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22 de maio de 2012

A futuridade do Espírito Santo

“Valioso para mim é a noção de que o que importa não é tanto educar, mas evitar que os seres humanos se deseduquem. Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das idéias...
Seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário e transformaremos o mundo.”

"Há muita gente que julga que a cultura é falar francês, dançar bem, ouvir música e ter visitado exposições de pintura. Isso talvez fosse a cultura de outras épocas, mas hoje não. Hoje temos que tomar cultura no sentido geral, mais próximo e no mais concreto da vida. Cultura, no fundo, é a maneira de ser de cada um. Exatamente como todos nascemos, com tais características, e o que acontece depois na vida é que se vai destruindo muitas dessas características e como eu costumo dizer, quase todas as pessoas morrem sem nunca ter vivido... viveram uma vida emprestada, viveram a vida dos outros.

Assim como nós fisicamente, nos cinco bilhões de pessoas, não há dois iguais por fora, no feitio do nariz ou na cor dos olhos, da mesma maneira não há duas pessoas iguais por dentro. As pessoas todas são diferentes. De maneira que a vida certa (do universo) do mundo inteiro seria que cada um pudesse viver a sua vida e cada um dos outros pudesse ter esse espetáculo extraordinário de ver pessoas diferentes à sua volta e não como tantas vezes acontece, sobretudo em pessoas que gostam de mandar nos países, achar que deve ser tudo igual, e quando aparece alguém diferente se ofendem, acham que está fugindo das regras, saindo da vida que deve ter.

Os meninos devem ser estimulados a desenhar ou a redigir aquilo por que têm interesse, contar a sua história, seja em imagens, no desenho ou pintura, seja redigindo em verso por exemplo. Escolas em que os meninos sejam incitados a fazer poesia e que descobram que afinal, os poetas não são seres extraordinários. Não. Eles foram apenas os que tiveram mais sorte que os outros. Encontraram circunstâncias na vida, na casa em que se criaram, nas escolas em que andaram, na vida material que tiveram que lhes permitiu conservarem-se poetas, ao passo que outros que também nasceram poetas... Porque não existem só poetas de verso. A idéia de que a pessoa tem de se dizer poeta porque faz verso, não é verdade. Poeta é aquele que cria na vida alguma coisa que na vida não existia. Não existia aquele poema, ele criou, pronto, é poeta. Mas pode ser uma música que ele compôs, um bailado por exemplo. Pode ser qualquer experiência de Química ou de Física que não se tenha feito. Qualquer avanço da Matemática, por exemplo, que conseguem.

Em Portugal existe um painel no Museu das Janelas Verdes, uma pintura do sec. XV que representa o dia em que se celebrava o Espírito Santo. E o dia em que se celebra o Espírito Santo era o dia em que o povo português dizia aquilo que queria. Sabem o que ele queria nesse dia? Que todas as crianças fossem de tal modo livres e desenvolvidas que pudessem dirigir o mundo pela sua inteligência, pela sua imaginação, não propriamente por saberem aritmética ou ortografia, mas por serem eles próprios, porque eram os pequenos, as crianças que deviam dar ao mundo e aos homens, o exemplo do que devia ser a vida. E em segundo lugar eles diziam que a vida devia ser gratuita, que ninguém tinha que pagar para viver e que trabalhar para viver. Que tendo a vida sido dada de graça, era inteiramente absurdo, passar o resto da vida a ganhá-la. E eles então achavam que a vida um dia há de ser de graça para toda a gente.

E ainda uma coisa extremamente importante. Iam à cadeia da terra e abriam as portas para que todos os presos saíssem, para que ninguém mais passasse a vida amuralhado e encerrado entre grades; que viesse para a vida e na vida se retemperasse e na vida renascesse para ser aquilo que devia ser. Era uma anistia talvez. Um sinal de que um dia o crime desaparecerá do mundo..."

Texto adaptado da conferência Namorando o Amanhã, realizada em maio de 1989
na Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros - Portugal.

Agostinho da Silva, professor, escritor, poeta e filósofo. Nasceu no Porto em 1906 e fez a passagem em Lisboa, 1994. Possui uma obra extensa em Educação e Cultura Portuguesa e Brasileira. Viveu 25 anos no Brasil, de 1944 a 1969 e aqui deixou muitos discípulos e amigos. Ajudou a criar quatro universidades: na Paraíba, Santa Catarina, Bahia e Brasília onde fundou o CBEP Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, muito atuante até 1968 quando a UnB foi invadida pelos militares. Construiu ao longo de sua vida uma obra luminosa e revolucionária de luta pela educação e a cultura.

http://www.agostinhodasilva.pt/

15 de fevereiro de 2012

... sobre Agostinho da Silva


"Ao fim e ao cabo, a agostiniana idéia de Deus associa-se ao Espírito Santo. [...]. Se, ao longo da sua vida, se cruza com o cristianismo, com o catolicismo, com o taoismo, com o budismo-zen, com o candomblé, o certo é que a religiosidade antiga é o alicerce das lucubrações acerca de Deus."


