6 de junho de 2011

poétiCAS


Ainda a língua



Tanta discussão inócua sobre a língua

Só se fala em língua culta, inculta...

Com isso passaram a usar a língua ferina.

Esquecem que boa mesmo é a língua vulgar,

Aquela do prazer, que é devassa, invasiva,

Que fala só em tocar, sem emitir som...

Vai ver esta é que estão precisando usar.

E nem falei da língua quente, abrasiva

Esta que nos incendeia e arde feito brasa.

Ah! Bom seria que todos soubessem:

Língua é melhor quando usada pra beijar.


Autora:Vera Nilce

CAS em alerta: O elogio da motosserra



Aprovação do Código Florestal pela Câmara: O elogio da motosserra
Por Emanuel Medeiros Vieira

"Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que dinheiro não se come.” (Greenpeace)
A aprovação do inominável a do Código Florestal pela Câmara dos Deputados É UM RETROCESSO AMBIENTAL QUE – SE NÃO FOR MUDADO NO SENADO OU VETADO PELA PRESIDENTE DILMA – afetará as atuais e as próximas gerações de brasileiros.
É o elogio da motosserra, é a apologia do desmatamento. No fundo (não exagero) é a defesa da morte e da destruição.
É claro que se o Senado não mudar o código, as mudanças propostas irão gerar uma cadeia irreversível de devastação ambiental que irão danificar a paisagem do Brasil para sempre.
Os desmatadores estão fora de controle, incentivados pela promessa de anistia e da nova regulamentação. O desmatamento se multiplicou a um nível astronômico. O desmatamento da Amazônia atingiu em abril 593 km quadrados da floresta, cinco vezes mais que o índice registrado no mesmo mês de2010, segundo dados oficiais divulgados em 18 de maio.
Emendas dos ruralistas irão anistiar crimes ambientais cometidos antes de 2008, e acabarão com a proteção a áreas vulneráveis, tais como matas ciliares e topos de morros, áreas em que a cobertura florestal é crucial para prevenir deslizamentos e enchentes como as que recentemente devastaram comunidades de norte a sul do país.
Os constantes assassinatos de ambientalistas e de defensores da Amazônia no Norte, não estarão ligados à certeza da impunidade? Não adianta o governo só fazer reuniões e se lamentar.
É PRECISO AGIR! É PRECISO NÃO TER MEDO!

É uma luta duríssima!
Durante a campanha eleitoral, Dilma prometeu vetar qualquer lei que aumentasse o desmatamento.
Cobremos a sua promessa!
(Salvador, junho de 2011)

Do Agostinho em torno do Pessoa

Sobre Fernando Pessoa
direi a coisa correta
quem é mesmo criador
cria poema e poeta.

Olá meus filhos libertos
Álvaro Reis e Caeiro
que sorte foi para vós
vosso pai não ter dinheiro.

POEMA QUE PESSOA NUNCA PÔS NA ARCA

De Álvaro sei como sei
desse latim do Ricardo
do pensamento de Alberto
luz incerta um gato pardo

sei de algum outro tão bem
como ele sabe de mim
e de quantos sei ainda
metidos na arca sem fim

e de Bernardo esquisito
como espelho em mim cravado
se se quebra me quebro eu
mas sangue só de meu lado

sei com todo o pormenor
de tudo o que me nasceu
sei de toda a criação
só não sei o que sou eu.

(Textos recolhidos de SILVA, Agostinho da. Do Agostinho em torno do Pessoa. Lisboa:Ulmeiro, 1997.)

5 de junho de 2011

Informe da CAS

Para os afrodescendentes da ONU tem inscrições abertas até 15 de junho
No contexto do Ano Internacional dos Afrodescendentes, a Unidade Anti-Discriminação do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) está lançando um programa de bolsas para descendentes de africanos, no período de 10 de outubro a 4 novembro de 2011. O prazo para envio de propostas é dia 15 de junho de 2011.
O programa de bolsas proporcionará a oportunidade de aprofundar a compreensão do Sistema de Direitos Humanos das Nações Unidas e de seus mecanismos, com foco em questões de particular relevância as pessoas de ascendência africana.
Isso permitirá aos bolsistas contribuir de forma mais efetiva à proteção e a promoção dos Direitos civis, políticos, econômicos, sociais e cultural dos Afrodescendentes em seus respectivos países e comunidades.
Quem pode se candidatar?
O candidato deve ser afrodescendente;
O candidato deve ter no mínimo 4 anos de experiência no tratamento de questões relativas aos afro-descendentes ou minorias;
O candidato deve ser fluente em inglês;
Uma carta de apoio de uma organização afrodescendente ou da comunidade.
Processo de Seleção
Na seleção dos bolsistas, as questões de gênero e o equilíbrio regional serão levados em conta. Os documentos apresentados deverão estar em Inglês.
Direitos
O candidato selecionado tem direito a uma bolsa para cobrir alojamento, as despesas básicas em Genebra, seguro básico de saúde, bem como um retorno de avião com bilhete de classe econômica.
Inscrição
Os candidatos interessados são convidados a apresentar o seu pedido por e-mail para africandescent@ohchr.org ou por fax para: 004122-928 9050 com uma carta de apresentação indicando claramente “Application to the 2011 Fellowship Programme for People of African Descent”, com os seguintes documentos:
application form: http://www.ohchr.org/Documents/Events/IYPAD/ApplicationFormIYPAD.pdf
curriculum vitae
carta de motivação (máximo de 1 página) onde o candidato explicará sua motivação para a candidatura, o que ele/ela espera alcançar através da bolsa e como ele/ela usará o que aprendeu para promover os interesses e os direitos dos afro-descendentes
uma carta de apoio de uma organização/entidade parceira.
O prazo para o recebimento de inscrições é 15 de junho de 2011. Somente os candidatos pré-selecionados serão contatados.
http://onu.org.br/programa-de-bolsas-para-afrodescendentes-da-onu-tem-inscricoes-abertas-ate-15-de-junho/

