16 de novembro de 2011
15 de novembro de 2011
Leda Naud: lembrando o professor
o professor Agostinho sempre entendeu as pessoas. Nunca perguntava
sobre suas crenças, ambições, inseguranças. Por isso vivia rodeado de
idealistas, sonhadores, trapistas, estudiosos e sábios.
Muitas e muitas vezes me propôs realizar trabalhos em lugares
distantes como Goa. Ou, ouvindo-me falar no meu desejo de conhecer Anchorage,
dizia: - E por que não?
Nada era impossível para ele. Bastava desprender as amarras da
Torre de Belém e lançar-se ao mar.
Sabendo e apoiando minhas incursões no mundo das tintas, acenava-me
com a possibilidade de ter um ateliê em Lisboa antiga e ali dedicar-me só à
pintura.
-
Uma licença do Senado, e venha para aqui - dizia ele.
E eu sonhava em ir e por lá ficar uma temporada. Mas nunca fui.
Como nunca fui a Anchorage.
Foi nos primeiros anos da Universidade de Brasília, quando
diretoraexecutiva do CBEP (Centro Brasileiro de Estudos Portugueses), que
realizei o único trabalho objetivo para ele: recebi a incumbência, e cumpri, de
alugar um apartamento em Lisboa, destinado a receber estudantes brasileiros e
africanos que fossem realizar pesquisas em Portugal. O aluguel do apartamento,
devidamente equipado e com telefone, não teve continuidade em conseqüência da
revolução de 64. O CBEP da UnB perdeu sua autonomia financeira e a própria
autonomia de vida.
Nos anos 80, quando mais viajei à Europa, sempre me encontrava com
o professor Agostinho em minhas passagens por Lisboa. Comunicava-me com ele e
com minha querida amiga Maria Cecília Guerreiro de Sousa, sua ex-secretária em
Brasília. E lá estávamos em um restaurante da cidade alta, falando sobre
projetos e sobre sonhos. Nunca sobre problemas que, se aflorados, à presença e
conversa com o Professor, estavam, se não resolvidos, pelo menos equacionados.
Ele iluminava o escuro dos problemas e os dedilhava como contas de luz, de
maneira que se tornava, se não fácil, pelo menos possível resolvê-los.
Nos comunicamos sempre por cartas ao longo dos anos. E o mais
bonito dessas cartas era o possível de tudo, a não-menção de doenças, velhice
ou morte.
Quando Ludmila, minha neta, veio morar comigo, ele a encomendou a
um anjo-da-guarda. E todos os dias, de manhã bem cedo, dava água para o anjo de
Ludmila. Escreveu cartas lindas para ela, que, quando aprendeu a ler,
apreciou-as muito. Antes porém, ela lhe mandou um bilhete com impressões de
patas de gatos. Ele respondeu com outro, com as impressões das patas dos seus
gatos. Ludmila o chamava de "o George".
Este foi o professor Agostinho que eu conheci, amei e respeitei
como pessoa profundamente humana, alegre e acessível a todos os sonhos e
apelos. Meu amigo. Sobre o filósofo e sábio que ele foi, não falarei. Nem o
saberia.
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Texto recolhido da obra IN MEMORIAM de AGOSTINHO DA SILVA. Organização de Renato Epifânio, Romana Valente Pinho e Amon Pinho Davi. Portugal: Zéfiro, 2006, pp. 288-289.
Imagem: Domingo de Páscoa, 3 de Abril de 1994 - Fotografia de Jorge Barros (dia do falecimento de Agostinho da Silva)
Imagem: Domingo de Páscoa, 3 de Abril de 1994 - Fotografia de Jorge Barros (dia do falecimento de Agostinho da Silva)
14 de novembro de 2011
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
José Aparecido de oliveira: Agostinho da Silva nas origens da
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
Eu conheci o Professor Agostinho na época do Governo do Jânio
Quadros. Ele já tinha uma presença no Brasil muito importante. Esteve ensinando
em Santa Catarina, esteve na Bahia, esteve em Brasília e, evidentemente,
ninguém passava impune pelo Professor Agostinho da Silva. Ficava uma marca. Em
todo o seu itinerário, ele soube ter a consciência da independência moral, ele
nunca deixou de ser um homem de consciência livre e de vocação libertária.
