4 de outubro de 2011

Espólio do filósofo Delfim Santos doado à Biblioteca Nacional de Portugal

Delfim Pinto dos Santos, natural do Porto, licenciou-se em Ciências Histório-Filosóficas na Faculdade de Letras do Porto, onde teve como mestre Leonardo Coimbra e por condiscípulos Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, José Marinho ou Santana Dionísio.

Ao longo da sua carreira Delfim Santos participou e proferiu conferências em diversos congressos nacionais e estrangeiros e colaborou em numerosas publicações periódicas, entre as quais a revista A Águia, de que chegou a ser director, Revista de Portugal, Presença, Revista do Porto, Inquérito, Diário Popular, Revista da Faculdade de Letras, Litoral, O Mundo Literário, Escola Portuguesa, Revista Brasileira de Filosofia, Arquivos da Universidade de Lisboa ou Diário do Norte. Algumas dessas colaborações foram editadas em separatas. Publicou ainda, por exemplo, Linha Geral da Nova Universidade de Coimbra (1934), Situação Valorativa do Positivismo (1938), Da Filosofia (1939), Conhecimento e Realidade (1940), Notes pour une Étude sur Descartes (1944), Fundamentação Existencial da Pedagogia (1946), Meditação sobre a Cultura (1946), A Criança e a Escola (1959), tendo prefaciado e preparado introduções e versões de obras de autores como Friedrich Nietzsche, Régis Jolivet, Hermann Hesse e Karl Jaspers.

Agora, seu espólio está disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa, integrando o seu Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea. Permitirá aos investigadores estudar sobre fontes primárias o percurso e pensamento de Delfim Santos, autor cujas obras completas têm a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian.

Fonte: http://www.bnportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=638%3Aespolio-do-filosofo-delfim-santos-doado-a-bnp&catid=49%3Aaquisicoes&Itemid=677&lang=pt

2 de outubro de 2011

Assenso da fé: O português como língua oficial nos quatro continentes



Por Enilde Faulstich
Professora Doutora do Departamento de Linguística, Português
 e Línguas Clássicas, Instituto de Letras,
 Universidade de Brasília – Brasil

No Sermão de Santo Antônio, também conhecido como “Sermão de Santo Antônio aos peixes”, pregado na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1654, o Padre Vieira escreve uma alegoria — um tipo de metáfora — por meio da qual compara uma realidade de caráter abstrato com uma expressão concreta, visível, a fim de atingir uma percepção plástica do objeto, uma personificação daquilo que não é pessoa. Neste Sermão, Vieira louva que “ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.”[1] — eis uma das alegorias, se não a principal, do Sermão citado.
Em continuação diz Vieira:

Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António[2], querendo-o lançar da terra, e ainda do mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vícios, porque lhes não queria falar à vontade, e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos, e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como se tivessem entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados, e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem razão.[3]

Fizemos um recuo no tempo — fomos ao séc. XVII — para, a partir dessa alegoria de Vieira, firmar uma conversa política — de Política Linguística, melhor ainda, de Política da Língua Portuguesa. Vejamos.
A chegada dos portugueses aos portos, tocados pelos navegantes, criou o mundo da Língua Portuguesa transplantada, em que, por meio de missões, a língua foi implantada. Depois disso, criados os Estados nacionais, o Português desenhou o espaço geopolítico do que seria a Lusofonia no mundo. Séculos já decorridos, as Nações constituídas por embates internacionais e locais fixaram comunidades de fala, com línguas resistentes, que não se deixaram assimilar pela política missionária que tomou conta da terra, onde passaram a habitar nativos e portugueses. Mesmo subjugado ao veio capitalista dos colonizadores, cada um dos Estados, visto como instrumentos de ação coletiva da nação[4], se manteve original e, assim, angolano, caboverdiano, bissau-guineense, moçambicano e santomeense são africanos, brasileiro é sul-americano, timorense é asiático e português é europeu. Ninguém virou o outro, e, tampouco, os outros viraram um. O certo é que, na contemporaneidade, uma forma de aproximar culturas de povos, que tão distantes vivem, surgiu da vontade política do Brasil: a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — CPLP —, constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Talvez essa vontade tenha sido motivada por uma nova intenção de reinterpretar Lusofonia, nos moldes dos blocos de economia política, que vigem no mundo. No entanto, duas questões, que procuraremos relacionar, direta ou indiretamente, ao título desta palestra, merecem nossa reflexão. A primeira questão que trazemos à mesa do debate é se a CPLP é uma comunidade de assenso. E a segunda, tomando de empréstimo a alegoria do PE. Antônio Vieira, é saber se nós, participantes da CPLP, somos PEIXES.


