6 de abril de 2011

Quiosque da CAS


Edições da Galiza" e a "Academia Galega da Língua Portuguesa" (AGLP) publicam a nova versão dos "Cantares Galegos" de Rosalia de Castro segundo o último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.


Esta versão foi realizada e dirigida polo membro da Academia e Prof. Dr. Higino Martins Esteves, constando de 248 páginas entre preliminares, texto e notas finais.

Se alguma vez um livro foi capaz de mudar a trajetória da escrita, da língua e por tanto da imagem que uma nação tem de ela própria e oferece ao mundo é este. Foi alvorada que abalou em saudades o duro coração dos galegos e rompeu para sempre a tradição de seqüestro noutra língua. Exemplo de tão alegre e melâncolico ritmo demonstrou possível uma literatura galega, radical e moderna, na língua que empregava a gente para cantar e viver, na única em que podiam ser exprimidas todas as subtilezas do ser, toda a complexa, longa e assanhadamente apagada História nacional. Os Cantares Galegos, nas asas românticas dos lieder, na polêmica céltica dos Barzaz Breiz, em diálogo com as Espanhas de Antonio Trueba, são testemunho e reivindicação da essência poética e musical galega, síntese intensa de leituras, melodias, ares, ditos, ambiente e conversas sobre folclore e nação.

Escritos quando agoniza a I Restauração bourbónica espanhola (1863), num momento em que a Galiza liberal luta pola modernidade, celebrados como bandeira antes da chegada da II Restauração canovista nas Espanhas, são, coincidindo com os sonhos vitais da autora, desafio e desabafo, presente e jogo poético de amor; símbolo e mensagem de uma entusiasta moça dotada de raro talento artístico e tremenda potência intelectual.

Se há um programa é este: o da reivindicação dessa língua familiar e cultura herdada em farrapos, aprendida sem mais escola que a das aldeias e sem gramática de nenhuma classe, que aspira por próprio esforço e constância, em construção permanente desde aquela, a levar o nome de Galiza ao lugar onde lhe corresponde entre as nações da Terra.


Cuidai, que começa...

Para saber mais acesse: http://imperdivel.net/

Galeria de Rômulo Pinto Andrade


Rômulo Andrade tem adotado os cerrados, desde a década de 70, como mote para pensar o Brasil mais profundo. Inspirado pela obra de Carmo Bernardes, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Paulo Bertran entre outros escritores, músicos e poetas que cantaram esse rico e frágil ecossistema, chegou à idéia da Poética do Cerrado – proposta de reflexão sobre a região "core" do Brasil através do diálogo entre as artes visuais e a poesia. Artista de grande sensibilidade, atento aos detalhes das formas e à harmonia das cores, estampa cenários que mesclam realidade e fantasia, abrindo novos horizontes para quem aprende a ver o Cerrado. Diversas obras apresentadas nesta galeria retratam as belezas da região da APA de Cafuringa, antes mesmo da sua criação, durante as décadas de 70 e 80. Artista plástico prendado por seu talento, cobre de poesia as aberturas das Seções deste trabalho com suas obras maravilhosas, inspiradas na magia do Cerrado. Sempre em busca de novas linguagens, Rômulo nos brinda aqui com desenhos em técnicas mistas, em obras emblemáticas da cultura Candanga, e trabalhos mais recentes, recriando elementos das culturas ameríndias. Radicado em Brasília, Rômulo formou-se em Artes na Universidade de Brasília e atua como ambientalista e artista plástico.

( Texto de Pedro Braga Netto)

4 de abril de 2011

Os mambembrincantes amigos da CAS

Mensagem agostiniana



"[...] todo o homem é livre para examinar e escolher; [...] toda doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus."


(Trecho recolhido de SILVA, Agostinho. Textos Filosóficos I. Lisboa: Âncora Editora, 1999, p. 81.)

3 de abril de 2011

Eugénio de Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

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É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

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Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

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Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

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É na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.

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Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

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Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

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A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.

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Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

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*Sê tu a palavra*

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

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*Colhe todo o oiro*

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

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Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

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Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?

