15 de fevereiro de 2012

ACORDO ORTOGRÁFICO SEGUE A VIA POPULAR



Um acordo de empobrecimento da língua e de interesses geoestratégicos


O assunto não é fácil, atendendo às diferentes grafias (europeia, brasileira e africana) e aos interesses políticos, económicos e culturais a elas subjacentes. O Acordo ortográfico vem beneficiar a grafia brasileira em relação à grafia luso-africana da língua portuguesa. Na sua forma possibilita assim uma maior concorrência, salvaguardando sobretudo interesses geopolíticos e económicos do Brasil.

O maior problema na génese e no processo do acordo, encontra-se, a meu ver, num espírito simplicista e vulgar, em via desde há décadas, na política cultural ocidental.

O maior problema manifesta-se na acentuação e na supressão das chamadas consoantes “mudas”, acabando-se assim com uma diferenciação etimológica insubstituível para a boa compreensão das palavras.  

Para se perceber um pouco o fundamento dos que questionam o acordo e para se ter uma ideia da riqueza da exactidão das palavras, apresento a etimologia das diferentes palavras portuguesas: facto, fato, fado e feito. As palavras portuguesas facto e feito vêm da palavra latina factu (do verbo facere=fazer); a palavra portuguesa fado vem da palavra latina latim fatu. A palavra portuguesa fato (roupa exterior do homem) virá do germânico fat. A palavra facto (realidade, verdade) é usada em todos os países lusófonos excepto no brasil que usa a palavra fato para designar facto e fato. Deu-se assim um empobrecimento da língua muito embora em benefício do povo com menos formação. (Apresento no final do artigo o exemplo de palavras provenientes do mesmo étimo latino para melhor se compreender a presença dum c ou dum p mudo na palavra, que levam à pronunciação aberta da vogal precedente). (Infelizmente em muitos dicionários virtuais já se abdica da diferenciação. Forças de interesse e ideologias procuram apagar os vestígios que os não servem. Isto acontece também no que respeita à disponibilidade de termos e de sinónimos no léxico).

Angola e Moçambique ainda não ratificaram o Acordo Ortográfico e naturalmente têm razões muito válidas para o não fazerem tal como os brasileiros e outros terão as suas para o fazerem. O “Jornal de Angola” ao lamentar o empobrecimento etimológico dum acordo ortográfico que se orienta pelo português falado ou pronunciado, mostra o busílis dum acordo que se orienta por um simplicismo redutor, traiçoeiro e mercantilista. Aqui os Angolanos manifestam-se contra a corrente entrópica ao exigir que “os que sabem mais têm o dever sagrado de passar a sua sabedoria para os que sabem menos” para não baixarem o seu nível.

O problema acentuou-se pelo facto de muitas objecções não terem sido resolvidos já na génese que prepararia o acordo ortográfico. Comete um grande erro quem parte para um acordo com base apenas no português falado. De lamentar seria naturalmente se não houvesse um acordo em defesa da língua. Por muitos erros que se cometam é melhor um acordo que nenhum; a não ser que se defenda a hegemonia do inglês.

O acordo ortográfico beneficia os que falam pior a língua. Por outro lado a língua não se mantem dependente de quem a melhor pode falar: padres, juristas, linguistas e médicos pelo facto de saberem a língua mãe, o latim.
O acordo é necessário para possibilitar a afirmação do idioma português no contexto internacional sem se atraiçoar a alma dos diferentes povos a veicular num português de afirmação global.

Os peritos que elaboram os acordos ortográficos deveriam dominar bem o latim e o grego; especialmente o latim.

O português é uma das línguas chamadas românicas, com a sua origem no latim, sendo uma evolução deste. O latim na sua expressão clássica manifesta um alto nível intelectual e na sua expressão popular (língua falada pelo povo: sermo vulgaris, cotidianus, plebeius, rusticus), com a sua riqueza fonética e morfológica, cria termos novos para expressar vocábulos por ele desconhecidos do latim erudito.  Deste modo enriquece a língua, tal como hoje acontece com o português vulgar (provincianismos, e outras formas de formação, entre elas, os neologismos…).

A língua latina suplantou as línguas dos povos vencidos relegando, muitas vezes, as destes para dialectos. Na península ibérica, só o basco lhe resistiu. A língua latina abandonada a si mesma no povo, sem disciplina gramatical, na sua evolução, deu lugar a diferentes falares ou falas que depois deram origem a línguas. Um desses falares foi o galaico-português (também língua dos poetas) que, devido a circunstâncias políticas, deu origem aos idiomas, galego e português. A evolução do português já se pode documentar em monumentos e documentos notariais a partir do séc. VII num latim bárbaro (língua falada pelo povo). A partir do séc. XII os poetas apoderaram-se desse falar (galaico-português) que no séc. XVI se estabilizou no português e no galego. A partir de então temos o português moderno como podemos ver em Camões.

