4 de fevereiro de 2012

CAS indica: "Em companhia da morte"



"Algures nas montanhas ainda há famílias que sabem que falecer forma parte da vida, e dulcificam o pior de todos os contratempos com histórias sem cabimento na sociedade em que a morte é levada para longe dos nossos olhos, recluída em hospitais e tanatórios. Trata-se de histórias inquietantes em que o mais implacável inimigo humano se mostra em figuras compreensíveis para a mente das pessoas.
O acompanhamento é um dos nomes populares que ainda recebe um mito que a literatura galega renomeou como Santa Companha. Como as estântegas ou as candeias, trata-se de um sinal anunciador da morte. As pessoas que deles nos falam vivem longe da nossa maneira de ver a realidade, mas nem tanto nas nossas casas.
Onde habitam estas mulheres vestidas de negro que fogem da morte tratando-a por tu?"

Um texto do TT Catalão


Brasil-muitos-em-um

precisamos reinventar a brasília que ainda existe no pulso inicial; a outra brasília, nova, extraordinária, ainda mora naquela, na que sempre existiu
TexTTo e fotografia TT Catalão ttcatalao@gmail.com
depois das dores, o parto; depois da vergonha, a redenção; depois da infâmia, o sol da solidariedade; depois da ferida, a cicatriz; desejamos assim, clamamos assim, queremos assim, a cidade de volta – se possível, na mesma urgência e velocidade com que a rapina atuou; tentamos, assim e
assim tem sido desde que a mancha tingiu a terra vermelha; desde que o breu afanou o brio; desde que um fogo vindo dos carpetes nos fez joguetes e devastou o cerrado sem avisar pela chama; assim nos reservamos em estado suspenso – na luta para não virar amargo – desconfiados da esperança enquanto se restaure a redenção;
alguma coisa ainda não se revelou, pode ser isso: talvez, até a dimensão do vício, operado pelas transações predadoras, ainda não se mostrou completa; a dor, inteira – mesmo insuportável – facilita a cura mais plena;
ainda zanzamos em desorientação cívica porque até a indignação foi domesticada em atenuantes que entorpecem o ânimo e embaçam a definição do grito; ainda falta aquela palavra que não sai só pela boca; ainda insiste a letra impressa sem alma; a imagem que apenas ilustra e o som oco, sem eco – monólogos de monoblocos monolíticos;
brasília existiu para proclamar o plural; nesse princípio, sem fim determinado, construímos surpresas, rebeldes ao mais do mesmo, precisamos da mistura constante pelo ato apaixonado de quem decide fazer da vida manifesto;
a cidade sobrevive dessa necessidade absoluta de carinho, exige generosa grandeza e comprometimento visceral; proclama a percepção ampla do brasil-muitos-em-um (somos soma) – sintonizar o entusiasmo inicial da origem da cidade: mesmo os figurantes da “grande obra”, os que despencaram dos andaimes na noite e foram soterrados de dia, criaram a mística libertária da cidade;
precisamos reinventar a brasília que ainda existe no pulso inicial; a outra brasília, nova, extraordinária, ainda mora naquela, na que sempre existiu; retomar ritmos sem retornar a velhos ritos, eis o desafio – reaprender com o cerrado como brotar depois de tanta labareda; descobrir onde se abriga a água quando queimam as veredas;
reinventar brasília pelo coração dos que não apenas projetam, programam, legislam ou mesmo a explicam; reinventar a cidade com quem ainda ama essa matéria-prima nutriente da nossa brasilidade brasiliense; reinventar as trilhas que nos trouxeram até aqui e nos mostraram a utopia do sertão braço com litoral, rural papo com urbano, arte frater da cultura, pensar irmão do sentir, política legitimada por ética da polis...
esta cidade nunca esteve pronta; nenhuma cidade fica pronta; o pronto está acabado; cidades não terminam; nem são exterminadas, facilmente; elas se reinventam e ressignificam suas ruínas por se alimentarem do orgânico que vai soprar vida em suas narinas para existir;
cidades brotam e renascem do humano e suas relações para moldar sua cara em matéria e espírito; reinventar a cidade é uma decisão nossa, amorosa, compartilhada, em busca do reatar os fios e do reavivar os fortes e belos filhos de uma utopia abortada, aqueles, sempre sementes, alertas na fermentação do caldo da terra, pronta para renascer assim que acontecer de ser regada pelo dom de cada um, em todos, presentes;
e assim voltar à cidade do princípio, sem fim...

