31 de agosto de 2013

A CASA AGOSTINHO DA SILVA partilha esta matéria que ajuda a não ficarmos seduzidos e alienados no que fala a grande mídia .
ALAI, América Latina en Movimiento
2013-08-27

AmericaLatina

Médicos cubanos:

Avança a integração da América Latina!

Beto Almeida
 
O que brilha com luz própria , ninguém pode apagar
Seu brilho pode alcançar a escuridão de outras costas
Que pagará este pesar do tempo que se perdeu....
Das vidas que nos custou e das que nos podem custar..
O pagará a unidade dos povos em questão....
E a quem negar esta razão, a história condenará...”
Canción por La Unidad Latinoamericana
Pablo Milanez
Não faltaram emoção, lágrimas e dignidade na chegada dos 176 médicos cubanos, que desembarcaram, neste sábado (24) à noite em Brasília (DF), para um trabalho indispensável em municípios brasileiros, mais de 700, ainda sem qualquer assistência médica. Quando aqueles cidadãos cubanos, muitos deles negros, muitas mulheres, com bandeirolas brasileiras e cubanas nas mãos, pisaram o solo brasileiro, ali estava o retrato do enorme progresso social, educacional e sanitário alcançado pela Revolução Cubana. Mas, também, uma prova concreta de que a integração da América Latina está avançando; não é só comércio, é também saúde. O Brasil coopera com Cuba na construção do Complexo Portuário de Mariel – sua mais importante obra de infraestrutura atualmente –, e Cuba coopera com o Brasil preenchendo uma lacuna imensa, a falta de médicos.
A campanha conservadora contra a integração latino-americana sofrerá um revés tremendo quando o programa Mais Médicos começar a apresentar seus efeitos concretos. Esses resultados terão a força para revelar o teor medieval das críticas feitas pelas representações médicas e pela mídia teleguiada pela publicidade da indústria farmacêutica.
Volumosa desinformação
Tendo em vista o volume de desinformação que circulou contra a vinda de médicos estrangeiros, mas contra os médicos cubanos em especial, é obrigatório travar a batalha das ideias, primeiramente, em defesa da Revolução Cubana como uma conquista de toda a humanidade. Cercada, sabotada e agredida, a Revolução Cubana, que antes de 1959 possuía os mais tenebrosos indicadores sociais, analfabetismo massivo, mortalidade infantil indecente, desemprego e atraso social generalizado, consegue libertar-se da condição de colônia e, mesmo sem ter uma base industrial como a brasileira por exemplo, passa a exportar médicos, professores, vacinas, desportistas. Exporta, principalmente, exemplos!
Esse salto histórico da Revolução Cubana deixa desconcertada a crítica, seja emanada pela mídia colonizada pelas lucrativas transnacionais fabricantes de farmacos ou equipamentos hospitalares, seja a crítica da oligarquia difundida pelas representações médicas. Os que questionam a qualidade da formação profissional dos médicos cubanos são desafiados a responder por que a mortalidade infantil em Cuba é das mais baixas do mundo, sendo inferior, inclusive, àquela registrada no Estado de Washington, nos EUA.
Cuba e a libertação africana
Vale lembrar que Cuba possuía, antes de 1959, pouco mais de 6 mil médicos, dos quais a metade deixou o país porque não queria perder privilégios, nem concordava com a socialização da saúde. Apenas cinco décadas depois, é esta mesma Cuba que tem capacidade de exportar milhares de médicos para socorrer o povo brasileiro de uma indigência grave construída por um sistema de saúde ainda determinado pelos poderosos interesses das indústrias hospitalar, farmacêutica e de equipamentos, que privilegiam a noção de uma medicina como um negócio, uma atividade empresarial a mais, não como um direito, como determina nossa Constituição.
Já em 1963, quando a Revolução na Argélia precisou, iniciou-se a prática cubana de enviar brigadas médicas aos povos irmãos. Ensanguentada pela herança da dominação francesa, a Revolução Argelina encontrou em Cuba a fraternidade concreta, quando ainda não havia na Ilha um contingente médico tão numeroso como o existente atualmente. Predominou sempre na Revolução Cubana a ideia de que em matéria de solidariedade internacional compartilha-se o que se tem, não o que lhe sobra. Foi exatamente ali, na Argélia, que se estabeleceram laços indestrutíveis entre a Revolução Cubana e os diversos movimentos de libertação da África. A partir de então, Cuba participou com brigadas militares e médicas em diversos processos de libertação nacional do continente. De tal sorte que, em 1966, a primeira campanha de vacinação contra a poliomielite realizada no Congo foi organizada por médicos cubanos! Os CRMs conhecem esta informação? Sabem que a poliomielite foi erradicada em Cuba décadas antes do Brasil fazê-lo?
Será o Revalida capaz de avaliar a dimensão libertadora da medicina cubana?
Quando Angola foi invadida por tropas do exército racista da África do Sul, baseado nas supremas leis do internacionalismo proletário, Agostinho Neto, presidente angolano, também médico e poeta, solicitou a Fidel Castro ajuda militar para garantir a soberania da nação africana. Uma das mais monumentais obras de solidariedade foi realizada por Cuba que, ao todo, enviou a Angola cerca de 400 mil homens e mulheres para, ao lado dos angolanos e namíbios, expulsar as tropas imperialistas sul-africanas tanto de Angola como da Namíbia. E sob a ameaça de uma bomba atômica, que Israel ofereceu à África do Sul argumentando que as tropas cubanas tinham que ser dizimadas porque pretendiam chegar até Pretória..... Na heroica Batalha de Cuito Cuanavale – que todos os jornalistas, historiadores e militantes deveriam conhecer a fundo – lá estavam as tropas cubanas, mas lá estavam também as brigadas médicas de Cuba, que se espalharam por vários pontos de Angola. A vitória de Angola e da Namíbia contra a invasão da África do Sul foi também a derrota do regime do Apartheid. Citemos Mandela: “A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do Apartheid. Devemos o fim do Apartheid a Cuba!”.
Qual exame Revalida será capaz de dimensionar adequadamente o desempenho de um médico cubano em Cuito Cuanavale, com sua maleta de instrumentos numa das mãos e na outra uma metralhadora, livrando a humanidade da crueldade do Apartheid? Como dimensionar o bem que o fim do Apartheid, com a decisiva participação cubana, proporcionou para a saúde social da História da Humanidade?
As crianças de Chernobyl em Cuba