O latim afirmou-se por todo o lado. Na nossa língua, encontram-se também com certa frequência, termos de povos invasores  (cerca de 600 palavras usuais germânicas e cerca de 600 palavras usuais árabes).

O vocabulário da língua portuguesa formou-se principalmente através do latim vulgar que se vai modificando através da fonética e da derivação de termos populares; uma outra forma de formação da língua foi a via erudita que de proveniência latina e grega se manteve mais próxima do padrão original latim e grego. O português tem uma fase arcaica que vai do séc. XII ao seculo XVI e uma fase moderna começada no séc. XVI (Camões).

Para melhor se poder compreender as divergências no que respeita ao acordo ortográfico e apelar ao respeito pela etimologia da língua, passo a dar exemplos da formação de termos em que o mesmo étimo latino origina duas palavras diversas. O Acordo Ortográfico nas suas coordenadas gerais deixa-se orientar mais pela via popular ou vulgar. De notar que, hoje como ontem, as pessoas mais simples têm tendência para não mastigar as palavras, ao contrário do que acontece no falar das pessoas mais eruditas.  A maior traição ao português e à alma do falante dá-se porém na redução das pessoas verbais (eu tu ele (ela,você), nós vós, eles (vocês). A língua em vez de evoluir e de se diferenciar embrutece seguindo o princípio da inércia, ao eliminar o vós e ao evitar até o tu na linguagem falada (como já adverti noutros textos). Assistimos a um empobrecimento geral em questões. A ignorância não nota o que perde, ganha sempre!

A palavra latina factum deu origem à palavra portuguesa factopor via erudita e à palavra feito por via popular.
Simplificando: do latim focum originou-se foco por via erudita e fogo por via popular
do latim legalem originou-se legal por via erudita e à palavraleal por via popular
do latim matrem originou-se madre por via erudita e à palavramãe por via popular
do latim Hispaniam originou-se Hispania por via erudita e à palavra  Espanha por via popular.
do latim jactum originou-se jacto por via erudita e à palavrajeito por via popular
do latim alienare originou-se alienar por via erudita e à palavra alhear por via popular
do latim plenam originou-se plena por via erudita e às palavras cheia, prenha por via popular
do latim oculum originou-se óculo por via erudita e à palavraolho por via popular
do latim grandem originou-se grande por via erudita e à palavra grão por via popular
do latim angelum originou-se Ângelo por via erudita e à palavra anjo por via popular
do latim aream originou-se área por via erudita e à palavraeira por via popular
do latim arenam originou-se arena por via erudita e à palavraareia por via popular
do latim atrium originou-se átrio por via erudita e à palavraadro por via popular
do latim catedram originou-se cátedra por via erudita e à palavra cadeira por via popular
do latim conceptionem originou-se concepção  por via erudita e à palavra conceição por via popular
do latim delicatum originou-se delicado por via erudita e à palavra delgado por via popular
do latim digitum originou-se dígito por via erudita e à palavradedo por via popular
do latim dolores originou-se Dolores por via erudita e à palavra dores por via popular
do latim directum originou-se directo por via erudita e à palavra direito por via popular.

Desta observação podemos concluir que o povo simples simplifica (via popular) e os eruditos preferem a clareza.
Com acordo ou sem ele, cada pessoa deve ter a liberdade de escrever na grafia que aprendeu.

António da Cunha Duarte Justo

8 de fevereiro de 2012


Caríssimos amigos:

Repasso-vos um mail que acabei de receber do meu amigo João Crisóstomo, emigrante nos EUA e um especial amigo da causa de Aristides Sousa Mendes, o heróico diplomata português que em 1940 salvou mais de 30.000 pessoas do holocausto, como sabem.

Face à possibilidade de extinção da Fundação Aristides e da perda irremediável da Casa do Passal, muito gostaria que endereçassem o mail abaixo sugerido, ao chefe de Gabinete do Secretário de Estado adjunto do PM, a fim de se evitar uma perda irremediável.

Aqueles de nós que possuem blogues, também podem e devem divulgar.