3 de fevereiro de 2012


 Toda a biblioteca de Fernando Pessoa online....
Os livros da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa estão disponíveis gratuitamente online no site da Casa Fernando Pessoa.
Até agora, só uma visita à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, permitia consultar este acervo que é "riquíssimo", mas com o site, bilingue (português e inglês, e disponível em qualquer lugar do mundo, com uma ligação à Internet, é possível consultar, página a página, os cerca de 1140 volumes da biblioteca, mais as anotações - incluindo poemas – que Fernando Pessoa foi fazendo nas páginas dos livros.
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt

31 de janeiro de 2012


B R A S Í L I A
REVISITADA
.

Por Emanuel Medeiros Vieira

PARA CLARICE E LUCAS, MEUS FILHOS- QUE AQUI NASCERAM

Não, não quero falar da cidade estigmatizada, dos poderes – podres ou não.
Não a urbe oficial, dos altos tecnocratas, dos políticos que só conhecem o aeroporto, carros oficiais, palácios, ministérios, o Congresso, restaurantes chiques, e boates de “moças de luxo”- caras, da mais antiga profissão..
A cidade que amo é outra,
Das chuvas de janeiro (que agora pararam) de tantas mangas, dos verdes belos, das goiabas crescendo, da Clarice, do Lucas, dos piqueniques improvisados, do Parque da Cidade, e de tanta gente honrada que aqui labuta e corre atrás dos seus sonhos.
Mudar essa imagem eu sei que não vou.
Mas creio que o meu papel é o de “evangelizador laico”.
Se mudar uma só visão, um só olhar estereotipado, ficaria compensado.

EIS-ME DE VOLTA, PROVISORIAMENTE, DA PRIMEIRA PARA A ÚLTIMA CAPITAL.
Não, os poderes já não me interessam.
CADA MOMENTO É UM LUGAR ONDE NUNCA ESTIVEMOS.
E tento redescobrir cada momento.
O que é o tempo,?, me pergunto sempre – desde que iniciei no ofício de tecer palavras.
Virgílio captou magistralmente: “Sede fugit interea , fugit irreparabile tempus” (“mas ele foge: irreparavelmente o tempo).
E Clarice Lispector pergunta: “Oh Deus que faço desta/felicidade ao meu redor/que é eterna, eterna,eterna/e que passará daqui a um instante/porque só nos ensina/a ser mortal?”
Mas o que queria dizer?
Que há uma cidade escondida, além do olhar apressado.
Há uma cidade mais funda – das linhas retas.
Algo que ficará, além das celebridades vãs, da vida de gente que se atribui muita importância – ministros e deputados que logo serão esquecidos.
Quem se lembra de Médici? Quem se esquecerá do Dr. Oscar e de Lúcio Costa?
É por essa razão que dedico o curto texto ao Lucas e a Clarice.
Não são “candangos”, pioneiros.
Ele vai fazer 9 anos, ela 26.
Mas há algo de novo nos seus olhares.
E enquanto escuto um pássaro cantando, o sol batendo na mesa em que escrevo, não consigo evitar o lugar-comum: vale a vida. Algo do nosso trabalho ficará – ficará. E sei que toda a glória é finita, que é sempre assim (apenas passamos). E o tempo foge.

