30 de outubro de 2011

Novo Acordo Ortográfico



A CAS apoia o Novo Acordo Ortográfico e a urgência de sua execução em todos os quadrantes da Língua Portuguesa. Qualquer modificação no Acordo deverá acontecer durante a sua efetivação, respeitando-se as demandas sociais e as particularidades linguísticas e culturais de cada Estado-Membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

29 de outubro de 2011

Mensagem agostiniana

Ao folhear uma revista brasileira, deparei com uma sublime frase do Professor Agostinho da Silva, que logo fotografei e vos transmito.
por Jorge da Paz Rodrigues


Variantes linguísticas


O aprendizado da norma culta é crucial para a ascensão econômica de um indivíduo, pois o domínio gramatical é instrumento formador de status, entretanto, exigir de um agente linguístico o uso rigoroso de normas técnicas é o mesmo que engessar um feto em gestação.

Uma das condições de existência de uma sociedade capitalista é que haja classes sociais que se dividam em ricos e pobres. É nesse contexto que a criação de regras gramaticais torna-se preponderante: se a língua é um instrumento vivo e seu "metabolismo" provém dos próprios falantes, nada mais segregador do que  normatizá-la de tal maneira que apenas um seleto grupo tenha acesso a essa variante: a norma culta. 

A normatização lingüística não pode superar a identidade de um povo e o desenvolvimento do idioma que é vivo. Atualmente, até instituições de ensino confundem  os limites de cada variante e qualificam uma fala como certa ou errada como se a língua fosse algo semelhante a um código de etiqueta gerando, na sociedade, um problema ainda maior, o preconceito. 

O aprendizado da língua escrita é algo diferente ao da língua falada e requer estudo sistemático e muito treino. Os alunos não irão dominar essa técnica caso não forem estimulados a ler e produzir textos pela escola cujo principal papel é ensiná-los o que  lhes é desconhecido ou o que não é possível aprender no dia a dia. Assim sendo, não cabe ao professor padronizar a fala ou mesmo incentivar o preconceito lingüístico que, inevitavelmente, sufoca a oportunidade de uma reflexão crítica sobre as relações sociais e econômicas que envolvem o uso da língua.

O que seria do português, do italiano, do francês, do espanhol se o latim não tivesse sofrido alteração ao longo dos séculos? Não se trata aqui de fazer uma condenação à variante culta, mas ao modo como é ensinada. Isto é, um indivíduo deve ser educado  de acordo com os padrões da sociedade em que está inserido, todavia, privá-lo de saber que uma língua sofre modificações e que não existe certo ou errado e, sim, adequado e inadequado, é o mesmo que atestar óbito ao próprio idioma.



por Aletho Alves 
(estudante da 2ª série do Ensino Médio)

28 de outubro de 2011

O Senhor do Boi e o Mestre Agostinho da Silva



por Lúcia Helena Sá e Sara Seilert


Teodoro Freire, conhecido como Seu Teodoro, nasceu em Castanho Claro, município de São Vicente de Férrea, na baixada do MA. É neto de um escravo africano da Fazenda do Tabocal e estudou até a quarta série do ensino fundamental. Levando uma vida simples e trabalhando em diversos ofícios, sempre foi um apaixonado pela história do Bumba-meu-Boi, um ritual lúdico, em forma de cortejo, que enfatiza o aspecto visual, teatral e contém personagens humanos, animais e seres fantásticos.

Por seu desempenho cultural, Seu Teodoro, é considerado um dos pioneiros na cultura popular de Brasília, ao introduzir na capital, inúmeros aspectos da cultura maranhense, como o Bumba-meu-Boi, Tambor de Crioula e Cacuriá. Após uma passagem pelo Rio de Janeiro, em Bom Sucesso, Teodoro torna-se uma figura admirada e prestigiada no circuito cultural da nova capital. O interesse pelas tradições e a cultura do seu estado começou a aflorar aos 5-8 anos de idade, quando fugia de casa para assistir aos ensaios do Boi. Este despertar deve-se à influência do tio materno que costumava brincar no Boi. Daí para frente, o menino não parou mais, foi um disseminador da Cultura do Boi por onde andou.