"[...] o que mais importa, numa análise essencial sobre Agostinho da Silva,
é a reflexão acerca da harmonia entre o seu pensamento e a sua acção,
que, em última análise,
cremos estar na senda da multiplicidade universal."

PINHO, Romana V. O essencial sobre Agostinho da Silva. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2006, p. 57 e p. 84.).

8 de julho de 2011

Informe da CAS

CEAO - Centro de Estudos Afro-Orientais foi criado, organizado e coordenado por Agostinho da Silva nos idos anos de 1957. Hoje, o CEAO permanece em franca atividade, o que demonstra que as ações do professor Agostinho sempre estiveram à frente do tempo.

Ceao na rede das ações afirmativas no Brasil
Foi lançado o site www.redeacaoafirmativa.ceao. ufba.br , onde constam informações sobre a produção bilbiográfica (dissertações, teses, artigos, capítulos de livros), pareceres, resoluções, vídeos, fotos, textos em jornais, e o quadro das universidades que adotaram as ações afirmativas no Brasil. Trata-se de uma parceria envolvendo pesquisadores de universidades federais (UFBA, Universidade de Brasília, Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade Federal de Sergipe) e estaduais (UNEB e Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) na criação de uma rede de pesquisa para a avaliação do sistema de cotas e das ações afirmativas para negros e indígenas na educação superior pública.

CEAO - Centro de Estudos Afro-Orientais
Pç. Inocêncio Galvão, 42, Largo Dois de Julho - CEP 40025-010. Salvador - Bahia - Brasil
Tel (0xx71) 3322-6742 / Fax (0xx71) 3322-8070

E-mail: ceao@ufba.br




4 de julho de 2011

Do Agostinho em torno do Pessoa

Poema único de Bernardo Soares

Vida foi gratuita e pobre
quando se apanhava fruta
ou se catavam raízes
ou tola caía fruta

depois a pagou bem caro
escravo ou funcionário
nem tempo para pensar
porquê tão triste fadário

mas outro tempo virá
de vida gratuita e boa
para comer regalado
e ler Fernando Pessoa.


(recolhido de SILVA, Agostinho da. Do Agostinho em torno do Pessoa. Lisboa: Ulmeiro, 1997, p. 15.)

7 de junho de 2011

Do Agostinho em torno do Pessoa

POEMA RECENTE DE FERNANDO PESSOA

Quando eu amei a Ofélia
foi só Baixa de Lisboa
algum talento umas graças
e beijo que nem ressoa.

Convencido fiquei eu
que era como um rei da vida
já todo o ser quando for
será só o que eu decida.

Mas com esta que surgiu
como a vou eu merecer
só regressando ao divino
e não voltando a nascer.
(Texto recolhido de SILVA, Agostinho da. Do Agostinho em torno do Pessoa. Lisboa:Ulmeiro, 1997, p. 13)

6 de junho de 2011

Do Agostinho em torno do Pessoa

Sobre Fernando Pessoa
direi a coisa correta
quem é mesmo criador
cria poema e poeta.

Olá meus filhos libertos
Álvaro Reis e Caeiro
que sorte foi para vós
vosso pai não ter dinheiro.

POEMA QUE PESSOA NUNCA PÔS NA ARCA

De Álvaro sei como sei
desse latim do Ricardo
do pensamento de Alberto
luz incerta um gato pardo

sei de algum outro tão bem
como ele sabe de mim
e de quantos sei ainda
metidos na arca sem fim

e de Bernardo esquisito
como espelho em mim cravado
se se quebra me quebro eu
mas sangue só de meu lado

sei com todo o pormenor
de tudo o que me nasceu
sei de toda a criação
só não sei o que sou eu.

(Textos recolhidos de SILVA, Agostinho da. Do Agostinho em torno do Pessoa. Lisboa:Ulmeiro, 1997.)