(BRASÍLIA, JANEIRO DE 2012)

24 de janeiro de 2012

Indignação: sem justiça social um País não sobrevive


OAB denuncia massacre com mortos na reintegração de posse.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São José dos Campos, Aristeu César Pinto Neto, disse hoje (23) que houve mortos na operação de reintegração de posse do terreno conhecido como Pinheirinho, na periferia da cidade. De acordo com ele, crianças estão entre as vítimas.

“O que se viu aqui é a violência do Estado típica do autoritarismo brasileiro, que resolve problemas sociais com a força da polícia. Ou seja, não os resolve. Nós vimos isso o dia inteiro. Há mortes, inclusive de crianças. Nós estamos fazendo um levantamento no Instituto Médico-Legal [IML], e tomando as providências para responsabilizar os governantes que fizeram essa barbárie”, disse, em entrevista à TV Brasil.
Segundo Neto, a Polícia Militar (PM) e a Guarda Municipal chegaram a atacar moradores que se refugiavam dentro de uma igreja próxima ao local. “As pessoas estavam alojadas na igreja e várias bombas foram lançadas ali, a esmo”, declarou.

O representante da OAB disse ter ficado surpreso com o aparato de guerra que foi montado em prol de uma propriedade pertencente à massa falida de uma empresa do especulador Naji Nahas. “O proprietário é um notório devedor de impostos, notório especulador, proibido de atuar nas bolsas de valores de 40 países. Só aqui ele é tratado tão bem”.
Desde o início da manhã de ontem (22) , a PM cumpre uma ordem da Justiça Estadual para retirar cerca de 9 mil pessoas que vivem no local há sete anos e 11 meses. O terreno integra a massa falida da empresa Selecta, do investidor Naji Nahas. A Justiça Federal decidiu contra a desocupação do terreno, mas a polícia manteve a reintegração obedecendo ordem da Justiça Estadual.
A moradora Cassia Pereira manifestou sua indignação com a maneira como as famílias foram retiradas de suas casas sem que ao menos pudessem levar seus pertences. “A gente está lutando por moradia. Aqui ninguém quer guerra, ninguém quer briga, a gente quer casa, nossa moradia. Todo mundo tinha suas casas aqui construídas, e tiraram de nós, sem direito a nada. Pegamos só o que dava para carregar na mão”, disse.
O coronel Manoel Messias Melo confirmou que os policiais militares se envolveram em conflitos durante a madrugada, mas negou que a ação foi contra os moradores do Pinheirinho. “Foram vândalos e anônimos que praticaram incêndios na região. Tivemos 14 prisões e algumas apreensões de armas esta noite”, declarou.
“Agora vamos cuidar do patrimônio das pessoas. O oficial de Justiça lacrou [os imóveis] e nós guardamos o imóvel durante a noite. O oficial de justiça vai arrolar os bens. As pessoas receberam um número. Todos os bens serão etiquetados, conduzidos a um caminhão e levados para um depósito judicial ou a um endereço [fornecido] pelo morador”, disse Melo.
De acordo com o coronel, a PM vai permanecer no local até a reintegração de posse do terreno ser concretizada. “Entregue a posse ao proprietário ele deve tomar providências para guardar o local”.
Procurada pela reportagem para falar sobre o assunto, a prefeitura de São José dos Campos não quis se pronunciar.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

