dir-se-ia, o “pecado original” da formação de Portugal e das futuras 
Descobertas. Nesta visão da História, não é, contudo, essa separação, essa cisão, um 
horizonte inultrapassável. Eis o que o próprio Agostinho da Silva, de resto, nos havia já 
antecipado no seguimento da passagem da sua Reflexão à 
Margem da Literatura Portuguesa que há pouco transcrevemos, essa 
em que lamentava a nossa separação, a nossa cisão, com a Galiza – como aí escreveu:
“Mas tempo vem atrás de tempo; se há ‘talvez’ para o passado da História, há ‘talvez’
igualmente para o futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península 
em si mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e da Galiza. 
Dos dois noivos que a vida separou.”.

Talvez que, contudo, sob uma perspectiva outra, essa separação, essa cisão, tenha sido 
historicamente necessária. Eis o que, pelo menos, o que o autor de 
Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa sugere numa outra sua obra 
– Um Fernando Pessoa, publicada dois anos depois, em 1959 –, quando aí 
desenvolve uma visão triádica de Portugal, à luz da qual “o primeiro Portugal foi 
– nas suas palavras – o Portugal da velha unidade galaico-portuguesa, o Portugal
lírico e guerreiro das antigas de amigo e das velhas trovas do cancioneiro popular; 
nele estiveram – como acrescenta ainda – as raízes mais profundas da nacionalidade 
e nele sempre residiram as inabaláveis bases daquele religioso amor da liberdade 
que caracteriza Portugal como grei política”.

Para que Portugal pudesse barcar, talvez que, contudo, tivesse que se cindir da sua arca... 
Eis, com efeito, o que, no seguimento desta passagem, Agostinho da Silva implícita 
senão mesmo expressamente defende ao afirmar que esse “Portugal da velha 
unidade galaico-portuguesa” era “demasiado rígido para as aventuras da miscigenação, 
da tessitura económica e do nomadismo que não reconheceria limites”. A ser assim, 
essa cisão foi, pois, genesíaca – dado que dela resultou toda a demanda das 
Descobertas! Poderia, como expressamente salvaguarda o próprio Agostinho da Silva, 
no segundo capítulo da sua Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa
não ter sido assim – nas suas palavras: “O Português podia ter resistido ao 
apelo do longe, Portugal podia ter-se recusado à acção.”. Contudo, como se 
questiona ainda o próprio Agostinho da Silva: “…se Portugal não tivesse 
embarcado, quem teria embarcado?”.

Renato Epifânio

9 de dezembro de 2016

  "Aspecto Interior do Sacrifício"  (excerto)                               por Agostinho da Silva 


[...] “O desprender-se da segurança e da comodidade, o mergulhar na incerteza e na dura restrição só para continuar fiel às bases em que assentou o pensamento e se quis fundamentar toda a vida é já a certeza, para aquele que verdadeiramente serve o espírito, de que segue o bom caminho, de que a sua posição adversa à grande massa é ainda aristocrática, isolada, como é preciso que seja. O cumprimento do dever, quando se não chama dever a uma imposição feita de fora, mas a uma aspiração sempre mais larga à posse de todo o mundo racional, jamais poderá ser olhado como um sacrifício que exige recompensa; antes me parece que uma tal oportunidade de ter experimentado as suas forças e vencido mais um grau na imensa e bela subida para o Ser apenas deveria provocar, nas relações com os outros, uma gratidão sincera e sólida por todo o conjunto de circunstâncias que permitiu o provar e ascender. [...]
   Há, no entanto, um outro aspecto que sobreleva em significação universal esta fidelidade de indivíduo a si próprio; o domínio do impulso dos sentimentos pelo calmo giro da razão é um esforço que leva o mundo para Deus, como as pancadas dos remos fazem deslizar o barco sobre as águas; no bom remador nenhum movimento é inútil para que o porto se alcance; de igual modo, no que bem pensa, nenhum acto da vida se perde para a salvação da Humanidade; e mais do que todos, dão marcha vigorosa ao barco em que vogamos, os que ousaram  as mais largas remadas, os que não temeram estoirar os músculos ao serviço do bem comum. No que mais vê objecto que sujeito anda espalhado o fim último dos homens: inteligência que em si compreende amor, beleza e justiça; consagrar-lhe a vida inteira, num momento ou em anos, é repartir-se por toda a Humanidade, arder nas várias chamas que de todos os peitos se elevam para o céu, congregá-las no fogo do trabalho que transformará o universo. A esta grande missão só uma linguagem desvairada poderá chamar sacrifício, só os cegos de espírito poderão dar por companheiras a resignação e a tristeza. Os que vêem mais alto e mais claro ardentemente desejam que sobre eles recaia a escolha do Senhor; porque sabem como as almas se dilatam, como as invade, as ilumina a alegria contínua e doce, quando sentem palpitar dentro de si, correr, expandir-se o grande mar de sonhos, de visões, de caridade e aspiração de justiça, que vai rolando poderoso e magnífico no mundo.”


Agostinho da Silva, Considerações, in Textos e Ensaios Filosóficos, vol I. Lisboa, 1999, Âncora Editora, pp.97,98 (Considerações - texto publicado pelo autor, 1ªedição, Famalicão, 1944)

Enviado por Maurícia Telles