O sentido de solidariedade internacionalista está tão plasmado na sociedade cubana que, quando aquele terrível acidente ocorreu na Usina Nuclear de Chernobyl, em 1986, o Estado cubano recebeu das organizações dos Pioneiros – que congregam crianças e adolescentes cubanos – a proposta de oferecer tratamento médico às crianças contaminadas pela radioatividade vazada no desastre. Um documentário realizado pelo extinto Programa Estação Ciência, dirigido pelo jornalista Hélio Doyle, exibido com frequência na TV Cidade Livre de Brasília, registra como Cuba compartilhou seus recursos médicos e hospitalares, mas, sobretudo, sua fraterna solidariedade com cerca de 3 mil crianças russas que foram levadas para tratamento na Ilha, nas instalações dos Pioneiros, em Tarará. Destaque-se, primeiramente, que a ideia partiu dos Pioneiros. Segundo, que Cuba não se colocava na condição de doadora, mas apenas cumprindo um dever solidário. Lembravam que o povo soviético havia sido solidário com Cuba quando os EUA iniciaram o bloqueio contra a Ilha cortando a cota de petróleo e do açúcar, suspendendo o comércio bilateral, na década de 1960. A URSS passou a comprar todo o açúcar cubano, pelo dobro do preço do mercado internacional, e a abastecer Cuba de petróleo, pela metade do preço de mercado mundial. São páginas escritas, em uma outra lógica, solidária, fraterna, socialista. É de se imaginar o quanto os dirigentes das representações médicas brasileiras poderiam aprender com aquelas crianças cubanas que ofertaram tratamento às 3 mil crianças russas, um contingente menor que o de médicos cubanos que virão para o Brasil.
Impublicável
A cooperação entre Brasil e Cuba, em matéria de saúde, não está iniciando-se agora. Durante o governo Sarney, recém restabelecidas as relações bilaterais, em 1986, foram as vacinas cubanas contra a meningite que permitiram ao nosso país enfrentar aquele surto. Na época, a mídia teleguiada também fez uma sórdida campanha contra o governo Sarney, primeiro por reatar as relações, mas também por comprar grandes lotes da vacina desenvolvida pela avançada ciência de Cuba. De modo venenoso, tentou-se desqualificar as vacinas, afirmando serem de qualidade duvidosa, tal como agora atacam a medicina cubana. Na época, foram as vacinas cubanas que permitiram controlar aquele surto e salvar vidas. Mas também trouxeram, por meio do exemplo, a possibilidade de que aprendêssemos um pouco dos valores e das conquistas de uma revolução. Afinal, por que um país com poucos recursos, com uma base industrial muito mais reduzida, conseguia não apenas elevar vertiginosamente o padrão de saúde de seu povo, mas também desenvolver uma tecnologia com capacidade para produzir e exportar vacinas, enquanto o Brasil, com uma indústria muito mais expandida, capaz de produzir carros, navios e aviões, não tinha capacidade para defender seu próprio povo de um surto de meningite? São sagradas as prioridades de uma revolução. E é por isso que, ainda hoje, a sexta maior economia do mundo se vê na obrigação de recorrer a Cuba para não permitir a continuidade de um crime social configurado na não prestação de atendimento médico a milhões de brasileiros.
Mais recentemente, quando a Organização Mundial da Saúde convocou a indústria farmacêutica internacional a produzir vacinas para combater um tenebroso surto de febre amarela que se espalhou pela África, obteve como resposta desta indústria o mais sonoro e insensível “não”. Os preços que a OMS podia pagar pelas vacinas não eram, segundo as transnacionais farmacêuticas, apetitosos. Milhões de vidas africanas passaram a correr risco, não fosse a cooperação entre dois laboratórios estatais: o Instituto Bio Manguinhos, brasileiro, e o Instituto Finley, cubano. Essa cooperação permitiu a produção, até o momento, de 19 milhões de doses da vacina que a África necessitava, a um preço 90 por cento menor que o preço do mercado internacional. Onde foi publicada esta informação? Apenas na Telesur e na imprensa cubana. A ditadura dos anúncios da indústria farmacêutica, que dita a linha editorial da mídia brasileira em relação ao programa Mais Médicos e à cooperação da medicina de Cuba, simplesmente impediu que o grande público brasileiro tomasse conhecimento desta importantíssima cooperação estatal brasileiro-cubana.
Os médicos cubanos e o furacão Katrina
Para dimensionar a inqualificável onda de insultos que os médicos cubanos vêm recebendo aqui na mídia oligárquica, lembremos um fato também sonegado por esta mesma mídia, que revela suas dificuldades monumentais para o exercício do jornalismo como missão pública. Quando ocorreu o trágico furacão Katrina, que devastou Nova Orleans, deixando uma população negra e pobre ao abandono, dada a incapacidade e o desinteresse do governo dos EUA em prestar-lhe socorro naquela oportunidade, também foi Cuba que colocou à disposição do governo estadunidense – malgrado toda a hostilidade ilegal deste para com a Ilha – um contingente de 1.300 médicos, postados no Aeroporto de Havana, com capacidade de chegar para prestar ajuda à população afetada pelo furacão. Aguardavam apenas autorização para o embarque, e em questão de 3 horas de voo estariam em Nova Orleans salvando vidas. Aguardaram horas, mas esta autorização nunca chegou da Casa Branca. A resposta animalesca do presidente George Bush foi um sonoro “não” à oferta de Cuba, o que tampouco foi divulgado pela mídia oligárquica, provavelmente para protegê-lo do vexame de ver difundido seu tosco caráter, que tal recusa representava. Os EUA estão sempre prontos para enviar militares e mercenários pelo mundo, mas são incapazes de prestar ajuda ao seu próprio povo, e também arrogantes o suficiente para permitir uma ajuda de Cuba à população pobre e negra afetada pelo furacão.
Uma Escola de Medicina para outros povos
Também não circulam informações aqui de que Cuba, após o furacão Mity, que devastou a América Central e parte do Caribe, decidiu montar uma Escola Latino-americana de Medicina que, em pouco mais de 10 anos de funcionamento, já formou mais de 10 mil médicos estrangeiros gratuitamente. Entre eles, 500 jovens negros e pobres dos EUA, moradores dos bairros do Harlem e do Brooklin, de elevados índices de violência. Eles me revelaram que se tivessem continuado a viver ali, eram fortes candidatos a serem presa fácil do narcotráfico. Frisavam que estar ali em Cuba, formando-se em medicina gratuitamente, era uma possibilidade que a maior potência capitalista do mundo não lhes oferecia. Há, estudando na ELAM, cerca de uma centena de jovens do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), filhos de assentados da reforma agrária. Isto significa que Cuba compartilha com vários países do mundo seus modestos recursos. Também estudam lá cerca de 600 jovens do Timor Leste, sendo que existem 40 médicos cubanos trabalhando já agora no Timor. O tipo de exame Revalida seria capaz de dimensionar esta solidariedade cubana com a saúde dos povos?
