25 de setembro de 2012

CPLP: o futuro constrói-se hoje


A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é um tema demasiado sério e complexo para ser abordado de forma leviana e oportunista, como, infelizmente, se viu ao longo da dezena e meia de anos da sua existência... Julgo que se não fossem alguns “carolas” e idealistas que teimam, persistem e se batem galhardamente pela sua existência, hoje, certamente, pouco restaria.

Mas o que ainda resta, convenhamos, é algo decepcionante. Como se sentiria o Prof. Agostinho da Silva e o embaixador brasileiro Aparecido de Oliveira, “pai” da CPLP, se fossem vivos? Com certeza bem tristes… Mas ainda estamos a tempo de a reconstruir!

Não gostaria de entrar em rota de colisão sobre esta matéria seja com quem for. Desde logo por ter a ideia de que a CPLP se pode incluir num futuro e pujante desenvolvimento político, económico, social e cultural dos povos dos oito países que falam a Língua Portuguesa e não só, ou, como também se diz, da Lusofonia.

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Agostinho da Silva: prefigurador da Comunidade Lusófona



Agostinho da Silva é, na nossa perspectiva, o grande teórico da “via lusófona”. Em muitos textos seus, pelo menos desde os anos 50, Agostinho da Silva antecipou, com efeito, a criação de uma verdadeira comunidade lusófona. De tal modo que, mesmo depois de falecer, Agostinho da Silva tem sido recordado por isso. Eis, desde logo, o que aconteceu quando se instituiu a CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, conforme registramos na nossa obra Perspectivas sobre Agostinho da Silva:

No dia 17 de Julho desse ano, criar-se-á finalmente a CPLP, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, facto que será noticiado, com destaque, na generalidade dos jornais. Na maior parte deles, realça-se igualmente o contributo de Agostinho da Silva para essa criação, por via do seu pensamento e acção. Eis, nomeadamente, o que acontece na edição desse dia do Diário de Notícias – como se pode ler no texto de abertura da notícia: “A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, hoje instituída em Lisboa, foi premonitoriamente enunciada por Agostinho da Silva em 1956 como ‘modelo de vida’ assente ‘em tudo aquilo que (Portugal) heroicamente fez surgir do nada ou na América ou na África ou na Ásia’.”. Depois, aparece a foto de Agostinho, ladeado pelas fotos de Jaime Gama e José Aparecido de Oliveira, com a seguinte legenda: “Pioneiros da CPLP: Agostinho da Silva (enunciação original), Jaime Gama (primeiro texto diplomático único dos Sete na língua comum) e Aparecido de Oliveira (formalização política da proposta)1.

Sabemos que este projecto está ainda aquém, muito aquém, do sonho de Agostinho da Silva. A CPLP não é ainda uma verdadeira comunidade lusófona. Mas nem por isso — já quinze anos após a sua criação — a CPLP deixou de ser um projecto em que Portugal deve apostar enquanto desígnio estratégico. De resto, se há inevitabilidades históricas, a criação da CPLP foi, decerto, a nosso ver, uma delas. Se os países se unem, desde logo, por afinidades linguísticas e culturais, nada de mais natural que os Países de Língua Portuguesa se unissem num projecto comum: para defesa da língua, desde logo, e, gradualmente, para cooperarem aos mais diversos níveis. Se estranheza pode haver quanto à criação da CPLP, decorrerá somente do facto de ter nascido tão tarde. 
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Revista IDentidades no Facebook

Agostinho da silva ou a cultura portuguesa em portugal e no mundo o que é preciso é criar povo

24 de setembro de 2012

Carta aos povos de língua portuguesa


Quero saudar os povos de língua portuguesa dos cinco continentes, neles incluídos aqueles que, mesmo sem manifestarem a língua no cotidiano, nos diversos recônditos do planeta, têm-na como preciosa forma de pensar e de sentir valores e costumes.

Atualmente, estamos cada vez mais nos aproximando uns dos outros por meio da comunicação veloz e tecnológica e, no entanto, paradoxalmente, encontramo-nos tão longe do ideal de comunicabilidade fraterna que nos deveria ser habitual. Apesar disso, buscamos aprimorar nosso ser, mesmo adquirindo incessantemente coisas materiais, incapazes de nos satisfazer interiormente para que possamos atingir um nível mínimo de felicidade.

pg.: 10 da 1ª Edição da Revista IDentidades
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A Casa Agostinho da Silva em perspectiva


Em tempos da paradoxal “aldeia global”, exclusiva e excludente, na qual a sociedade prende-se à corrupção dos costumes em que todas as fatalidades tornaram-se normais na Humanidade e às manipulações insolentes, políticas e comerciais que se praticam sob a máscara da palavra “cultura” (culturus), a Casa Agostinho da Silva (CAS) está a favor da corrente do respeito às coexistências sociais para que as gentes de povo algum tenham o medo de existir. A CAS, como espaço cultural que pretende atuar com “os pés na rua”, crê na valorização da língua portuguesa e nas reformas a ela pertinentes para melhor traduzir-se em qualidade de vida e asseveração da dignidade humana. Também, credita confiança no diálogo e na cooperação entre os povos com suas origens culturais, porque só assim poderão compartir de interesses comuns e precisos nas áreas econômica, social, política e ambiental e dar à planetarização do Planeta nova futura-Idade.

