30 de abril de 2011

poétiCAS

Língua Portuguesa
(autor: Gerson Valle, 1944, Brasil)

Mares de fala portuguesa,

pregadores da paz de toda parte,

lembremos da intenção inicial

de quando se partiu de Portugal,

dos sonhos da aventura posta em arte

por mares nunca dantes navegados.

Cantemos a epopéia vinda de Lisboa

nas vozes de Camões e Fernando Pessoa.

Para que fosses nosso,

quantas noivas ficaram sem casar,

Ó mar salgado, quanto de teu sal

São lágrimas de Portugal!

Valeu a pena?

Tudo vale a pena

se a alma não for pequena.

Quem quer passar além do Bojador

tem de passar além da dor.

Além de sofrimento

e dos males da civilização,

a história trouxe um porto mais humano

no caminho marítimo lusitano.

O aventureiro quis, por sua ação,

sonhar por outro mundo, mudar tudo.

E as descobertas lhe obrigaram a passar

das terras conquistadas à paz de outro mar!

Além do Cabo das Tormentas,

além de todo sofrimento,

a história traz um porto mais humano

no caminho marítimo lusitano.

A paz espera o seu momento;

o encontro de culturas diferentes

no sonho da aventura a se formar

num barco da mesma língua a navegar.
Texto e imagem recolhidos do encarte do CD da Cantata dos Dez Povos/Direção: Maestro Jorge Antunes.

28 de abril de 2011

Para Reflexão

Luz da Consciência



Estamos nessa vida para aprender, continuamente, e são raras as vezes que saímos do círculo vicioso dos acontecimentos, ou seja, todas as situações, todas as experiências por que passamos formam um abismo entre o que queremos, o que esperamos que aconteça e aquilo que verdadeiramente se manisfesta na nossa vida. O meio externo só reflete para nós aquilo que não queremos. Passamos a maior parte do nosso tempo nesse dilema, correndo atrás da felicidade, mas a realidade é uma só: esse mundo não pode fazer ninguém feliz. E por quê?
Gastamos muito tempo resistindo àquilo que não queremos que aconteça ou que se repita e acabamos atraindo justamente o que mais tentamos evitar. Isso acontece porque não encaramos as situações como elas se apresentam no momento, assumindo responsabilidade por elas. Não agimos e pensamos com calma, coerência, refletindo e perguntando, ao nosso coração, as respostas. Ficamos na negação e culpando as pessoas ou o meio externo pelos nossos fracassos.
Em uma das passagens bíblicas, Pedro perguntou a Jesus: "Qual é o pecado do mundo, aquele pelo qual se deve morrer?"
Jesus respondeu: "O pecado não existe; sois vós que o criam quando, assim como no adultério, sois infiéis à vossa verdadeira natureza e agis conforme o hábito de vossa natureza corrupta. Por isso o dom da luz Crística foi colocado em vós e, por essa razão Eu vim para vosso meio para restituir cada alma à sua verdadeira origem".
Aqui, na matéria, somos infiéis à nossa própria natureza porque não percebemos que existe um ponto de equilíbrio sagrado entre as realidades física e espiritual da consciência. A ajuda que devemos pedir é que sejamos auxiliados a descobrir esse ponto de equilíbrio sutil que habita o coração e esse poder é gerado por duas forças complementares: a luz e a escuridão.
Elas criam toda a perfeição. Se continuarmos ignorantes com relação a essas duas forças atuantes em todos, iremos fracassar em manter o equilíbrio em nossos relacionamentos, criando desarmonia, deixando que todas as dores e angústias vividas pelo espírito se revelem no momento presente.
Corrompemos a divindade existente em nós (as duas forças) na maioria das vezes para agradar aos outros, para sermos aceitos, ou mesmo para evitar situações de sofrimento que não queremos mais. Olhamos para o outro da mesma maneira, criando expectativas, esquecendo que dentro dele, assim como em nós, existe luz e escuridão, provavelmente, também desequilibradas.
Todo ser humano que conseguir agir pautado na verdade que todos têm seu ponto de equilíbrio, que, independentemente das diferenças individuais, possuem um ponto de união comum a todos, sairá da expectativa de que alguém o faça feliz. Perceberá que todos podem ser felizes, se quiserem, agora.
Não estamos aqui para fazer coisas, ter idéias e, sim, para nos livrarmos delas. Libertarmo-nos de crenças e padrões equivocados sobre nós mesmos e sobre os outros. E ninguém poderá fazer isso em nosso lugar. Um dia aceitamos essas idéias e crenças e agora somos nós que temos que nos livrar delas.
Só podemos ser felizes agora. Se nos preocuparmos em sermos felizes amanhã, ou ficarmos chorando a infelicidade de ontem, esqueceremos de ser felizes agora. Isso é adquirir o domínio da mente e alcançar esse ponto de equilíbrio. E não espere ser valorizado por isso aqui nessa sociedade, pois todo aquele que alcança esse feito, que passa a ser fiel à sua natureza, torna-se um verdadeiro mestre. Nesse ponto esse ser jamais irá procurar posições de poder, nunca irá oferecer aos outros técnicas milagrosas de cura, e nem lhe dirá o que deve ou não fazer. Ele procurará uma situação de anonimato e, simplesmente, irá encorajá-lo a assumir total responsabilidade pelo que lhe acontece. Irá auxiliá-lo a assumir seu Cristo interior para ser feliz no AGORA, no momento presente.(Vera Godoy)