Quando adulto, Seu Teodoro saiu de sua terra natal e foi trabalhar em São Luis. Aí, participou dos grupos de dança do Boi da Ilha. Tempos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro e casou-se em segundas núpcias, com Maria Sena Pereira, hoje com 78 anos, com quem teve nove filhos, 34 netos e 11 bisnetos. Eles moraram no Bairro Bom Sucesso, permanecendo de 1953 a 1961. Nesta cidade, em 1956, criou um Grupo de Boi que ensaia em Bom Sucesso, depois numa favela da Baixa do Sapateiro e se apresentou nos eventos culturais do Rio. Posteriormente, comprou um barracão para os ensaios do Boi. Políticos e maranhenses influentes ajudam Seu Teodoro e fundaram a Sociedade Carioca de Folclore Maranhense. Para acompanhar o marido em suas andanças com o Boi, Maria Sena aprende a bordar as indumentárias do ritual.

Em 1961, a convite de Ferreira Gullar, Seu Teodoro traz o Grupo do Boi para os festejos do primeiro aniversário da fundação de Brasília. Gostou da cidade e mudou-se para Sobradinho. Por intermédio de intelectuais influentes, tais como o folclorista Edson Carneiro, o antropólogo Darcy Ribeiro, o poeta Ferreira Goulart, ocupou no quadro de funcionários da UnB, o cargo de contínuo. Nesta Universidade trabalhou durante 28 anos. Foi nesse meio universitário que Seu Teodoro conheceu o lusobrasileiro George Agostinho Baptista da Silva, professor da Universidade, idealizada por Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e outros. Agostinho da Silva é considerado, depois de Fernando Pessoa, o maior pensador lusófono do século XX. O filósofo Agostinho da Silva aprimorou a formação intelectual de Seu Teodoro, dando-lhe uma visão da cultura popular brasileira e da mitologia Grega.



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  Este artigo encontra-se na página 69.

15 de outubro de 2011

Literatura brasileira


Lembrança de Morrer
 poema de Álvares de Azevedo, 
parafraseado por Aletho Alves 
(estudante da 2ºsérie do Ensino Médio)
 
Quando eu morrer, não chorem por mim. Não levem flores nem entoem missas fúnebres. Eu deixo a vida como quem se livra de um fardo. Só sentirei saudades do carinho da minha mãe, do meu pai e de alguns poucos amigos que não zombavam ou duvidavam de minha crença quando, acometido por febres altas, delirava. Se choro é pela virgem a qual nunca beijei, mas que me deu forças para viver, esperançoso de um um dia gozar do seu amor.  Na minha lápide desejo que escrevam: foi poeta, sonhou e amou na vida. Peço a minha alma que zele pelo meu túmulo e quando anoitecer abra espaço para a lua chorar sobre ele.

Poema 

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minhalma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade... é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave daurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!



12 de outubro de 2011

João Cândido: às margens da História?



por Poíesis Oliveira
Bacharelanda em Sociologia pela Universidade de Brasília.