Sabe-se que a globalização alargou as fronteiras do poderio técnico e consumista da sociedade capitalista, voltada para a burguesia industrializada e midiatizada. Dona do mundo, a globalização dá-se ao direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens. No real cotidiano global, os arquétipos implícitos do humano deixaram de ser transmitidos, pouco circulam e não impressionam mais. Isso ocorre porque não fez introduzir no cerne de sua ação global a dimensão do humano. Esqueceu-se dos mitos, das crenças, dos valores ecumênicos que devem existir entre culturas. Tudo deu a ver tão-somente como repetições rituais e supervalorização das particularidades e dos critérios de “raça”, “gênero” e “classe” como depositários da memória cultural colonizadora e/ou descolonizadora que reforçam, ideologicamente, um ponto de vista predeterminado e, inclusive, deixam mais evidentes preconceitos e intolerâncias.

A CAS repudia os ecletismos superficiais e generalizantes que eclipsam a fundamentação Histórica, Antropológica, Sociológica ou Filosófica, bem como recusa a reconhecer válida qualquer investigação em que a natureza do fenômeno cultural — intricado em sua essência — e até os seres humanos — naturalmente complexos — sejam substituídos por um meio ambiente simplificado, sintético e pré-fabricado pela tecnologia/linguagem midiática que tende a tudo e a todos uniformizar. Ademais, a CAS quer fazer valer o ideal político pedagógico do professor Agostinho da Silva no que respeita à proliferação de significados democraticamente disponíveis na quantidade de informações circulantes no ciberespaço e o máximo de seleção real que alavanque discussões críticas para a construção da melhor futura-Idade para todos os povos de língua portuguesa, diz-se translusófonos, haja vista que há, principalmente nos países pobres, um número enorme de indivíduos que sequer tem acesso às tecnologias modernas, sendo alijados de qualquer aquisição ou participação no ciberespaço, o que implica a negação de perspectivas na educação, na saúde e no trabalho. Cabe, então, àqueles que compreendem a obra de Agostinho da Silva, trazer à tona, na prática das ações sociais às quais se conferem posição política, que a globalização é a falsa universalização do mundo pela economia e pela padronização do imaginário,  apoiada em sua única ideologia — da técnica e do lucro — que unifica, indiferenciando, e que depende de modas efêmeras e fragmentárias e da multiplicação do banal e do vulgar. Paradoxalmente, na linha do pensamento de Agostinho da Silva, a CAS pretende divulgar que o progresso tecnológico dos tempos modernos é capaz de permitir que vivamos com segurança, abatendo os espectros da fome e do desemprego que já se mostram como sendo os dois maiores flagelos da Humanidade.

pg.: 6 da 1ª Edição da Revista Identidades




Apresentação da Revista Identidades

Acesse a Revista Identidades aqui

A Revista Identidades — uma realização da Casa Agostinho da Silva (CAS) — tem por objetivo a divulgação da obra do professor George Agostinho Baptista da Silva, promovendo o seu pensamento, bem como a divulgação dos Povos de Língua Portuguesa e a valorização da cultura lusófona/lusofilia entre culturas avizinhadas pelo mesmo idioma. 

A Identidades pretende a adesão de todos os quadrantes — sobretudo, dos falantes de língua portuguesa da África, Timor Leste, Macau, Goa e Galiza tantas vezes preteridos —, aglomerar em torno de si todas as gentes que queiram refletir e expor — respeitando os Direitos Humanos — os laços e os atos entre os povos translusófonos no que respeita à educação e à cultura, ao social e ao econômico, ao político e à sustentabilidade ambiental, à ciência e à tecnologia para o bem comum das populações dos povos irmanados pela língua portuguesa.

Tarefa deste gênero precisará de muitos agentes transformadores aproximados à práxis político pedagógica de Agostinho da Silva para refletir, crítica e criativamente, nas páginas abertas de Identidades, a cultura de língua portuguesa entre culturas várias. Só assim os próximos exemplares serão forjados na busca de elos consubstanciados pela democracia e pela fraternidade ecumênica entre as gentes que falam o mesmo e comum idioma por esse mundo afora.

Esta edição evidencia o entusiasmo com que o nome “Identidades” foi apreendido pelos autores que integram mais uma vertente, “passo a passo, linha a linha”, como solicitava o professor Agostinho, da tessitura que é a permanente troca dialógica entre as gentes da grei de mares ainda a navegar. Todos, cada um a seu modo, empenharam-se para mobilizar outras tantas gentes a fazer parte da Identidades cuja linha editorial é já esperada independente por seus colaboradores que deixam registrado que a desejam “politicamente incorreta sempre que se torne necessário, a fim de incitar o avanço de instrumentos eficazes nas ordens públicas que são tímidas em ousar medidas que consolidem, sem margem para dúvidas, o mundo de língua portuguesa”.

Segue-se o trajeto de Identidades no compartilhar da ideia de que, afirmam os amigos da CAS, “Só valerá a pena lançar mais uma publicação, se não for apenas mais uma. Só ganhará espaço e respeito se seu conteúdo justificar e merecer o título que convida às aventuras dos espíritos e dos sonhos que Agostinho da Silva nos legou.”. Terá, pois, de tratar de revelar qual é o jogo que asfixia a cultura dos povos de língua portuguesa.