Agostinho da Silva foi importante sob dois aspectos. Um como pensador,
como filósofo, o outro como homem de ação. Ele conjugou essas duas
virtualidades que, geralmente, não caminham juntas. Ele era um homem de
pensamento, mas era um homem também de ação prática, de ação efectiva. Ele teve
uma presença muito importante, naquele tempo, não só no Brasil, como também em
todos os países de língua portuguesa e em toda uma política de desenvolvimento
econômico e social, porque ele tinha uma clara consciência do que representavam
os povos que estavam submetidos a uma hierarquia das forças sociais que nunca
abriam perspectivas maiores, nem melhores para os subdesenvolvidos. E ele foi
talvez, naquele século, um dos pensadores que tinha a visão do horizonte, que
tinha a visão da perspectiva.
Agostinho da Silva preencheu, num aspecto, um largo trecho da
nossa consciência política. Ele era um formulador, ele era um pensador, ele era
um ativista. Um combatente, um revolucionário e um missionário. Veja-se, por
exemplo, As Cartas Várias. Elas eram um documento para
iniciados. Ele escrevia-as com espírito de missão. Ele era dotado dessa
consciência. Ele sabia que estava realizando um trabalho para o tempo e para o
histórico. O Professor Agostinho tinha uma visão do mundo daquele tempo e do
mundo do futuro. Ele previa, como pensador que era, muito do que está
acontecendo por aí.
O que me parece fundamentalmente importante é a presença dele numa
nova política para a lusofonia, de uma nova política para o desenvolvimento dos
povos de Língua Portuguesa. Eu sei que ainda não há muita luz sobre este
aspecto, sobre esse trecho da vida do Professor Agostinho que foi, aqui no
Brasil, ao tempo do Governo do Jânio Quadros. Eu trabalhava com o Presidente
Jânio, de forma que eu posso dar um depoimento seguro da influência que o
Professor Agostinho da Silva teve na formulação da nova política exterior do
Brasil naquele período, contemplando prioritariamente não só os países de
língua portuguesa, mas o continente africano.
O Professor tinha uma exata consciência da importância disso, da
África como continente de articulação de um novo tempo para uma política de
desenvolvimento. E ele viu, naquele momento, uma formulação da política externa
independente do Governo Brasileiro. Ele teve encontros com o Presidente da
República, encontros promovidos, inclusive, por meu intermédio. E esse é um
aspecto que eu sei que não é muito conhecido. Quer na biografia do Professor,
quer nos documentos do ltamarati.
O
Professor Agostinho foi importantíssimo quando chamou a atenção dos brasileiros
para o que representava uma política de desenvolvimento num mundo que tendia
para a globalização. Ele previu com todas as suas nuances e conseqüências. E
também fez despertar a nossa consciência, brasileira sobretudo, mas lusófona,
com relação à África. Foi ele que, pela primeira vez, naquele tempo, chamou a
atenção para as nossas raízes. E além disso, dava uma palavra segura de
advertência com relação ao nosso futuro. E entendia que era importante fazermos
uma política de unidade, de fundamento da nossa língua comum. E isso foi uma
abordagem que passou a ser feita e que chegou, inclusive, à Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa, a CPLP. Mas
na realidade, o verdadeiro formulador, o homem que deu esse fundamento
filosófico, essa mensagem integradora do ponto de vista político, foi o
Professor Agostinho da Silva. Ele foi o grande formulador de um tempo novo na
lusofonia.
A
ideia da CPLP surgiu no fim da década de 50, início da década de 60. O Jânio
foi presidente da República exactamente nesse período. Renunciou à Presidência em
61. O Agostinho influiu muito nessa formulação, numa nova política externa do
Brasil, com olhos inclusive integradores. No entanto, não há registro, no
ltamarati, a respeito disso. Embora a ideia da CPLP seja da década de 60 só é
institucionalizada em 1996, quando eu era embaixador em Lisboa e o Mário Soares
era Presidente da República. Na realidade, aquela proposta era fundamental para
os países de língua portuguesa e para a lusofonia. Para eu afirmar um movimento
dessa natureza tinha que ter um compromisso missionário com o Professor
Agostinho da Silva. Afinal, ele ensinou-me a importância da força da
destinação.
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Texto recolhido da obra
IN MEMORIAM de AGOSTINHO DA SILVA.
Organização de Renato Epifânio, Romana Valente Pinho e Amon Pinho Davi.
Portugal: Zéfiro, 2006, pp. 247-249.