Cordiais cumprimentos do
Jorge da Paz Rodrigues

Meus caros  amigos,
Vejo com satisfação que o assunto está a ser recebido com interesse e a dar  bons frutos.  Aqui nos US  a Fundação tem descoberto muita gente. Eu, por absoluta impossibilidade, não estou muito envolvido neste projecto , mas a Olivia mantém-me informado. Estou porém envolvido noutro projecto, de tentar dar a minha ajuda para que a Fundação e a Casa do Passal sobrevivam a decisão de escolha ( que era para ter lugar a 2 de Fev e que foi adiada para 24 deste mês. Iniciei e estou coordenando uma campanha  de pedidos por E amil ( e não só) de  várias partes do mundo nesse sentido. E de todos os que tenho contactado sei que têm chegado muitas mensagens a Portugal nesse sentido ( e alguns deles de pessoas muito relevantes   no meio social  e cultural  desses países.
Para aqueles de vocês que por acaso ainda não estão  neste projecto,,, podem juntar a vossa voz?  Todos somos poucos até termos a certeza de que a fundação não vai ser extinta e  e a Casa do Passal continua a ter chance de mais cedo ou mais tarde ser recuperada, como me disse  John Paul Abranches (em carta que conservo): " The Sousa Mendes family would like to see the old family home restored to what it used to be and dedicated as a Museum of Tolerance and Human dignity, dedicated to the victims of the Inquisition, World War II, the Holocaust, and other acts of intolerance.  Segue a  carta, em português e Inglês que tenho sugerido. Quem puder fazer mais e  divulgar/ pedir a outros  seja em facebook e outros" webs" seria óptimo. 
 Um obrigado e um abraço grande a todos vocês.
 João Crisóstomo

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O novo goveno português, para tentar controlar despesas, etc, resolveu, entre outras coisas, fechar todas Fundações que não sejam auto-suficientes,  que precisem da ajuda do estado para sobreviver. Entre estas  a Fundação Aristides de Sousa Mendes. Amigos e alguns familiares de Sousa Mendes têm-se mexido para eviatr isso e que o governo faça uma excepção, dado a natureza, importancia  de A Sousa Mendes   etc.
 Entre várias coisas que temos feito  é mostrar o interesse e vontade da Comunidade Internacional a este respeito. Por isso  sugerimos/pedimos  que de toda a parte do mundo cheguem a Portugal pedidos nesse sentido ( Eu mesmo tenho feito os meus contactos  do Vaticano à Argentina, Canadá à Eslovenia e Reino Unido...)  todos somos poucos enquanto a decisão a favor não tiver sido feita, O que será feito no dia 2 de Fevereiro pelo Dr. Marques Guedes.
Por isso, para facilitar, aqui vai esboço da petição a enviar por E mail  que pode servir de base,modificada conforme necessário ou, se quiserem, até basta só copiar e enviar.
Abraço grande,
João
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CARTA EM PORTUGUES
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Exmo Senhor
Dr. Marques Guedes
c/o Dr. Francisco José Martins
Lisboa- Portugal,
 Excelência,

       A antiga residência de Aristides de Sousa Mendes, «Casa do Passal», porque evoca os actos heróicos deste grande humanista, de que Portugal se deve orgulhar, é a todos os títulos Monumento de toda a Humanidade.

       Seria grande perda para a Humanidade que este espaço ruísse e daí também a importância da continuidade da Fundação Aristides de Sousa Mendes, detentora desse espaço e empenhada em homenageá-lo por acção empenhada de familiares e amigos desta causa.
       São estes os motivos que me levam a pedir a Vossa Excelência o favor da sua intervenção, para que a Fundação Aristides de Sousa Mendes e a Casa do Passal sejam alvo de medidas que assegurem a sua existência e recuperação.
       Com os meus respeitosos cumprimentos, e consideração,

xxxxx (nome)


FAVOR MANDAR O E MAIL PARA :