5 de junho de 2011

O regresso ao futuro passado






"Eu, outro dia, dizia a um amigo: "Eu vou inventar outra razão dos Descobrimentos Portugueses." É que os portugueses com essa saudade que tinham de andar colhendo fruta e não trabalhando coisa nenhuma começaram a ver de que maneira é que a coisa podia, podia voltarmos a isso, e começaram a construir Portugal, e depois embarcaram e andaram pelo mundo, e toda essa coisa. Os Descobrimentos foram a vontade de descobrir o caminho para voltar a não trabalhar, não é assim? Para se divertir à vontade, pronto, e a coisa foi por aí fora... acho que é uma boa razão para os Descobrimentos. Os Descobrimentos que os portugueses fizeram foi para fazer com que o futuro coincidisse com o passado. Que é a ideia de Einstein. O regresso ao futuro que seja o passado, ele próprio. Muito mais rico, não é?

Porque aqueles cavalheiros, por exemplo, aqueles cavalheiros não se podiam lembrar de ter lido Shakespeare, ou qualquer coisa desse género, e nós podemos lembrar dessa história. Tivemos uma série de aventuras que será muito mais interessante recordar um dia, as coisas todas que fizemos e por onde andámos, por causa dessa história, não é? A aventura foi, realmente, muito interessante. Tudo o que se passou. Tudo o que se viu."
Texto recolhido do livro Agostinho da Silva - Ele Próprio. Portugal: Zéfiro, 2006, p. 119 - 120.

30 de maio de 2011

Carta Vária XI

Há, talvez, duas espécies de revolução: Uma é a de mudar o mundo, como tanto tem sido tentado, sempre com resultados muito aquém das levantadas esperanças; a outra a de mudar cada pessoa, já que as perspectivas da transformação oposta ou parecem muito exageradas, muito desmentidas pelos resultados cotidianos, ou envolvem tais dificuldades e tais riscos, mesmo vitoriosas, e sobretudo quando vitoriosas, que parece melhor tentar a alternativa. É isto o que diríamos da revolução pessoal que tem, no ocidente, os exemplos de São Paulo ou São Francisco, no Oriente, e por exemplo também, o caso de Buda e de, quase em nosso tempo, Ramakrishna que experimentou as três vias do Hinduísmo, do Cristianismo e do Islão, nelas três atingindo suas metas. Quem sabe, se não haveria ainda de trilhar novo caminho: o de, tomando toda a simplicidade, todo o despojamento, toda a disciplina toda a dedicação do que foi citado - e bem sabendo das nossas inferioridades e limitações -, ninguém se retirar do mundo, como muito deles fizeram, ninguém se recolher a convento algum, mas no século permanecer, com bom humor, paciência e entusiasmo, fé no triunfo e absoluta confiança nas qualidades do homem, quaisquer que sejam as aparências. Combater sem agressividade, esperar sem se tornar passivo, acreditar haver saída para tudo, conservar-se na marcha geral, embora escolhendo seu próprio caminho e jamais esquecendo o seu rumo, abertos sempre a todas as ideias e acolhedores de todos os estímulos. Sem internas quebras, navegar ao que parece impossível sem desânimo, adiantar a tarefa sem temer o paradoxo, dar toda a eternidade a corrida do tempo, sem pressa, nunca cessando a marcha. E ver em todos os companheiros não um grupo que se guia, o que logo faz surgir hierarquias, mas o nosso amparo, o nosso incitamento: mestres, afinal, não discípulos.

1º de julho de 1986

Agostinho da Silva

Agostinho da Silva em Vida Conversável



"[...] São Francisco de Assis tinha uma qualidade que hoje voltamos a ver em vários grupos de pensadores. Quer dizer, ao passo que muita gente acha que o que há a fazer no mundo são as grandes obras, tomar medidas universais, lançar as ideologias que possam envolver todo o mundo, outros pensadores declaram que small is beautiful, que a beleza e a eficiência final residem nas pequenas coisas, que se possam ir fazendo no mundo. Então São Francisco de Assis aparece-nos dizendo à maneira dele que small is beautiful. Embora o small dele seja toda a vida e até mais do que a vida, porque por exemplo ele abençoa a morte e todas as coisas do mundo, a irmã água e o irmão luar e os bichos irmãos, etc., etc., etc."










trecho recolhido de SILVA, Agostinho. Vida conversável. Brasília: Núcleo de Estudos Portugueses; CEAM/UnB, 1994, p. 70

21 de maio de 2011

Biblioteca da CAS

Queridos Amigos,

Fussando a Internet em busca de informações sobre a experiência africana na Bahia para a minha palestra no dia da África na UFBA, acabei encontrando esta informação importante sobre a contribuição do Prof. Agostinho da Silva na criação de um dos importantes centros de estudos sobre a africanidade no Brasil - CEAO. Julgo de suma importância para o acervos da Casa Agostinho Silva no Brasil.