Eu estava a olhar as gaivotas pairando sobre os mastros dos navios... Vi as águas resplandecentes da Guanabara... Era cálida a luz do sol... Olhei firme o horizonte com a ânsia de voltar ao passado da mesma forma que podemos voltar a algum lugar... Mas, o tempo é uma sensação que passa e não volta, apenas fica na memória. E, talvez, a memória seja o melhor lugar para se preservar o tempo. Seria inesquecível se eu pudesse voltar no tempo e encontrar-me com personagens históricos, conversar com eles e (quem sabe?) participar dos fatos marcantes de nossa História. Isso seria fisicamente impossível, porém, aventurei-me nas páginas da História, mais precisamente as da República Velha para reencontrar o marujo negro João Cândido Felisberto.
A República Velha, aquela que veio depois da Proclamação da República em 1889 e foi até a ascensão de Getúlio Vargas em 1930, teve treze Presidentes diferentes e foi marcada, sobretudo, pela Política do Café com Leite e pelo Coronelismo. Nas páginas dessa História, li sobre o Governo do Marechal Hermes da Fonseca (1910 a 1914) o qual muito me chamou a atenção devido a um episódio importante conhecido como a Revolta da Chibata ou a Revolta dos Marinheiros, ocorrido na Marinha Brasileira em 22 de novembro de 1910, no Rio de Janeiro.
A época em que se passou a insurreição é caracterizada por uma modernização urbana bastante acelerada que contrastava com mentalidades alicerçadas nos antigos modelos políticos, econômicos e culturais. Vieram as transformações do início do século XX, todavia, a sociedade continuava basicamente agrícola, preconceituosa, dependente de outras nações e geradora de disparidades sociais. Obedecendo a essa concepção arcaica, estava a Marinha de Guerra do Brasil que fazia uso de uma disciplina rígida sob as varas de marmelo ou linha de barca com agulhas e pregos em volta destinados a arrancar pedaços da carne de marinheiros que cometiam algum tipo de infração, geralmente de caráter irrelevante, na Armada, prática, aliás, muito semelhante a que acontecia com os negros escravos quando levados ao tronco, símbolo de poder e lugar de castigo.
As páginas da História nacional deixaram às margens a Revolta da Chibata e a estória de seu líder João Cândido no anonimato. Contudo, descobri em uma das prateleiras dos fatos históricos, um livro de cor escura com a imagem de dois marinheiros na capa, cujo título era João Cândido do Brasil e a Revolta da Chibata, de César Vieira. Ao folheá-lo, percebi que ali se alinhavava o motim dos marujos que reivindicavam melhores condições de trabalho e o fim dos castigos corporais tecido em uma linguagem teatral. Logo nas primeiras páginas o livro afirma que “É inaceitável que o simples estudo dos acontecimentos dessa rebelião na Armada Brasileira seja, quase cem anos depois, motivo de proibição, censura, discriminação, preconceito e ódio.” Cada vez mais entretida, li admirada que “Os negros marujos de 1910 cortaram amarras, levantaram âncoras, içaram bandeiras e com seu exemplo tentaram nos passar bússolas... mas, infelizmente, continuamos sem rumo, à deriva.”
Lia atentamente e, de repente, as letras sumiram das páginas. Algo estranho estava acontecendo. Fechei o livro surpresa. Abri-o novamente. De súbito, tive a impressão de estar dentro de uma concha do mar, ouvindo o marulhar das ondas indo e vindo. As ondas espumavam, batiam nas pedras... O vento forte a zunir e a trazer o cheiro salgado do mar. Senti meus olhos fecharem-se sozinhos e meu corpo ficou leve como uma pena no ar. Inexplicavelmente, havia areia quente em mim. Ofuscada pela luminosidade do dia, vi-me deitada em uma praia. Assustada, levantei-me, olhei em volta...


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Este artigo encontra-se na página 44.

6 de outubro de 2011

O fortalecimento de elos entre Brasil e Moçambique



por Mariano Pedroza 
Formador de terapeutas comunitários moçambicanos.

A partir de Nampula, é sempre possível redescobrir o conteúdo e a razão do gesto de mergulhar experiências do Brasil no Oceano Índico, recontactar com aquela atmosfera de pura África de mãos dadas com a Índia, os olhos se abrindo de espanto à influência de Goa, principalmente quando, deixando o continente em frente à Nampula, descobrimo-nos na Ilha de Moçambique e passamos a respirar História e sentimos em torno do corpo e, sobretudo, da alma, um suave abraço de liberdade. Aprende-se, ali, um novo sentido para a convivência e a força de um importante impulso de integração e de “entregação” para seguir no caminho enriquecido outrora por semente lusa, ibérica.
Nesse estado de busca e anseio, alcança-nos o sopro do Professor Agostinho da Silva: “Seria de todo o interesse que Maputo e Goa verificassem as possibilidades de um entendimento que falhou entre Lisboa e Dehli.”. Respira-se, então, a atmosfera resultante desse encontro e segue-se contemplando e refletindo, pelas ruas mágicas da Ilha de Moçambique, inspirado pelo exemplo, mais do que pela palavra, do Professor que sonhou e contribuiu para fortalecer pontes entre pessoas e povos. Mestre Agostinho insistia: “... não importa que tudo demore, que se levem séculos se for necessário... loucura nenhuma pode ser negada como acerto para o futuro”, e sabemos que o futuro visualizado por Agostinho é de harmoniosa convivência, de diálogo entre as civilizações, o que se repete hoje (e se perspectiva): um futuro de Paz.
Quando iniciado o trabalho que me trouxe a Moçambique, já suspeitava que o que me fazia cruzar o Atlântico era uma missão agostiniana. Familiarizado já estava com o Professor e suas conversas desde a infância ainda no Brasil, aliás, conversas complementadas com os encontros quando habitávamos a Ilha de Gorée, em tempos de exílio, e com as gentilezas do Professor no Abarracamento de Péniche, em Lisboa e, também, em Porto, Évora, Portalegre, Riguengos, Monsaraz. 



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Este artigo encontra-se na página 57.