Ampliar a integração em outras áreas
Também não se divulgou por aqui que Cuba montou três Faculdades de Medicina na África, (Eritreia, Gambia e Guiné Equatorial), em pleno funcionamento, com professores cubanos. Toda esta campanha de insultos contra Cuba e os médicos cubanos abre uma boa possibilidade para discutir e conhecer mais a fundo todas estas conquistas da Revolução Cubana, mas, especialmente, para que as forcas progressistas reflitam sobre quantas outras possibilidades de cooperação existem entre Brasil e Cuba, em muitas outras áreas.
Mas serve, também, para reavaliar a posição de certos parlamentares médicos da esquerda no Brasil que se opõem, inexplicavelmente, ao Programa Mais Médicos, alguns chegando ao absurdo de apresentarem projetos de lei proibindo, pelo prazo de 10 anos, a abertura de qualquer novo curso de medicina no Brasil. Cuba abre faculdades de medicina na África, parlamentares da esquerda brasileira – padecendo da doença senil do corporativismo tosco – propõe a não abertura de mais cursos de medicina aqui. Realmente, setores de nossa esquerda também precisam da cooperação médica cubana, a começar para curarem-se de espantosa desinformação acerca de Cuba!
Qualificar o debate sobre a integração
Enfim, um debate democrático e qualificado em torno do programa Mais Médicos, da presença de médicos cubanos aqui no Brasil e em mais de 70 países, e também sobre as conquistas da Revolução Cubana, deve ser organizado pelos partidos e sindicatos, pelo movimento estudantil, pelos movimentos sociais, pela Solidariedade a Cuba, pelas TVs e rádios comunitárias, como forma de impulsionar a integração da América Latina, que, neste episódio, está demonstrando o quanto pode ser útil à população mais pobre. A TV Brasil pode cumprir uma função muito útil, pode divulgar documentários já existentes sobre o trabalho de médicos em regiões inóspitas e adversas em diversos países.
É preciso expandir esta integração, avançar pela educação, pela informação, não havendo justificativas para que o Brasil ainda não esteja conectado com a Telesur, por exemplo, que tem divulgado amplo material jornalístico informando que três milhões e meio de cidadãos latino-americanos já foram salvos da cegueira graças à Operação Milagro, pela qual médicos cubanos e venezuelanos realizam, gratuitamente, cirurgias de cataratas em vários países da região. Isso não é notícia relevante? Enquanto o povo argentino, por exemplo, já pode sintonizar gratuitamente a Telesur, por sua TV digital pública, e informar-se de tudo isto, o povo brasileiro está impedido, praticamente, de receber informações que revelam o andamento da integração da América Latina. Mas, com a chegada dos médicos cubanos, a integração será cada vez mais pauta da agenda do debate político nacional e receberá, certamente, um impulso político e social notável, pois o povo brasileiro saberá, com nobreza e humanismo, valorizar e apoiar o Programa Mais Médicos. Aliás, é exatamente isto o que tanto apavora a medicina capitalista.
Há 70 mil engenheiros estrangeiros no Brasil hoje!
Segundo dados recentes do Ministério do Trabalho, existem hoje trabalhando no Brasil cerca de 70 mil engenheiros estrangeiros. Nenhuma gritaria foi feita. Neste caso, trata-se de petróleo e outros projetos, muito lucrativos para as transnacionais. Mas quando se trata de salvar vidas, acendem-se todas as fogueiras do inferno da nova inquisição contra uma cooperação que é lógica e indispensável, solidária e humanitária. Por que é aceitável a importação de telefones, equipamentos médicos, remédios, cosméticos, roupas, caviar, bebidas, vacinas e não se aceita a cooperação de médicos de Cuba, sendo este o único país em condições objetivas de apresentar-se prontamente e de maneira eficaz com profissionais experimentados? Será que as representações médicas brasileiras possuem sequer uma remota ideia de que estão proferindo insultos a esta bela história da medicina socialista de Cuba?
Quem pagará a conta da demora?
A presidenta Dilma tem inteira razão em convocar os médicos cubanos, algo que já poderia ter sido feito há mais tempo, amenizando a dor e o sofrimento de milhões de brasileiros abandonados por um sistema de saúde e por uma mentalidade de parcelas das representações médicas que, por mais absurdo que pareça, ainda tentam justificar este abandono. Aliás, com a determinação da presidenta Dilma está absolutamente revelada a importância da integração da América Latina, não havendo justificativas para que esta modalidade de integração nas esferas sociais não avance também para outras áreas, como a educação, por exemplo. Foi exatamente com o método cubano denominado “Yo, si, puedo”, que Venezuela, Bolívia e Equador são países declarados pela UNESCO como “Territórios Livres do Analfabetismo”, sempre com a participação direta de professores cubanos. Muito em breve será a Nicarágua, que vai recuperar aquele galardão, que já havia conquistado durante a Revolução Sandinista, mas depois perdeu na era neoliberal. Por quanto tempo o Brasil terá apenas projetos pilotos, em apenas três cidades, com o método de alfabetização cubano que, aliás, já tem absoluta comprovação e reconhecimento mundiais? Que espera a sexta economia do mundo em convocar ainda mais a cooperação cubana para erradicar o analfabetismo? Quem pagará a conta desta injustificável demora? Como diz a canção de Pablo, será paga pela unidade latino-americana. Pero, cuantas vidas puede custar?
Termino com a declaração da Dra. Milagro Cárdenas Lopes, cubana, negra, 61 anos: “Somos médicos por vocação, não nos interessa um salário, fazemos por amor”, afirmou. Em seguida, dirigiu-se com seus companheiros para os ônibus organizados pelo Exército Brasileiro, que cuida de seu alojamento. Sinal eloquente de que a integração está escrevendo uma nova página na história da América Latina.
- Beto Almeida é diretor da Telesur.