7 de fevereiro de 2012

Aristides de Sousa Mendes não pode ser esquecido


De Jorge da Paz Rodrigues, colaborador da CAS

nem desonrado
Um amigo meu preveniu-me para o facto de estar eminente a ruína definitiva da Casa do Passal, em Cabanas do Viriato, com a extinção da Fundação Aristides de Sousa Mendes, onde este viveu e que é um símbolo da sua coragem e do heroísmo humanista, pois, em 1940, “armado” de 1 simples caneta, desobedeceu a Salazar e como Cônsul de Portugal em Bordéus passou mais de 30.000 vistos em 3 dias, salvando outras tantas vidas do holocausto nazi.
Por isso, tem sido homenageado, honrado  e condecorado, a título póstumo, por portugueses, israelitas, americanos, franceses, holandeses, ingleses, belgas, luxemburgueses, etc.
Por isso, eu e outros decidimos enviar a carta abaixo por e-mail para o Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, que tutela o assunto e se mais alguns nos quiserem secundar, desde já agradeço, em nome doa amigos de Aristides. O e-mail é: franciscojosemartins@pcm.gov.pt
Exmo. Senhor Dr. Marques Guedes,
Mui ilustre Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros
c/o Dr. Francisco José Martins
Lisboa - Portugal,
Excelência,
                A antiga residência de Aristides de Sousa Mendes, «Casa do Passal», em Cabanas de Viriato, porque evoca os actos heróicos deste grande humanista, de que Portugal se deve orgulhar, é a todos os títulos Monumento de toda a Humanidade, tendo sido há anos declarada património nacional.
               Seria uma grande perda para a Humanidade que este espaço ruísse e daí também a importância da continuidade da Fundação Aristides de Sousa Mendes, detentora desse espaço e empenhada em homenageá-lo por acção empenhada de familiares e amigos desta causa, como é o caso do seu neto, com o mesmo nome, que a família elegeu para Presidente do Conselho Geral daquela Fundação.
               Escusado será salientar que se a Fundação for extinta, por ser a detentora da 'Casa do Passal', tal equivale a "destruir" também um autêntico herói, precursor na defesa dos Direitos Humanos, que salvou mais de 30.000 vidas do Holocausto.
               E seria também um descrédito internacional enorme para o Governo Português.
               São estes os motivos principais que me levam a pedir a Vossa Excelência o favor da sua intervenção, para que a Fundação Aristides de Sousa Mendes e a Casa do Passal sejam alvo de medidas que assegurem a sua existência e recuperação.
               Com os meus respeitosos cumprimentos e consideração,

4 de fevereiro de 2012

CAS indica: "Em companhia da morte"



"Algures nas montanhas ainda há famílias que sabem que falecer forma parte da vida, e dulcificam o pior de todos os contratempos com histórias sem cabimento na sociedade em que a morte é levada para longe dos nossos olhos, recluída em hospitais e tanatórios. Trata-se de histórias inquietantes em que o mais implacável inimigo humano se mostra em figuras compreensíveis para a mente das pessoas.
O acompanhamento é um dos nomes populares que ainda recebe um mito que a literatura galega renomeou como Santa Companha. Como as estântegas ou as candeias, trata-se de um sinal anunciador da morte. As pessoas que deles nos falam vivem longe da nossa maneira de ver a realidade, mas nem tanto nas nossas casas.
Onde habitam estas mulheres vestidas de negro que fogem da morte tratando-a por tu?"

Um texto do TT Catalão


Brasil-muitos-em-um

precisamos reinventar a brasília que ainda existe no pulso inicial; a outra brasília, nova, extraordinária, ainda mora naquela, na que sempre existiu
TexTTo e fotografia TT Catalão ttcatalao@gmail.com
depois das dores, o parto; depois da vergonha, a redenção; depois da infâmia, o sol da solidariedade; depois da ferida, a cicatriz; desejamos assim, clamamos assim, queremos assim, a cidade de volta – se possível, na mesma urgência e velocidade com que a rapina atuou; tentamos, assim e
assim tem sido desde que a mancha tingiu a terra vermelha; desde que o breu afanou o brio; desde que um fogo vindo dos carpetes nos fez joguetes e devastou o cerrado sem avisar pela chama; assim nos reservamos em estado suspenso – na luta para não virar amargo – desconfiados da esperança enquanto se restaure a redenção;
alguma coisa ainda não se revelou, pode ser isso: talvez, até a dimensão do vício, operado pelas transações predadoras, ainda não se mostrou completa; a dor, inteira – mesmo insuportável – facilita a cura mais plena;
ainda zanzamos em desorientação cívica porque até a indignação foi domesticada em atenuantes que entorpecem o ânimo e embaçam a definição do grito; ainda falta aquela palavra que não sai só pela boca; ainda insiste a letra impressa sem alma; a imagem que apenas ilustra e o som oco, sem eco – monólogos de monoblocos monolíticos;
brasília existiu para proclamar o plural; nesse princípio, sem fim determinado, construímos surpresas, rebeldes ao mais do mesmo, precisamos da mistura constante pelo ato apaixonado de quem decide fazer da vida manifesto;
a cidade sobrevive dessa necessidade absoluta de carinho, exige generosa grandeza e comprometimento visceral; proclama a percepção ampla do brasil-muitos-em-um (somos soma) – sintonizar o entusiasmo inicial da origem da cidade: mesmo os figurantes da “grande obra”, os que despencaram dos andaimes na noite e foram soterrados de dia, criaram a mística libertária da cidade;
precisamos reinventar a brasília que ainda existe no pulso inicial; a outra brasília, nova, extraordinária, ainda mora naquela, na que sempre existiu; retomar ritmos sem retornar a velhos ritos, eis o desafio – reaprender com o cerrado como brotar depois de tanta labareda; descobrir onde se abriga a água quando queimam as veredas;
reinventar brasília pelo coração dos que não apenas projetam, programam, legislam ou mesmo a explicam; reinventar a cidade com quem ainda ama essa matéria-prima nutriente da nossa brasilidade brasiliense; reinventar as trilhas que nos trouxeram até aqui e nos mostraram a utopia do sertão braço com litoral, rural papo com urbano, arte frater da cultura, pensar irmão do sentir, política legitimada por ética da polis...
esta cidade nunca esteve pronta; nenhuma cidade fica pronta; o pronto está acabado; cidades não terminam; nem são exterminadas, facilmente; elas se reinventam e ressignificam suas ruínas por se alimentarem do orgânico que vai soprar vida em suas narinas para existir;
cidades brotam e renascem do humano e suas relações para moldar sua cara em matéria e espírito; reinventar a cidade é uma decisão nossa, amorosa, compartilhada, em busca do reatar os fios e do reavivar os fortes e belos filhos de uma utopia abortada, aqueles, sempre sementes, alertas na fermentação do caldo da terra, pronta para renascer assim que acontecer de ser regada pelo dom de cada um, em todos, presentes;
e assim voltar à cidade do princípio, sem fim...