Um afetuoso abraço
Mamadu Lamarana Bari


Acesse o link para download:

http://www.megaupload.com/?d=VFWX6W6J

11 de maio de 2011

Pedagogias conversáveis

Agostinho da Silva apontou-nos para a anagogia: o saber para a liberdade. E, Paulo Freire, a sua maneira, também concebeu uma pedagogia conversável: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.”

Agostinho e o seu Mistério por Roberto Pinho

Roberto Costa Pinho*

Agostinho e o seu Mistério
Veni Creator Spiritus

Ao contrário daqueles artistas e pensadores cuja vida nega a obra, com Agostinho da Silva dá-se o oposto: a obra só pode ser plenamente compreendida se estiver iluminada pela totalidade da existência. Sua vida confirma e transcende sua obra. A poesia, diria melhor, a utopia que orienta tanto sua ação quanto seu pensamento está solidamente ancorada numa Ética infalível, que pode ser encontrada até nos momentos mais prosaicos da sua vida. A ética, para o cavaleiro Agostinho, era a excalibur com que combatia na sua saga em busca do seu santo graal.
Por ser o símbolo a linguagem que transcende a dualidade verbal, não é possível falar de Agostinho, sendo a unidade que ele é, a não ser em termos simbólicos, a não ser que aceitemos que ao final de sua mensagem ele encanta-se, isto é, transforma-se num símbolo.
Para entendermos este símbolo em que Agostinho se transforma, precisamos daquelas cinco qualidades fundamentais de que fala o Pessoa, sem as quais será inútil interpretá-lo.
Um símbolo é formado por muitos outros símbolos. Agostinho é uma coleção de símbolos a serem interpretados isoladamente, pois cada um tem seu significado, e em conjunto, pois ao unirem-se formam um símbolo único, com significado distinto.
Pensador, filósofo, poeta, político, professor, guia, profeta. Quantos símbolos, quantas faces, quantas existências simultâneas se expressam para formar Agostinho da Silva. Alguma é a dominante? Não. Não é possível compreender a unidade que tal diversidade compõe deixando qualquer delas de lado.
"A verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa".
Por tudo isso, interessa-me em Agostinho o irredutível, o inclassificável, o misterioso.
Agostinho, porém, não tem mistérios!
Bem, este é o seu Mistério! Proponho-me, não a decifrá-lo - correria o risco de ser devorado, como assisti a tantos o serem ao tentar - mas a vivê-lo.
O Espírito Santo - Shekinah é o selo, a cifra, o signo, a chave. Uma chave, não para entender, mas para viver o Agostinho. Trata-se de viver e não de morrer o Agostinho.
Poderemos crucificá-lo no espaço-tempo dos bustos e das biografias ilustres de letras e imagens perecíveis. Ou com ele ascender, transcender, nas asas da sua obra e da sua vida existencial: imortal sempre que vivenciada por nós.
14.05.2005
Véspera de Pentecostes




*Brasileiro, baiano, trabalhou e conviveu com o Professor Agostinho da Silva ao longo de dez anos, na Bahia, em Brasília e em Portugal. Participou da instalação e em projetos do Centro de Estudos Afro-Orientais, do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, do Museu Atlântico Sul, da Casa Reitor Edgard Santos e outros, mas, sobretudo, durante todos esses anos, no Brasil e em Portugal, e até a morte do Professor Agostinho da Silva, manteve, com o mesmo, uma relação, ao estilo tradicional, mestre-discípulo, que determinou em grande parte sua formação e seus interesses existenciais.


Texto recolhido da obra IN MEMORIAM de AGOSTINHO DA SILVA (Portugal: Zéfiro, 2006, p. 403-404).


Foto: Lúcia Helena Sá (2006, no Centro de Cultura Popular de Sobradinho)

9 de maio de 2011

Mensagem para a CAS

Desde já, o Conselho Diretor da Casa Agostinho da Silva/Casa Lusófona envia agradecimentos especiais, conversáveis (como diria Agostinho), ao escritor Emanuel Medeiros Vieira que, gentilmente, mandou-nos uma mensagem que alumia nossas atividades.

Em 7 de maio de 2011 10:56, Emanuel Medeiros Vieira escreveu:

Prezada Lúcia Helena.
Fiquei muito comovido com a generosidade da amiga,postando a resenha sobre o meu livro...
Grande humanista (cultíssimo), ser humano inesquecível, Agostinho da Silva é um dos homens - na área cultural, do humanismo, e dos sonhos de liberdade - que mais admiro.
Numa época,ele foi também muito importante, por seu fenomenal trabalho, em Florianópolis, minha terra natal.
Sua obra ficou!
Será sempre uma referência iluminadora.