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Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

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De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

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Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.

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Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)

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Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

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Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

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À breve, azul cantilena
dos teus olhos quando anoitecem.

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Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.

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A raiz do linho
foi meu alimento,
foi o meu tormento.

Mas então cantava.

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Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

(Seleção de Rômulo Pinto Andrade, Artista Plástico e Educador)

2 de abril de 2011

O quanto longe alcança o pensamento de Agostinho da Silva


No artigo que escreveu para o livro Agostinho, publicado em 2000, o filho do filósofo português, Pedro Agostinho (foto ao lado), afirmou:

"(...) que se perguntassem ao Professor qual a coisa mais importante que tinha feito no Brasil, ele diria sem hesitar que foi a intervenção na política internacional (1959–1961), e, para esta, o Centro de Estudos Afro-Orientais da hoje Universidade Federal da Bahia."

1 de abril de 2011

Em Convergência da Língua Portuguesa

ASSENSO DA FÉ: 
O PORTUGUÊS COMO LÍNGUA OFICIAL 
NOS QUATRO CONTINENTES 

 
Enilde Faulstich 

Pós-doutorado com estágio feito nas áreas de Terminologia, Lexicografia e Políticas Lingüísticas no Département de langues et linguistique, Faculté des lettres da Université Laval, Québec, Canadá. 


No Sermão de Santo Antônio, também conhecido como “Sermão de Santo Antônio aos peixes”, pregado na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1654, o Padre Vieira escreve uma alegoria - um tipo de metáfora - por meio da qual compara uma realidade de caráter abstrato com uma expressão concreta, visível, a fim de atingir uma percepção plástica do objeto, uma personificação daquilo que não é pessoa. Neste Sermão, Vieira louva que “ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.” – eis uma das alegorias, se não a principal, do Sermão citado. Em continuação diz Vieira que:
Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António , querendo-o lançar da terra, e ainda do mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vícios, porque lhes não queria falar à vontade, e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos, e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como se tivessem entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados, e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem razão.
Bem, fizemos um recuo no tempo — fomos ao séc. XVII — para, a partir dessa alegoria de Vieira, estabelecer uma conversa política — de Política Linguística, melhor ainda, de Política da Língua Portuguesa. Vejamos. A chegada dos portugueses aos portos, tocados pelos navegantes, criou o mundo da Língua Portuguesa transplantada, em que, por meio de missões, a língua foi implantada. Depois disso, criados os Estados nacionais, o Português desenhou o espaço geopolítico do que seria a Lusofonia no mundo. Séculos já decorridos, as Nações constituídas por embates internacionais e locais fixaram comunidades de fala, com línguas resistentes, que não se deixaram assimilar pela política missionária que tomou conta da terra, onde passaram a habitar nativos e portugueses. Mesmo subjugado ao veio capitalista dos colonizadores, cada um dos Estados se manteve original e, assim, angolano, caboverdiano, guineense, moçambicano e santomeense são africanos, brasileiro é sul-americano, timorense é asiático e português é europeu. Ninguém virou o outro, e, tampouco, os outros viraram um. O certo é que, na contemporaneidade, uma forma de aproximar culturas de povos que tão distantes vivem surgiu da vontade política do Brasil a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — CPLP —, constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Talvez essa tenha sido motivada por uma nova intenção de reinterpretar Lusofonia, nos moldes dos blocos de economia política, que vigem no mundo. No entanto, duas questões, que procuraremos relacionar, direta ou indiretamente, ao título desta palestra, merecem nossa reflexão. A primeira questão que trazemos à mesa do debate é se a CPLP é uma comunidade de assenso. E a segunda, tomando de empréstimo a alegoria do PE. Antônio Vieira, é saber se nós, participantes da CPLP, somos PEIXES. 