3 de fevereiro de 2012


 Toda a biblioteca de Fernando Pessoa online....
Os livros da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa estão disponíveis gratuitamente online no site da Casa Fernando Pessoa.
Até agora, só uma visita à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, permitia consultar este acervo que é "riquíssimo", mas com o site, bilingue (português e inglês, e disponível em qualquer lugar do mundo, com uma ligação à Internet, é possível consultar, página a página, os cerca de 1140 volumes da biblioteca, mais as anotações - incluindo poemas – que Fernando Pessoa foi fazendo nas páginas dos livros.
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt

31 de janeiro de 2012


B R A S Í L I A
REVISITADA
.

Por Emanuel Medeiros Vieira

PARA CLARICE E LUCAS, MEUS FILHOS- QUE AQUI NASCERAM

Não, não quero falar da cidade estigmatizada, dos poderes – podres ou não.
Não a urbe oficial, dos altos tecnocratas, dos políticos que só conhecem o aeroporto, carros oficiais, palácios, ministérios, o Congresso, restaurantes chiques, e boates de “moças de luxo”- caras, da mais antiga profissão..
A cidade que amo é outra,
Das chuvas de janeiro (que agora pararam) de tantas mangas, dos verdes belos, das goiabas crescendo, da Clarice, do Lucas, dos piqueniques improvisados, do Parque da Cidade, e de tanta gente honrada que aqui labuta e corre atrás dos seus sonhos.
Mudar essa imagem eu sei que não vou.
Mas creio que o meu papel é o de “evangelizador laico”.
Se mudar uma só visão, um só olhar estereotipado, ficaria compensado.

EIS-ME DE VOLTA, PROVISORIAMENTE, DA PRIMEIRA PARA A ÚLTIMA CAPITAL.
Não, os poderes já não me interessam.
CADA MOMENTO É UM LUGAR ONDE NUNCA ESTIVEMOS.
E tento redescobrir cada momento.
O que é o tempo,?, me pergunto sempre – desde que iniciei no ofício de tecer palavras.
Virgílio captou magistralmente: “Sede fugit interea , fugit irreparabile tempus” (“mas ele foge: irreparavelmente o tempo).
E Clarice Lispector pergunta: “Oh Deus que faço desta/felicidade ao meu redor/que é eterna, eterna,eterna/e que passará daqui a um instante/porque só nos ensina/a ser mortal?”
Mas o que queria dizer?
Que há uma cidade escondida, além do olhar apressado.
Há uma cidade mais funda – das linhas retas.
Algo que ficará, além das celebridades vãs, da vida de gente que se atribui muita importância – ministros e deputados que logo serão esquecidos.
Quem se lembra de Médici? Quem se esquecerá do Dr. Oscar e de Lúcio Costa?
É por essa razão que dedico o curto texto ao Lucas e a Clarice.
Não são “candangos”, pioneiros.
Ele vai fazer 9 anos, ela 26.
Mas há algo de novo nos seus olhares.
E enquanto escuto um pássaro cantando, o sol batendo na mesa em que escrevo, não consigo evitar o lugar-comum: vale a vida. Algo do nosso trabalho ficará – ficará. E sei que toda a glória é finita, que é sempre assim (apenas passamos). E o tempo foge.

(BRASÍLIA, JANEIRO DE 2012)