27 de agosto de 2013

MARTIM SOARES MORENO, um heroi luso-brasileiro esquecido

Martim Soares Moreno, outro heroi luso-brasileiro quase ignorado, contemporâneo de outros dois: o Padre António Vieira e Pedro Teixeira (o desbravador e conquistador da Amazónia), sobre os quais já publiquei textos anteriormente, aos quais se pode acrescentar Salvador Correia de Sá e Benevides.
O Prof. Abreu Freire lançou um novo livro. Trata-se de “O ROTEIRO DE MARTIM SOARES MORENO (ed. Debat Evolution, 2013, 192 páginas, com dois cadernos de ilustrações a cores). Conta a história de meio século de lutas pela restauração do Brasil, entre 1604 e 1654. Os franceses instalaram-se desde a Paraíba até ao Maranhão, depois de expulsos do Rio de Janeiro e os holandeses chegaram a ocupar metade da costa brasileira, onde controlavam a produção e o comércio do açúcar. Martim Soares Moreno chegou ao Brasil muito jovem e participou em todas as lutas contra franceses e holandeses; natural de Santiago do Cacém, faleceu na sua terra natal, depois de ter servido como militar desde a Bahia até ao Maranhão, durante 45 anos.
Ele foi um dos grandes heróis da recuperação do Brasil para o domínio português. Combateu intrusos e corsários, em terra como no oceano, desfigurado e com uma mão decepada desde os 30 anos; faz parte da lenda, da tradição e da literatura, sobretudo no Ceará, capitania por ele fundada e onde é venerado. Um dos mais belos romances da literatura luso-brasileira intitula-se IRACEMA, da autoria de José de Alencar (1829-1877): o romance narra a história de um guerreiro português que se enamora da filha de um chefe índio com quem tem um filho e é uma metáfora da miscigenação própria à nação brasileira. A ficção de Alencar é decalcada sobre a vida real do militar cuja história verdadeira é narrada no livro do professor Abreu Freire.
O texto agora publicado resulta de investigações levadas a cabo durante muitos anos, já que a vida do militar se cruza em diversos momentos com a do padre António Vieira, a quem o autor dedicou vários livros e um filme. Martim comandava um batalhão de tropas acantonadas na Bahia pelos anos de 1638 a 1645, antes da investida decisiva contra os holandeses; por esses anos o jesuíta pregava os primeiros sermões patrióticos para animar os soldados. Mais tarde o pregador foi incumbido de resolver na Holanda, pela via diplomática, a questão da presença holandesa no Brasil, sem sucesso, enquanto os soldados a quem ele pregara em Salvador da Bahia conseguiam derrotar os ocupantes em Pernambuco; em Agosto de 1648, o jesuíta regressava a Lisboa e o militar também: o padre tinha fracassado, o militar chegava como vencedor de uma grande batalha, mas faleceu pouco tempo depois.
Os contornos da luta pela restauração do Brasil são complexos e foram muitos os intervenientes na criação da nação brasileira; Martim Soares Moreno falava a língua Tupi e comandou por várias vezes batalhões de tropas indígenas. Na guerra pela restauração e unidade do Brasil combateram negros, índios e brancos, com interesses diferentes mas uma escolha comum que foi a de continuar a existir sob influência portuguesa. Este livro é a primeira biografia completa escrita em Portugal sobre um dos personagens fundamentais na formação de um dos países mais promissores do mundo, onde hoje vivem 194 milhões de pessoas.
(Transcrito, com a devida  vénia, do “Portugal sem Passaporte”, de 20.08.2013, do jornalista Graciano Coutinho, emigrado em Fortaleza-Brasil)
Colaborador Jorge da Paz

12 de agosto de 2013

Isto parece o Brasil. Atentemo-nos para a gravidade da educação proletarizada que atingiu o Brasil. Desnecessário evidenciar a que Governo pertence a Educação Proletarizada.

Vejam bem ao que chegámos no ensino em Portugal e ainda existem por aí uns professores energúmenos contra o ministro Nuno Crato, por ele querer exames quase todos os anos e cada vez mais exigentes! Claro que existem culpas repartidas (Estado, pais, professores e alunos), mas que não doam as mãos ao ministro Nuno Crato! Qualquer dia, se continuasse assim, seríamos outra vez um país com 25% de analfabetos.
JPR 
 
  
Composição, Aluno 9º ano das Caldas da Rainha O "pipol" adorou !