Assenso, relembremos, quer dizer concordância, consentimento, adesão mental, e, ainda, do ponto de vista da filosofia moderna, aceitação da verdade de uma proposição. Isso posto, concordamos que a CPLP é uma comunidade de assenso. Mas, para além desse sentido genérico, cabe questionar se a CPLP é uma comunidade de assenso de fé ou de assenso pela fé. Eis que continuamos com a questão aberta. Adiantemos que não estamos fazendo um jogo de palavras, mas querendo discutir a ordem política da CPLP, por meio do papel que a Língua Portuguesa representa no Estado supranacional em que está inserida e que tem efeitos significativos, e distintos, na estrutura cultural de cada país-membro da Comunidade. Para melhor esclarecer o que queremos aqui dizer, retomemos os estatutos da CPLP. Nos Estatutos da CPLP, documento originário do ato de criação, três são os objetivos gerais: 1) «concertação político-diplomática entre os seus Membros em matéria de relações internacionais, nomeadamente para o reforço de sua presença [da CPLP] nos fóruns internacionais»; 2) «a cooperação, particularmente nos domínios económico, social, cultural, jurídico e técnico-científico»; 3) «a materialização de projectos de promoção e difusão da Língua Portuguesa» . Até então, a língua portuguesa no espaço da CPLP tem sido muito mais uma representante da latinidade do que da lusofonia. A distinção se faz justamente pelo plurilinguismo de cada um dos países, em que uma língua de origem latina — o português — se mantém no contraste e no contato com línguas não latinas, de tal forma que a CPLP não sabe muito bem o que fazer com a promoção e a difusão da Língua Portuguesa. Para que a CPLP materialize, de fato, o uso da língua portuguesa, a “implantação” da Língua deverá ser maior do que a “difusão” e do que a “promoção”, sob pena de se manter como uma metáfora, uma alegoria, em que os “comunitários” são “peixes de duas boas qualidades: ouvem e não falam.” O que temos visto para a promoção e difusão da língua são projetos que falam sobre a língua portuguesa e sobre as línguas locais, mas não vemos a execução de projetos de ensino e de aprendizagem que levem os cidadãos a exercitarem a fala em Língua Portuguesa, na variedade do Estado, e nas variantes resultantes, bem como em línguas locais, ao lado do português. Projetos operacionais de fala e de escrita implantarão o bilinguismo ou o plurilinguismo necessário, desde que fundamentados na lingüística das línguas e executados por linguistas que saibam o que precisa ser feito. No âmbito dessas reflexões, é preciso compreender que, do ponto de vista de política de língua, o binômio Estado-Nação não funciona, porque o Estado, que contém o conceito de Nação, possui soberania como país, com estrutura e organização política próprias, com controle financeiro e administração autônomos. Por sua vez, a Nação é percebida na abstração de território, que tem limites definidos e símbolos nacionais exclusivos, que sobrelevam o espírito cívico (de certo, cultural). Entre estes símbolos, se encontram as línguas, sejam elas quais forem. Cabe inserir, ainda, nesse conjunto de conceitos, o de política linguística, que, no dizer de Calvet, é o conjunto de escolhas conscientes no que diz respeito às relações entre língua(s) e vida social.
Para finalizar, retornemos à questão posta anteriormente: a CPLP é uma comunidade de assenso de fé ou de assenso pela fé? Digamos que, até então, como língua oficial nos quatro continentes, o Português mantém uma Comunidade de assenso pela fé, quando deve, pelos princípios sociais, históricos, lingüísticos, políticos e comunitários, manter o assenso de fé, porque, enquanto aquele (pela) é um caminho, este (de) materializa a constituição do objeto de análise. A CPLP é, pela sua natureza, um importante veículo de manutenção do vigor da Língua Portuguesa nos quatro continentes. Porém, as qualidades de promoção e difusão, enunciadas em um dos objetivos gerais, precisam, de fato, fazer parte de um escopo funcional cujos fundamentos sejam não só capacitar os indivíduos a falar e a escrever em português, mas também nas primeiras línguas, porque estas resultam de aquisição da linguagem, que não pode se perder, tendo em vista que é ela — a linguagem — que mantem as especificidades culturais de cada País-Membro da CPLP.