“Um livro no banco dos réus”
José Maurício Guimarães
Antônio Houaiss é o nome de um dos maiores filólogos brasileiros, tendo sido também destacado escritor, crítico literário, tradutor, diplomata e Ministro da Cultura. Nasceu em 1915 e viveu até 1999, dedicando sua existência à cultura brasileira e à vida intelectual. Cedo se deixou cativar pelo latim e pelos clássicos gregos. Aos dezesseis anos já lecionava português, atividade que exerceu durante toda sua vida. Houaiss ocupou cargos importantes como membro da Academia das Ciências de Lisboa e presidente da Academia Brasileira de Letras. Era conhecido como o "maior estudioso das palavras da língua portuguesa nos tempos modernos". Houaiss aliava o rol de méritos e talentos à modéstia, definindo-se como um mero “estudiosozinho da Língua Portuguesa”. Escreveu dezenove livros (sendo que na Academia Brasileira de Letras existem acadêmicos que não escreveram nenhum...) e elaborou as duas enciclopédias das mais importantes realizadas no Brasil: a Delta-Larousse e a Mirador Internacional. Publicou dois dicionários bilíngues inglês-português e organizou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. Entre seus maiores feitos literários está a de tradução do complexo romance Ulisses de James Joyce. Foi em 1986 que Houaiss iniciou seu mais ambicioso projeto: o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa que só foi concluído após a sua morte e pelo empenho de Mauro Villar.
O INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS foi criado primeiro no Brasil e a seguir em Portugal, para divulgar a cultura da língua portuguesa em ambos os países. A obra de Houaiss é tão extensa e importante que só uma equipe permanente de especialistas seria capaz de cuidar dela. O Instituto aplica os recursos advindos das obras e de parcerias com empresas na contínua revisão e atualização de suas publicações. Obras principais do Instituto: “Dicionário Houaiss na Nova Ortografia”, “Gramática Houaiss”, “Dicionário Houaiss de Sinônimos e Antônimos”, “Escrevendo pela Nova ortografia”, “Mini Houaiss”, “Meu Primeiro Dicionário Houaiss”, “Dicionário Houaiss da MPB”, “Dicionário Houaiss em CDROM”, “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”. Desculpem-me o trocadilho – mas se Antônio Houaiss estivesse vivo diria um solene UAI!? diante da ação agora proposta pelo Ministério Público Federal contra editoras que publicam dicionário Houaiss. O colunista da Folha, Hélio Schawrtsman considerou despropositada a ação que pede a retirada de circulação do dicionário Houaiss, porque a obra contém 'expressões pejorativas e preconceituosas'. E essa caça federal ao dicionário teve seu berço em Uberlândia, em minha jurisconsulta Minas Gerais de tantos Carlos Drummond de Andrade, tantas Adélia Prado, Affonso Romano de Sant'Anna, Alphonsus de Guimaraens, Antônio Augusto de Lima Júnior, Autran Dourado, Bernardo Guimarães, Ciro dos Anjos, Cláudio Manuel da Costa, Darcy Ribeiro, Eduardo Frieiro, Fernando Sabino, Guimarães Rosa, Lúcia Machado de Almeida, Manuel Inácio da Silva Alvarenga, Mário Palmério, Murilo Rubião, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Murilo Mendes, Pedro Nava, Godofredo Rangel, Roberto Drummond, Henriqueta Lisboa, Rubem Fonseca, sem falar nos Zuenires, Zélios, Ziraldos, Stellas, Nelsons , Josés e Zés e Marias, Horácios , Giocondas, Gilbertos , Geraldos , Dilermandos , Coelho (que não paulos), Celsos , Cecílios, Benitos, Beatrizes, Bartolomeus, Antônios , Annas e Anas, Aníbals, Andrés , Alexandres e Agostinhos... uffff
A ação solicita a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição das edições do dicionário. Eu tenho um exemplar e tratei de escondê-lo debaixo da cama, assim como fazia na época de estudante, com os livros marxista-leninistas. O comunicado do Instituto Antônio Houaiss diz, em nota oficial, entre outras coisas, terem recebido em maio de 2010, uma recomendação da Procuradoria da República do estado de Minas Gerais a respeito de significados atribuídos pelo Dicionário a determinada expressão. O Instituto esclarece: o texto publicado em 2001 (1ª edição) não teria novas reimpressões, tendo sido alteradas a definição em questão, assim como todas as palavras ligadas ao tema; que estavam, por isso mesmo, preparando uma 2ª edição que ficou pronta no final de 2011, não havendo como imprimi-la e publicá-la até agora. O Instituto Antônio Houaiss esclarece (para os que não sabem) que os dicionários “não criam termos na língua; eles apenas refletem, como espelhos, as ocorrências com que se deparam, não os usando, portanto, com intenção de atacar, ferir ou menosprezar pessoas ou grupos”; e que tais verbetes vêm, modernamente, sempre acompanhados de uma observação sobre o fato de que tal acepção é pejorativa, registrando o que ocorreu ou ocorre na língua falada e escrita, tanto no padrão culto como no informal, pois dicionários não inventam palavras nem acepções. E exemplifica, com ótimo argumento, que não se pode eliminar dos dicionários as palavras guerra, tortura, violência, pedofilia supondo, com isso, impedir que tais atos aconteçam. É como fazem os dicionários modernos em todo o mundo, afirma o Instituto.
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