 
Está a olhos vistos.
Composição "O Pipol e a Escola"
Se não entenderem à 1ª, tentem uma 2ª vez que está demais!!!!!!!!
Lindo futuro escolar...Geração  > Phonix+Zonix+vodafnix+Uzix+Tmnix+optimix e outras tantas terminadas em  > ix...
(Texto verídico retirado de uma prova livre de Língua Portuguesa, realizada por um aluno do 9º ano, na Escola Secundária de Caldas da Rainha, para ler, estarrecer e reflectir...!!!)

" REDAXÃO
  O PIPOL E A ESCOLA

  Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem Direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. Primeiros a peçoa  n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.
 
  Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto Montanhoso? Ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? Ou cuantas estrofes tem um cuadrado? Ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?
 
  E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem os Lesiades q é u m livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.
 
  Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a Malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a Malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o garra de lin-chao é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???
 
  O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a Malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. Tarei a inzajerar?"

7 de agosto de 2013


Da Agência Lusa e do diário Expresso (Portugal)
2 de agosto de 2012
Keshav Chandra: Jogos da Lusofonia mantidos em novembro em Goa.
 
A região de Goa, na Índia, sediará dois importantes eventos de intensificação das relações entre a Índia e o mundo de Língua Portuguesa. Em novembro, ocorrerão os Jogos da Lusofonia, cujo presidente da Comissão Organizadora garantiu recentemente sua realização, apesar dos atrasos nas infraestruturas. E em janeiro de 2014, terá lugar em Goa o Congresso Internacional Índia e o Mercado Lusófono, promovido pela Sociedade Lusófona de Goa.
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–– Jogos da Lusofonia em Goa: com atraso – mas garantidos ––
Os Jogos da Lusofonia, que se disputam entre 2 e 10 de novembro, em Goa, sofreram “atrasos tremendos”, mas não vão ser cancelados, disse hoje à Agência Lusa o presidente da Comissão Organizadora, Keshav Chandra.
Keshav Chandra, que falava em Macau, na China, à margem da cerimónia de abertura do Grande Prémio Mundial de Voleibol feminino, admitiu que há atrasos significativos nas infraestruturas, mas reiterou que os Jogos da Lusofonia vão realizar-se em Goa e que as autoridades estão a envidar todos os esforços para acelerar os trabalhos, sendo que “a questão [de cancelamento] não foi levantada”.
“Absolutamente não”, reagiu o presidente da Comissão Organizadora da terceira edição dos Jogos da Lusofonia de Goa, quando questionado pela Lusa sobre a possibilidade de cancelamento do evento desportivo, avançada, durante esta semana, pela rádio Antena 1, de Portugal.
A Sociedade Lusófona de Goa promoverá o Congresso Internacional Índia e o Mercado Lusófono em janeiro de 2014.
 
–– Congresso de negócios Índia e o Mercado Lusófono em Goa ––
A Sociedade Lusófona de Goa vai organizar o Congresso Internacional Índia e o Mercado Lusófono, para avaliar as reais possibilidades de negócios entre a Índia e os países lusófonos, divulgou a organização indiana radicada em Goa.
“Este congresso será de particular interesse para empresários de países lusófonos e da Índia e tem como objetivo conhecerem as reais possibilidade de trocas de bens e serviços”, informou hoje a Sociedade Lusófona de Goa na sua página na Internet.
O evento decorrerá entre 14 e 15 de janeiro de 2014, em Goa, na Índia.

30 de julho de 2013

Para embaixador português, o crescimento da língua “é imparável”

O embaixador Álvaro Mendonça e Moura (Embaixada de Portugal)
importância geoestratégicados países que falam o português vai ajudar o idioma a crescer no mundo. A estimativa partiu do novo embaixador de Portugal junto às Nações Unidas.
Em entrevista à Rádio ONU, Álvaro Mendonça e Moura lembrou que o português está presente em todos os continentes com um destaque para África, que concentra cinco nações de língua portuguesa.
Mundo Diferente
Para o embaixador a demografia lusófona é jovem e está em pleno desenvolvimento. “A importância crescente do português é imparável. Mesmo que não fizéssemos nada, ela ia se verificar. Ou seja, nós temos o tempo a correr a nosso favor. Basta olhar para as projeções demográficas a longo prazo para nos darmos conta de como o mundo vai ser diferente.”
Especialistas afirmam que até 2050, o português terá mais de 300 milhões de falantes nativos, 50 milhões acima do número atual de pessoas que utilizam o português como primeira língua.
Ásia
Segundo o embaixador, o mais novo país de língua portuguesa, Timor-Leste, ajuda a ampliar a presença do idioma até a Ásia, uma condição vital para o aspecto global da língua.
“Ora o português está na Europa, onde nasceu. Está em África, onde temos o maior número de países lusófonos. Está na Ásia com o Timor-Leste, mas também em Malaca, em Macau, para já não falar de outras comunidades mais pequenas, e está obviamente na América Latina, onde reside o maior número de falantes. Ou seja, é uma língua de dimensão mundial.”
A promoção do português como idioma internacional é uma das prioridades da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A entidade também se ocupa de aumentar a utilização do português em organizações internacionais como as Nações Unidas.
A medida é parte de uma estratégia de promoção, proposta durante a presidência rotativa de Portugal no bloco em 2008, e endossada por todos os países-membros da CPLP.
Esta matéria foi originalmente publicada pela ONU Brasil.

Artur Alonso Novelle

Crise
Primeiro degrau para obter a transformação.