18 de janeiro de 2012

A Livraria Camões


por VASCO GRAÇA MOURA (in “Diário de Notícias” de 18-1-2012)
Entre 1979 e 1989, década em que fui administrador da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, tive de me ocupar da Livraria Camões no Rio de Janeiro. A loja tinha sido adquirida à TAP em 1972, e a livraria ficou ali instalada por ocasião de uma visita de Marcelo Caetano ao Brasil. Ninguém pensou muito na legalidade da operação. E em consequência, tanto quanto me lembro, a livraria Camões estava ilegal nos planos federal, estadual e municipal. Já não tenho presentes todas as razões, mas lembro-me de que a primeira era o facto de, nessa época, nem um estado estrangeiro nem instituições públicas dele dependentes poderem adquirir propriedade imobiliária no Brasil.
O seu estatuto de "tolerada" não a impediu de ter um papel importante, mas havia muitos obstáculos a um funcionamento satisfatório: as transferências para pagamento dos livros implicavam a obtenção de morosas autorizações cambiais, o que era dramático, dada a desvalorização galopante no Brasil. Os fretes internacionais saíam caríssimos. Os transportes internos no destino também. Os livros idos de cá atingiam muitas vezes preços astronómicos lá. As campanhas de promoção eram praticamente inviáveis. Face à imensidão do país, aquele exíguo posto de venda da rua Bittancourt da Silva, mesmo conseguindo facilidades de armazenagem sem custos no Palácio de São Clemente (consulado de Portugal), era menos do que a cova de um dente.
É aí que entra em cena um homem chamado José Manuel Estrela, gerente da livraria. Era uma espécie de Fernão Mendes Pinto do livro português. Mexido e desenrascado, com uma capacidade de improviso notável e um talento fora do comum para as relações humanas, conhecedor de todas as regiões e dialectos (vi-o mais de uma vez identificar a terra de origem dos seus interlocutores brasileiros pela maneira como falavam, qual prof. Higgins de My fair Lady), de todas as universidades e centros académicos, de todos os professores de literatura portuguesa, de todos os livreiros e sebos, e também de um grande número de bibliófilos, escritores e jornalistas, José Estrela imprimiu então um dinamismo notável à promoção da cultura portuguesa: circulava, contactava, mostrava, propunha, divulgava, empreendia, vendia, fazia o possível e o impossível...
Portugal nunca teve uma política cultural digna desse nome no Brasil. Tudo era feito sob o signo da pelintrice: lembro-me, por exemplo, de que para qualquer deslocação em serviço do conselheiro cultural, de Brasília ao Rio ou a São Paulo, a embaixada tinha de pedir autorização a Lisboa...
Os poucos e significativos resultados alcançados, embora quase sempre pontuais, ficaram a dever-se ao mérito e à acção de pessoas que, por uma razão ou por outra, tinham oportunidade de fazer alguma coisa, mesmo quando não dispunham de meios suficientes. E nisso, José Estrela não estava sozinho. Personalidades como António Alçada Baptista ou José Blanco, professores e críticos como Eduardo Prado Coelho ou Arnaldo Saraiva, agentes diplomáticos como Mário Quartin Graça (conselheiro cultural em Brasília) ou, mais tarde, Luís Filipe Castro Mendes (cônsul-geral no Rio), e mais alguns deram uma extraordinária contribuição em que puseram muito de engenho, empenhamento e carolice pessoais e, quantas vezes, dinheiro do próprio bolso. E antes tinha havido Nemésio, Casais e Jorge de Sena, tal como há pouco houve Saramago e agora há Inês Pedrosa ou Valter Hugo Mãe.
Os nossos grupos editoriais estão a construir as suas representações próprias no Brasil. Os circuitos mudaram. Com as tecnologias digitais, a exportação do livro tem-se desmaterializado cada vez mais. As regras jurídicas, os sistemas de pagamento, as modalidades e suportes de edição, as preocupações científicas, os mercados, as técnicas de promoção e venda, tudo isso mudou também.
Leio na imprensa que a Livraria Camões não recebe livros vai para cinco anos. Reduzida a um lugar "mítico", compreende-se que muitas pessoas deplorem o seu encerramento: ela ainda era a âncora possível para muitas coisas ligadas à cultura portuguesa, na falta das políticas que deveriam sê-lo. Honrar esse património simbólico implica que fizesse todo o sentido procurar-se uma alternativa consistente de promoção da cultura portuguesa, tendo em devida conta o trabalho de muitos anos que foi feito a partir dali.