Um Debate promissor e preciso

UMA TROMBADA DO MEC
AFRONTA O BRASIL
José J Peralta
O texto do senhor SL parece apenas mais um “samba do crioulo doido”, de tão incoerente e frágil como se apresenta.
Apesar de seu propalado doutorado em linguística, sinto dizer-lhe que, no caso em pauta, os não linguistas, (alguns), a que se refere, sabem muito mais o que estão falando do que ele. Efetivamente, nós linguistas, não temos e nem pretendemos ter o monopólio da ciência da linguagem humana, até porque esta tem razões que própria razão desconhece.
Linguista que desconhece o capítulo “Sistema, Norma e Fala” tem grave falha em formação científica.
A linguagem é sempre muito mais do que um modelo linguístico, sempre reducionista, como todos os modelos. Não podemos, pois, erigi-lo como uma lei prepotente que tudo resolve. No cientista não cabe a arrogância do dogmático que se posiciona além do bem e do mal..., capaz de dar solução a todos os problemas, contradições e precariedades inerentes à condição humana. A questão de ensino da Língua materna é uma questão nevrálgica que interessa a toda a nação, onde os “linguista” são uma parte mínima a ser ouvida, sempre criticamente, rejeitando rolos compressores, sempre autoritários. Sem dogmatismos prepotentes e às vezes terroristas...
O linguista, se tiver uma visão holística sempre pode dar boa contribuição. Os dogmáticos e de visão meramente descritiva atuam em campo muito limitado. O saber da linguagem humana, escrita ou falada, portanto duplamente articulada, passa pela linguística descritiva, mas passa também pela gramática normativa, pela semiótica, pela sociologia, pela psicologia, pela Política da Língua e muito mais. Refiro-me a Política, com P maiúsculo.
Os grandes mestres Antônio Houaiss, Celso Cunha, entre outros, conheciam bem a questão, hoje, por muitos esquecida.
Querer sair a campo como tutores do ensino da Língua materna, sem ouvir, com respeito, outros especialistas, é, no mínimo, um acinte e um contrassenso.
A língua, além do capítulo de Linguística descritiva formal, tem dimensões semânticas, estilísticas, psicológicas, políticas, culturais etc, etc. Até a dimensão econômica que não há como descartar. Não dá para ter atitudes simplistas, em um assunto tão complexo e fundamental num pais civilizado, tal qual vem acontecendo.
Olhar uma só dessas dimensões é miopia. Pode levar a graves consequências. Falar do ensino de Língua Materna não é questão para neófitos de parca visão sócio-político-cultural.É um acinte criticar jornalistas e escritores por darem sua opinião nesta questão tão séria, qual seja: o MEC intervém de modo irresponsável e atabalhoado no ensino da Língua Portuguesa no Brasil.
Os autores citados pelo senhor SL, (Mônica, Tezza, Garcia, Lacerda e Buarque) não são, certamente, os pensadores mais avalizados para tratar sobre a questão em pauta do ponto de vista lingüístico . São pessoas avalizadas, como pensadores, como formadores de opinião e como cidadãos respeitáveis.
Neste caso ninguém tem o Monopólio do saber. O que não podemos deixar de saber é que há muitos outros lados da questão que não podem ser esquecidos ou que podem ser tratados em outros parâmetros e com outros paradigmas.
A Língua falada por um povo, devidamente normatizada, passa pelos modelos linguísticos, mas vai muito mais além, entrando nas questões de Política da Língua, tornando-a uma das forças matriciais da unidade e da soberania nacional.
Querer expor ideias esdrúxulas, de alguns dos autores citados na bibliografia, como se fossem a última palavra, seria, efetivamente, uma tragédia cultural. Pois foi nessa canoa furada que o MEC embarcou, ingenuamente (?!), cometendo um dos piores erros do MEC dos últimos tempos. Um erro primário, ofensivo a tantos pensadores, também linguistas e de outras esferas do conhecimento, que trataram este assunto com a maior seriedade e respeito. Voltarei ao assunto em breve. Aguarde.
[Nota: Este texto é um comentário a um artigo publicado no site http://casaagostinhodasilva.org ]