“É uma crise complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos de nossa vida — a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política. É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes em toda a história da humanidade”
                                   (Fritjot Kapra – O Ponto de Mutação)

Pelo tanto estamos ante uma crise sistêmica derivada em crise múltipla: crise econômica, energética, crise alimentar, ambiental, demográfica… Nascida da evolução do poder desde a II Guerra Mundial ate os nossos dias – aninhando no ovo e crescendo desde a fase da Bretton Woods, ao poder dos petrodólares, a flexibilização e aumento dos déficits estatais nomeadamente dos EEUU, ao período neoliberal iniciado pela dupla Reagan – Thatcher, ate a implosão da bolha imobiliária e a quebra sistêmica de 2007 – 2008.


Alicerces do Poder

O poder atual assenta na estrutura virtual fomentada sobre a alquimia financeira: a criação de bolhas especulativas em determinados sectores (internet, sector imobiliário – hipotecário) compõe um complexo tecido de redes de ativos que atuam como palancas para expandir artificialmente a riqueza e os recursos líquidos duma pequena elite mundial, que desde suas bases de Wall Street e a City Londrina, comanda sem duvida o mundo. Este enramado econômico também possibilita a vassalagem do resto das elites periféricas – que controlam e estabelecem as regras de posse e dominação territorial, em aliança com poder central, desde onde se irradia todo o alimento do sistema e ate onde chega toda a energia renovada ou viciada do mesmo – seguindo um circuito pré-estabelecido e auto-alimentado de centro – periferia, periferia – centro. 
O problema das bolhas é que como todo no mundo da matéria e as formas – tem seu nascimento, crescimento e limite biológico, depois do qual estouram… Se as bolhas forem geradas na periferia do sistema, as dominantes elites trajadas de inversores e seus aliados locais, retiram seu capital a tempo antes da bomba explodir, deixando a seu passo um tsunami de ruína imediata por todo um país ou países da região envolvida; para logo à seguir desviar os fundos retirados e colocá-los, junto a todos os dividendos obtidos, diversificadamente em outras praças mais seguras; onde a continuação podemos começar a inchar outra nova bolha (este é o principal problema inerente a um modelo de exploração global onde a riqueza surge do credito, e onde aumento de credito significa aumento da riqueza).
No entanto quando estas bolhas implodem no centro do sistema (algo que só ocorre quando a periferia por si soa resulta insuficiente para seguir irrigando energia necessária para bom funcionamento no centro de comando): então mesmo suas elites mais refinadas na arte de multiplicar e camuflar recursos avistam o fim do jogo (Game Over). Ai os poderes senhorias vem-se obrigados a improvisar corta-lumes por onde tentar escapar da explosão em curso. Em estas circunstâncias a tendência incontrolável do credito invadir todas as artérias ativa diretamente a primeira fase do “armagedom” financeiro.

Única solução: aliviar o lume e demolir o sistema; construindo ou reconstruindo a continuação uma nova arquitetura de domínio que lhes permita seguir no topo da pirâmide e com direito a nova posse do território, como senhores legalizados pela herança do velho feudo.

Em estas etapas as colunas que sustem o sistema sofrem severos estragos, devido aos grandes movimentos sísmicos do chão sobre as que se assentam.  Deste modo certo pânico se instala na percepção do momento e na necessidade de previr e adiantar possíveis presentes de futuros escassos… Os grandes negócios que fornecem a base especulativa do sistema: entre os que se encontram armas, drogas e trafico de seres humanos, aceleram sua atividade. Os medos criam reticências e as reticências falta de confiança (desconfiança – medo= cerração – atitude defensiva = a aceleramento da carreira de armamentos).
Esta desconfiança que a sua vez reforça o sentimento de proteção e sobrevivência, aciona intuitivamente o mecanismo preciso prevenção controle: sobre as áreas de produção de recursos – energia, alimentos, água…, sobre as vias de transito e pontos de distribuição… Criando disputas entre o poder dominante e os poderes emergentes ou periféricos; dando na pratica menos margem de manobra e acomodo aos interesses de ambos, o qual diretamente repercute na falta de acordos importantes e na contração paulatina das vias diplomáticas.
A par disto, as disputas sobre o controlo do território nas zonas de fricção mais quentes (Oriente Médio, Pacifico, África…) trazem consigo um aumento do policiamento do orbe e um provável contagio a zonas limítrofes (fazendo as fronteiras menos seguras e confrontos mais longos e perigosos para estabilidade mundial). Alimenta-se também o receio de perder a iniciativa e a conseguinte necessidade de impedir que os grandes recursos geoestratégicos, como as energias suas fontes, vias e redes de distribuição,  fiquem momentânea ou definitivamente em mãos de potencias concorrentes. Em estas carreira por assegurar a supremacia nada fica fora do jogo: daí o uso das redes massivas de comunicação também como redes de controlo ou espionagem – como tem demonstrado o recente caso Snowden, em conivência precisamente com esse poder Mercantil, que não fez outra cousa senão que assegurar domínio  do modelo que permite a sua expansão e consolidação como único poder global em alça.

Para obter sucesso em estes períodos as colunas que alimentam o poder devem ser reforças ao tempo que se procura neste estagio de transação assegurar que, tanto a demolição sistêmica como a nova construção de modelo seja desenhada, guiada e custodiada pelas mesmas famílias dominantes. Para reforçar o papel preeminente das finanças e o poder absoluto do Deus Mercado, os panificadores aproveitam os tempos de confusão inerentes a toda crise sistêmica, e todo período de transformação, para transferir recursos desde a base piramidal ao cimo do grande castelo.

Em nossas sociedades atuais isto se traduz em uma tentativa de transformação dum modelo de capitalismo financeiro ate um novo modelo de capitalismo das rendas ou neo-feudalismo – como acertadamente tem sugerido o economista americano Michael Hudson – Este neo-feudalismo acrescenta como característica principal o usufruto de rendas, sobre serviços vários – muitos dos quais como os chamados básicos: sanidade, educação, rede rodoviária… foram patrimônio publico agora transferidos ou em processo de ser transferidos ao setor privado em expansão (Lei física: quando algo se expande algo se contrai. Expansão sector privado versus contração Sector Publico).