Para ler o texto na íntegra acesse o link: 
este artigo encontra-se na página 23

27 de setembro de 2011

Revista Identidades



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16 de setembro de 2011

Os Portugueses e os Índios Brasileiros

Convém desfazer equívocos

Embora compreenda o fim de um documentário sobre os Índios brasileiros e da necessidade da sua defesa e preservação, que me foi enviado como anexo num e-mail, o mesmo começa por imputar atrocidades aos portugueses, que jamais foram cometidas, resolvi escrever este texto, para melhor esclarecimento, por suspeitar que o mesmo foi concebido por um brasileiro mal informado ou anti-português.
Na verdade, desde os primeiros contatos que os portugueses sempre se deram bem com os índios e a política da miscigenação teve também lugar, como era então a grande "arma", pois, por os portugueses serem poucos, a política era a da "mistura" para mais rapidamente se estabelecerem laços de amizade (diz-se até a brincar que Deus criou o branco, o preto, o índio e o amarelo e os portugueses criaram os mestiços, no Brasil, na África e na Índia).
Claro que houve abusos e até colonos que chegaram a escravizar índios, mas isso nunca foi avante, por obra e graça principalmente dos Jesuítas, que a tanto se opuseram e o denunciaram aos reis de Portugal. Destaque para a notável ação de três deles, a partir de 1630: Pe. António Vieira, Pe. Manuel da Nóbrega e o Pe. José Anchieta. O primeiro, para além de outras ações de que D. João IV o encarregou, foi distinguido pelos Índios com o Título de "Paiaçu", que significa "pai grande". Todos eles se distinguiram na chamada pregação, mas o seu grande legado foram os colégios, criando as raízes do sistema de ensino no Brasil.
As mortandades que na verdade se verificaram entre várias tribos de Índios brasileiros, nada tiveram a ver com assassínios, mas sim com doenças, que facilmente se propagavam, tipo peste, visto os Índios não terem auto-defesas, nem sequer face a uma simples constipação (novidade para eles) e que contraíam ou eram contaminados pelos portugueses, mas isso não foi por maldade.
Na verdade, trabalhar não faz parte da cultura dos Índios, que agradecem à natureza, que lhes dá tudo o que eles precisam, segundo o seu entendimento milenar. Daí os portugueses terem caído na asneira de copiar outros e de levar negros de África para trabalharem como escravos. Isso sim é que é criticável.
Transcrevo a seguir um texto de brasileiro amigo, que reflecte precisamente essas boas relações, respeitante a um grande chefe índio, chamado ARARIBÓIA
“Maracajaguaçu, o Índio Gato Bravo Grande, cuja aldeia se localizava na Ilha de Paranapuã, atual Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, teve dois filhos: Mamenoaçu e Araribóia (Cobra da Tempestade ou Cobra Feroz).
A conquista do território brasileiro por Portugal deve muito a um grande e valoroso índio, filho de Maracajaguaçu: Araribóia. Este cacique esteve entre os principais artífices da expulsão dos invasores franceses do Brasil. Recrutado por Estácio de Sá, organizou seus guerreiros temiminós e colocou para correr o inimigo, que já se perpetuava na baía de Guanabara havia mais de uma década. Agradecido, o rei Dom Sebastião cobriu Araribóia de honrarias: deu-lhe o título de Cavaleiro da Ordem de Cristo, nomeou-o capitão e tornou-o proprietário de uma grande sesmaria em Niterói. Araribóia foi batizado pelos portugueses de Martim Afonso de Souza.”
Este Índio tem uma estátua no Rio de Janeiro. Tal como ele muitos outros sempre nos ajudaram contra os espanhóis, franceses e holandeses, em várias épocas.
Outro português que ainda hoje é lembrado e autenticamente venerado pelos Índios é PEDRO TEIXEIRA, a quem o Brasil devia há muito ter erigido uma das suas maiores estátuas, pois se a Amazónia faz hoje parte do Brasil (50% do território brasileiro), a ele e aos seus aliados Índios o deve.
Pedro Teixeira, natural de Cantanhede, onde tem a única estátua que eu conheço, era em 1639 um jovem Alferes do Exército Português. Fez amizades com várias tribos Índias e aprendeu as suas línguas, entre elas Tupi e Guarani. Foi incumbido de explorar o rio Amazonas. Reuniu cerca de 2000 famílias Índias e só com 70 portugueses desbravou toda a Amazónia, deixando marcas ou padrões e grupos de Índios. Chegou até Lima, no Perú, mas teve de voltar para trás, pois já lá estavam os Espanhois instalados. Morreu ainda jovem e está sepultado na catedral de Belém do Pará, onde a sua sepultura ainda hoje é visitada pelos Índios, que o cognominaram para sempre de "Curiá-Catu", que significa: "homem branco bom e amigo".
Ainda há meses ao ver uma reportagem sobre terras da Amazónia que os madeireiros querem tirar aos Índios, estes, em "pé de guerra" diziam - e bem - mais ou menos o seguinte: "Fora daqui! Estas terras são nossas, pois foram dadas aos nossos avós pelo Rei de Portugal!" E eu chorei e ri ao mesmo tempo.
Pelo que antecede e não só, é manifesto que os Portugueses sempre se deram bem com os índios brasileiros e o que fizeram depois da independência (1822) aos Índios não é da responsabilidade dos portugueses, mas sim dos brasileiros.
Jorge da Paz Rodrigues