(Texto enviado por Jayme Andrade)

23 de abril de 2011

Ressurreição

Bajo el Cielo (Pintura da artista argentina Marta Coll)


"Mas, sendo o Deus-Absoluto e a Trindade-Mundo simultâneos, como simultânea é a "expansão e a contração do Universo", natural é que tudo se processe simultaneamente em dois sentidos: o da passagem do absoluto ao relativo e o do trânsito do relativo ao absoluto, sendo o primeiro movimento o da passagem da liberdade ao determinismo e o segundo o processo inverso. Se na constituição do Deus-Absoluto como Trindade-Mundo a lei é o determinismo, podendo matematizar-se o real, já "ao retrair-se o Universo, ao passar a Trindade a Deus, [...] restabelece-se como lei a liberdade e o que depois surge pode ser totalmente diverso". Ou seja, na sempiterna e instantânea pulsão reintegrativa do criado no incriado, isto é, em mais radical instância, na decriação de Deus como criador, ou, pura e simplesmente, na decriação de Deus, no recolhimento da trinitária e cosmicizante auto-consciência divina, para além mesmo da sua paraclética unidade, à sua intimidade imanifestada, exuberante de virtualidades inatualizadas, tudo volta a ser possível e um mundo realmente novo pode advir que não seja uma mera reorganização do anterior, embora exteriormente o possa parecer. Há em tudo, a cada instante, como se pode verificar na experiência humana, a possibilidade de um início radical, a possibilidade da explosão de algo de absolutamente inédito. O que Agostinho tematiza em termos de salto quântico, por "uma concentração suprema do espírito" e da vontade, que transforme o sujeito e o mundo, ou de "estradas de Damasco", a cada momento entreabertas, onde, porventura já sem querer, se dá a metanóia pela qual "um homem se aniquila" e "outro diferente, até contrário, surge". Como conclui: "O Universo, a nós nos incluindo, não é estático: vai e vem, sobe e desce".


("Criação e Mística em Agostinho da Silva", in TEMPOS DE SER DEUS/A Espiritualidade Ecumênica de Agostinho da Silva, de Paulo Borges, Lisboa: Âncora Editora, 2006.)



22 de abril de 2011

poétiCAS

Viva o dia da Terra...
por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria... Caetano


Pintura de Rômulo Andrade

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria...
Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço prá ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria...
Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria...
Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria...
De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria

Na sacada dos sobrados
Da velha são Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria

Terra!

Reflexão: o que diria Agostinho deste fingimento...


TESE DE MESTRADO NA USP por um PSICÓLOGO

'O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORMEE A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da
'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas
enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado
sob esse critério, vira mera sombra social.

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou
oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali,
constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres
invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu
comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma
percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão
social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de
R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição
de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode
significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o
pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não
como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP
passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes,
esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me
ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão',
diz.
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma
garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha
caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra
classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns
se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo
pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e
serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num
grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei
o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e
claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de
refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem
barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada,
parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar
comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí
eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo
andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na
biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei
em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse
trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O
meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da
cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar,
não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a
situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se
aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar
por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse
passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está
inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito
que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses
homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa
deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são
tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo
nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.

*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!



(Texto enviado por Jayme Andrade)

21 de abril de 2011

Mensagem agostiniana



Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros, se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu, do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus.

Se o Criador o tivesse querido juntar a mim, não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence.

São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.