O regresso ao futuro passado






"Eu, outro dia, dizia a um amigo: "Eu vou inventar outra razão dos Descobrimentos Portugueses." É que os portugueses com essa saudade que tinham de andar colhendo fruta e não trabalhando coisa nenhuma começaram a ver de que maneira é que a coisa podia, podia voltarmos a isso, e começaram a construir Portugal, e depois embarcaram e andaram pelo mundo, e toda essa coisa. Os Descobrimentos foram a vontade de descobrir o caminho para voltar a não trabalhar, não é assim? Para se divertir à vontade, pronto, e a coisa foi por aí fora... acho que é uma boa razão para os Descobrimentos. Os Descobrimentos que os portugueses fizeram foi para fazer com que o futuro coincidisse com o passado. Que é a ideia de Einstein. O regresso ao futuro que seja o passado, ele próprio. Muito mais rico, não é?

Porque aqueles cavalheiros, por exemplo, aqueles cavalheiros não se podiam lembrar de ter lido Shakespeare, ou qualquer coisa desse género, e nós podemos lembrar dessa história. Tivemos uma série de aventuras que será muito mais interessante recordar um dia, as coisas todas que fizemos e por onde andámos, por causa dessa história, não é? A aventura foi, realmente, muito interessante. Tudo o que se passou. Tudo o que se viu."
Texto recolhido do livro Agostinho da Silva - Ele Próprio. Portugal: Zéfiro, 2006, p. 119 - 120.

2 de junho de 2011

Roupa na língua?


Dizem muitos entendidos que a língua é como a roupa. Conforme a situação se usa. Assim como seria ridículo ir de fraque escalar os Alpes ou ir de botas de alpinista para um casamento, seria também ridículo usar linguagem erudita em situações coloquiais ou populares e vice-versa.
Nada mais confuso, nada mais enganador! A comparação é boa, aliciante e sugestiva, por isso ela é extremamente perigosa e tem de ser denunciada, aos quatro cantos.

E por que está errada? A língua é de índole completamente diferente. A comparação, então, só se aplica parcialmente e, por isso, é tão enganadora.

A primeira grande diferença nesta comparação tem a ver com o uso. Geralmente, a roupa se conserva por não usar, e quanto mais se usa, mais se gasta e se deteriora até se ter de comprar uma nova. A língua é completamente ao contrário. Paradoxalmente, se não se usa, gasta-se e deteriora-se. Por outro lado, quanto mais se usa a língua, e se usa bem, mais nova, brilhante e vigorosa fica.
A segunda diferença tem a ver com a estrutura. A língua tem uma estrutura orgânica, mais parecida com com o corpo humano do que com a roupa. De alguma forma, a gramática é o seu esqueleto. Ora, alguém, normalmente, pensa mudar de esqueleto, conforme as circunstâncias? Loucura!

A primeira conclusão que podemos tirar é de que devemos incentivar o uso do núcleo da linguagem erudita e ensiná-la desde a tenra idade, e não confundir as pessoas com padrões diversos: focar, ensinar e disseminar o padrão, e referir e explicar os desvios. Como diz o velho ditado “Para baixo todos os santos ajudam”. A vida encarregar-se-á de ensinar os desvios a cada um, que saberá encaixá-los no seu quotidiano. Só o uso frequente e o respeito por um padrão erudito nuclear aumentará a eficiência linguística e a comunicabilidade sem ambiguidade e confusão.
A segunda conclusão é de que se deve insistir no núcleo do padrão da linguagem erudita na grande maioria das situações. Isto não impedirá o uso de qualquer desvio em qualquer circunstância, pelo contrário, este terá um novo sabor se tivermos claro o padrão. Da mesma forma isto não será um desrespeito pelas diferenças. Antes, quanto mais claro, eficiente e unívoco
for o idioma de intercomunicação, melhor repararemos nas diferenças regionais, sociais, etc, e as saborearemos e partilharemos, sem confusões.
Deste modo não tem sentido, por exemplo, o fato de que são muito raros os filmes brasileiros onde seja respeitado o padrão linguístico exigido numa prova de vestibular; mesmo em filmes dublados, estrangeiros e em épocas antigas.

O que muitos desses senhores que desejam a confusão querem, eu sei o que é: que o povo ande com roupa na língua, enquanto eles, com a sua nua e agitada, chicoteiam as massas, dominando-as. E àqueles que não conseguem dominar, entretêm-nos com atividades culturais onde os elogios recíprocos os anestesia da situação atual da língua, ou lhes dá uma falsa esperança de que essas atividades vão contribuir alguma coisa para a elevação cultural do povo. Não tenho dúvidas: não há emancipação sem emancipação linguística. Não há igualdade de oportunidades sem a mesma fluência no padrão nuclear linguístico, para todos.