Não está mais onde nós estamos,mas estará sempre onde nós estivermos!

No movimento estudantil e, posteriormente, lutei intensamente (fui da AP) contra a ditadura militar; fui perseguido, preso, processado, torturado, e tive que sair do país.
Não, não falo em tom de queixa ou lamúria.
Sinceramente, sinto-me honrado por ter combatido o bom combate!
(Mesmo que nossas utopias não tenham se concretizado.)
Valeu a pena!
Não dobrei a espinha!
Com o sincero carinho e grande estima do Emanuel.

PARABÉNS! QUE BELO TRABALHO!
O site é excelente. Muito denso.
Conta comigo para envio de textos.

17 de abril de 2011

Agostinho da Silva por Santiago Naud


José Santiago Naud: poeta, ensaísta e professor pioneiro da Universidade de Brasília


"A seminal presença de Agostinho da Silva no Brasil é confirmação iluminada de sua generosa teoria civilizatória. À horizontalidade da abscissa que Roma edificou entre o Leste e o Oeste, ele soma a ordenada vertical que, unindo Norte e Sul, corrija os equívocos do poder indo-europeu e promova as coordenadas do Amor, como auguraram os "cavaleiros espirituais" da Renascença, que liam pelo avesso a palavra Roma. Harmonia da inteligência racional e emocial. No reino ideal, Portugal e Brasil conformam uma única nação, não obstante separada politicamente em dois Estados segundo a razão ou sem-razão das leis. O milagre axial dos Descobrimentos foi que o primeiro corpo multiplicou-se pelo mundo, agregando o diferente. Nesse sentido, hoje guarda enorme transcendência enquanto comunidade de povos, inspirada por sinal em idéia agostiniana e reconhecida oficialmente por novos governos constituídos. Tal fato se desvela à energia de sua literatura matricial, envolta no paradoxo porque é vigorosa conjunção de contrários, muito embora toda a sua complexa riqueza não tenha até agora morada condigna na confraria dos léxicos ou circunscrição dos compêndios. Já vale contudo como confirmação do princípio feminino, a mátria olvidada e profanada, trinitária Santa Marial medieval que tanto comovia, e opera nas águas históricas do Douro, Mondego e Tejo, recuados ao intemporal da pré-história. Também no templo da miscigenação e do sincretismo, os ilês afro-brasileiros, ele cruzava, como um sufi, Oxum e Iemanjá, que reúnem as águas das fontes, arroios e rios no imenso Oceano. Aí, quem sabe, explique a parapsicologia haver o escritor nascido sob o signo de Aquário. Assim, tudo quanto escreveu, falou ou praticou, singra a terceira margem do imenso rio ilusório que liga o tempo e a eternidade, onde o Padre António Vieira, mais um "sonho das eras português", igual a ele raie o sol futuro. A propósito, com a autoridade do historiador e do ensaísta, que o tempo viria a confirmar, o escritor Joel Serrão, um jovem professor alevantado contra os corporativismos e a mediocridade que topou nos começos da carreira, já em 1946 afetaria com intuição e percuciência o valor de Agostinho da Silva. Em torno do livro Vida de William Penn, que em edição particular o nosso autor publicava na série das suas Biografias, deixou escrito com clareza: "Em nenhuma obra literária portuguesa me parece ser mais vincada a indissolúvel unidade do homem e do escritor como na de Agostinho da Silva - e este facto é uma consequência, ao que creio, da inteireza mental e ética do homem". Ele "é um dos casos mais relevantes da cultura portuguesa dos nossos dias". "Pelo valor do homem, pelo seu talento literário (...) é, quanto a mim, um dos maiores, senão o maior escritor da língua portuguesa contemporânea".

Se o Leitor ainda não souber, esta Presença é um bom passo, certamente essencial."

(Texto recolhido de Presença de Agostinho da Silva no Brasil. / org. Amândio Silva e Pedro Agostinho; [pref.: Alma oceânica. José Santiago Naud]. - Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2007, p. 44-45)

16 de abril de 2011

Mensagem agostiniana

"Em toda a história do mundo foram sempre poucos os imaginadores, para além naturalmente de toda a gente que imagina haver mundo; hoje, porém, parece ter diminuído o número de imaginadores; certamente porque aumentou o total da população; se perdem na massa. Muita cinza, pouca brasa."

(texto recolhido de Reflexões, Aforismos e Paradoxos. Brasília: Editora Thesaurus, 1999,p. 115.)