Transformação do Modelo Político

Em estas circunstancias o velho modelo político, nascido do velho conceito de “Estado razão” do iluminismo assentado na Europa a finais do século XVIII – inícios do século XIX, e transformado durante todo o século XX, perde todo valor tangível, havida conta os grandes detentores do poder real no mundo ocidental (a chamada Ordem Mercantil, agora evoluída a Ordem Financeira) o veja como um impedimento para avançar na transformação precisa.
Esta velha Ordem Mercantil que teria vencido todos os seus rivais – desde o Sacro Império Germânico, passando pelo Império Napoleônico, ate os estados nacional socialistas e fascistas, ou o Império Soviético; acabando por derruir (desde inícios dos anos oitenta do século passado) os Estados Providencia ou de Bem Estar e dobregado a bem articulada resistência da força de trabalho – nascida na Inglaterra da Revolução Industrial… Este vitorioso poder dizemos, que teria articulado redes em todo o embrenhado sistema sócio político ocidental, desde o mundo acadêmico ate o mundo empresarial, passando pelo complexo militar industrial, ócio…. está agora em condições idôneas únicas em sua trajetória expansiva, (desde as primeiras sementes dos poderosos comerciantes regionais da Liga de Hansa ou os muito haveis banqueiros Médici) de suprimir o antigo modelo ainda alicerçado sobre o Estado Nação, para construir um novo modelo mais afim com sua realidade dominante – baseado na ultrapassagem das “democracias ocidentais” algemadas ao livre mercado; por um modelo mais real, na seqüência da fase da regionalização dentro da globalização – e que teria como inicio um novo centro regional – com poderes que definitivamente encenassem a vassalagem das periferias regionais sobre o centro continental. O modelo experiencial mais idôneo para comprovar as capacidades da nova mudança, dentro deste sistema global, seria o da nossa amada União Européia. Para isso acontecer, no entanto vai ser preciso nesta fase evolutiva manter institucionalmente os tentáculos do velho Estado Nação, na pratica desprovido de cada vez mais faculdades diretas – perda do controle da moeda, perda do controle financeiro e ancoramento ao Banco Centrais Europeu, cessão do domínio legislativo (leis marco dependentes da legislação europeia), cessão do controlo judicial (futura união jurídica), perda do comando supremo das forças armadas caminho dumas forças regionais conjuntas e inserção em organizações transnacionais (NATO)… Enquanto se desenvolve o novo modelo que a longa ira eliminar, suprimir, definitivamente esse Estado.
Este mantimento do Estado Nação a nível institucional ajuda a regular o desloque de transferência de poder num período de transição, a um tempo que facilita remover obstáculos e reticências – ao isolar as lutas dentro do marco do antigo Estado, impedido uma organização da dissidência e descontento a nível regional, onde efetivamente agora se exerce o poder. Com esta manobra se provoca a curto ou longo prazo cansanção e derrota entre as vítimas do processo e os contrários ao mesmo.



A Nova Europa em construção  

Entre tanto um novo poder burocrático, melhor protegido na sua torre de marfim – seja esta Bruxelas ou Estrasburgo – fora da pressão da rua, pode com maior tranqüilidade oferecer os seus serviços a nova Elite Financeira Europeia – possuidora ou a ponto de possuir praticamente todo o anterior patrimônio publico herdado dos Estados Providencia ou Estados fortes ainda não totalmente atingidos pelos processos privatizadores.

A pesar de pequenos retrocessos, incertezas, divisão de opiniões, confrontos de interesse, próprios dum período de transformação… como pode ser na Europa o caso Islandês (fora do marco da União Europeia – que tentaremos solucionar uma vez conseguida a Adesão da ilha à mesma), ou os protestos populares e greves gerais no Sul do Continente; pouco provável parece nesta altura construir uma alternativa fiável a curta, que possa impedir a consolidação da tendência dominante de maior acumulo de poder dentro da vigorante Ordem Mercantil Ocidental virada a Ordem Financeira – encarregada de transformar o modelo econômico capitalista em um modelo econômico financeiro neo-feudal, ou capitalismo das rendas… Este modelo econômico terá com certeza também que instituir um novo modelo político, que agora está em construção e onde a perda de influencia de atores claves em séculos passados como a força de trabalho ou a cidadania… vão de seguro desaparecer ou mutuar em convidados de pedra – pois na pratica realmente já perderam – muita, da sua anterior, influencia política real.

Ao igual que no modelo Friedman-Lemaître-Robertson-Walker, que descreve a expansão do universo desde o começo do Big-Bang, de maneira tão paradoxal, que podemos observar como os objetos que deveriam distribuir-se num espaço fixo ao até o vazio, aparecem como sendo parte do espaço que os contém a eles, a vez que este espaço se modifica a si mesmo, de tal modo que aparenta os objetos não moverem-se por si próprios; senão que é precisamente aquele espaço que está crescendo de alguma maneira entre eles… Assim também esta nova versão europeia de cambio de sistema político – econômico, parece operar-se lentamente como se o próprio modelo por evolução natural estivesse transformando-se enquanto os atores principais a quem ele afeta – cidadãos de todo continente – ficassem olhando como o espaço das privatizações medra de alguma maneira entre eles, não sendo os cidadãos que se movimentam pelo espaço europeu configurando de alguma forma o mesmo, senão pela contra, existissem  esses mesmos cidadãos como formando parte de esses domínios privados que de algum modo os cotem também a eles …

17 de julho de 2013

O PAPA, O PAI-NOSSO E A FADA TUPI
José Ribamar Bessa Freire
14/07/2013 - Diário do Amazonas