Imagem: logo oficial da CPLP.
13 de novembro de 2011
Destacamos, Os Sete Sapatos Sujos:
“Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar.
Eu contei Sete Sapatos Sujos que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:
Primeiro Sapato – A ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vitimas.
Segundo Sapato – A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
Terceiro Sapato – O preconceito de que quem critica é um inimigo
Quarto Sapato – A ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
Quinto Sapato – A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
Sexto Sapato – A passividade perante a injustiça.
Sétimo Sapato – A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros.”
Segundo Sapato – A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
Terceiro Sapato – O preconceito de que quem critica é um inimigo
Quarto Sapato – A ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
Quinto Sapato – A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
Sexto Sapato – A passividade perante a injustiça.
Sétimo Sapato – A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros.”
MIA COUTO
Universalidade
O trabalho de Agostinho da Silva tem um carácter universal, ou
seja, é a respeito do Homem. O que ele diz pode ser aplicado a qualquer ser
humano, em qualquer país. Há nele um grande e profundo amor pela Humanidade e
uma preocupação constante pela humanização do Homem.
São dele estes
ensinamentos:
" A primeira condição para libertar os outros é libertar-se
a si próprio";
"Hei-de vê-lo depois
despido do egoísmo, atento somente aos motivos
gerais; o seu bem será sempre o bem alheio";
"É ilusória
toda a reforma do colectivo que não se apoie numa renovação
individual" ;
"O científico não é o
que derruba a ciência anterior; é o que a engloba ... ";
"Só existe governo exterior a nós por preguiça de nos governarmos a nós
mesmos ... "
Trecho recolhido de "Agostinho da Silva - Um Pensador para o Século XXI", de autoria da Psicóloga Alcione Scarpin, inserido na obra IN MEMORIAM de AGOSTINHO DA SILVA. Organização Renato Epifânio, Romana Valente Pinho e Amon Pinho Davi. Portugal: Zéfiro, 2006, p. 24.
Imagem: google.
9 de novembro de 2011
Código Florestal
Novo Código Florestal
Um projeto de lei que
defende os latifundiários
em detrimento do desenvolvimento sustentável
A mobilização contra o novo código florestal está pautada na defesa de uma agenda preservacionista
do século passado, pois
ignora a necessidade de crescimento econômico
do Brasil e nega as incoerências
da atual legislação
ambiental. Entretanto, a bancada ruralista, defensora do novo código, também age de forma retrógrada.
Caso a lei atual fosse cumprida de fato, uma área, hoje ocupado por lavouras, superior a
nove por cento de todo território
nacional deveriam ser
reflorestadas, ocasionando prejuízos
exorbitantes para pequenos e médios
agricultores. Por isso, a elaboração
de um substitutivo para a atual legislação
ambiental é
essencial para o contínuo
crescimento econômico
brasileiro, tendo em vista que, nos últimos
anos, o país
experimentou um aumento substancial da demanda por matéria prima (principalmente grãos) de
países em desenvolvimento
como China e Índia.
Se, por um lado, a legislação ambiental brasileira é a mais rigorosa do mundo, por outro, é a mais incoerente e intransigente. De
acordo com o código
atual, mais da metade dos produtores rurais estão na ilegalidade e aqueles que desmataram
mais de vinte por cento da propriedade no bioma amazônico, antes da aprovação da norma em vigor, há treze anos, estão obrigados a reconstituí-la mesmo que a Constituição garanta que uma lei só vale a partir da data da promulgação.
Por mais necessário que seja a atualização das normas de preservação ambiental, nada justifica a atuação da bancada ruralista que, de forma
tendenciosa, agregou à
proposta emendas antagônicas ao ideal de desenvolvimento sustentável, evidenciando o anseio dos grandes
latifundiários
de transformar a lei em mais
um instrumentos de enriquecimento individual.
Os impactos do substitutivo são tão
grandes que os debates multiplicam-se na capital federal e nenhum argumento
convence a bancada defensora do novo código
de que a proposta, tal como está, é um retrocesso inaceitável. Caso modificações não
sejam feitas, caberá a
Presidente da República vetar a votação, caso queira mais votos na sua reeleição.
por Aletho Alves,
estudante da 2ª série do Ensino Médio.
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Bibliografia:
Abrindo a porteira do desmatamento - Le Monde diplomatique Brasil
2 de novembro de 2011
O Mercador e o Papagaio
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