Na próxima semana, no Rio, o papa rezará o pai-nosso traduzido em 26 idiomas. É uma forma de a Igreja Católica prestigiar cada um deles. Na lista não consta, porém, nenhuma das mais de 180 línguas indígenas faladas hoje no Brasil. Acontece que a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) adotou como oficiais somente línguas indo-europeias - inglês, francês, alemão, espanhol, português, italiano e polonês, que serão usados na catequese juntamente com outros 19 idiomas "paroquiais", entre os quais o coreano, o russo, o croata, o letão, o árabe e até o turco. Das línguas daqui nem sequer o guarani, que é falado em três municípios do Rio de Janeiro, fará parte do evento.
Se o papa não reza em guarani não é por falta de ave-maria. Basta que ele desça ao Arquivo Secreto do Vaticano - um bunker de concreto no subsolo perto da Capela Sistina com milhões de documentos em 43 quilômetros de prateleiras. Lá ele encontrará versões do pai-nosso em diversas línguas ameríndias, incluindo a Língua Geral de base tupi, que já foi a língua da catequese, além de catecismos, sermões, hinos e orações em guarani, idioma falado hoje em dez estados do Brasil, no Paraguai, na Argentina, na Bolívia e até mesmo no Uruguai, onde o Estado finge que não existe.
Por sua importância, por ser um ponto de união entre os países da América do Sul, o guarani foi declarado, em novembro de 2006, idioma oficial do Mercosul, "em igualdade de condições com o português e o espanhol". Tal decisão, aprovada na XXIII Reunião do Mercosul Cultural, obriga a tradução dos documentos para o Guarani, que dois anos antes já havia sido declarado idioma oficial alternativo da Província Argentina de Corrientes, sendo adotado depois, em 2010, como segunda língua oficial nos municípios de Tacuru e Paranhos, ambos em Mato Grosso do Sul.
Oré Ruba
Mesmo assim, os milhares de peregrinos vindos de todos os continentes, que serão distribuídos pelas paróquias do Rio, sairão do Brasil sem saber que visitaram um país diverso e multilíngue, porque a operação logística montada pela organização da JMJ, que contempla tradutores e aplicativos de tradução sonora com ajuda de smartphones para comunicação em línguas estrangeiras, deixou de fora as línguas nacionais. É nessa hora que a gente sente saudades do Policarpo Quaresma.
A tradução de orações para línguas indígenas tem uma história complicada. Por isso, se o papa Francisco, que é da Argentina onde se fala guarani, fosse rezar nessa língua, teria que evitar as primeiras versões do pai-nosso feitas por alguns de seus confrades que cometeram erros quase "folclóricos". Pai-nosso, por exemplo, foi traduzido como oré ruba, o que obrigou os índios a excluir do seu convívio a figura de um Deus Pai, cuja paternidade era questionável, e de um Deus Filho para sempre incompreendido. Tanto o oré como o ruba são inadequados - dizem os especialistas.
Oré, efetivamente, é nosso. Mas ali onde a língua portuguesa tem apenas uma forma para o possessivo, o tupi antigo possui duas: quando o 'nosso' inclui a pessoa com quem estou falando, tenho que usar iandé ou nhandé. Já quando excluo o interlocutor, uso oré. O tupi parece mais adequado a um discurso de transparência. No caso, por exemplo, das emendas orçamentárias, na hora de pedir verba seus autores usariam o inclusivo nhandé: a verba pública é nossa (minha e tua). Mas na hora de aplicá-la e embolsá-la, seriam obrigados a usar o exclusivo oré, pois o nosso aqui é o do Mateus: primeiro o meu, depois os teus.
Usar o oré no pai-nosso não permite que quem reza junto compartilhe o mesmo pai. Se o papa rezar em guarani dessa forma, estará dizendo aos índios "pai nosso que não é de vocês", o que pensando bem talvez seja o mais correto, afinal o tradutor pode ter escrito certo por linhas tortas. A voracidade com a qual o agronegócio abocanha as terras indígenas com a cumplicidade do poder político permite que os índios duvidem se compartilham o mesmo pai com a senadora Kátia Abreu, católica fervorosa.
Anga e Ceiuci
Além disso, quando na Oração do Senhor o papa chamar pai de ruba, a confusão vai aumentar, porque a estrutura de parentesco tupi obedece a princípios diferentes dos nossos, como esclarece o padre Lemos Barbosa em seu Curso de Tupi Antigo, oferecido na PUC/RJ nos anos 1950. Ele diz que ruba ou uba não tem correspondente preciso em português, porque denomina tanto opai como o irmão do pai, da mesma forma que filho não tem equivalente em tupi, pois ayra ou rayra significa também filho do irmão, ou seja sobrinho paterno.
Quando se trata do filho de Deus, então, a questão se complica ainda mais, por envolver valores morais, tabus e preconceitos. Posto que a palavra rayra ou ayra significa também sêmen, ela foi omitida na tradução de ‘imagem do filho de Deus’, substituída por "Tupã tay raangaba",segundo avaliação de Teodoro Sampaio (1885-1937), um engenheiro baiano, filho de uma escrava, que estudou a toponímia tupi na geografia nacional.
Por não conseguirem transferir toda a carga de significados de uma cultura a outra, reduziram e deformaram a diversidade cultural e ambiental. O papa Francisco teria dificuldades com a tradução de palavras como alma (anga), céu (ybaka), yasy (lua), ara (dia ou tempo), mano (morrer), etc, como observa o padre Lemos:
"Os dicionários podem dizer que anga significa alma. Mas o conceito de alma é diferente do de anga, tanto em compreensão como em extensão. Nós atribuímos à alma características (por exemplo, a imaterialidade) que não cabem no conceito indígena de anga. Por outro lado, um índio animista falará na anga do vento".
Como guardar o sentido da palavra deputado numa língua indígena? Couto de Magalhães usou "homens de governo da nossa pátria" ao traduzir para o Nheengatu a certidão de batismo do neto de Dom Pedro II. Mas discordou do termo "fada indígena", usado para designar a figura lendária de Ceiuci - uma velha gulosa que vivia perseguida por eterna fome - na narrativa coletada no Tocantins, em 1865, com um tuxaua Anambé. Para ele, também a versão do pai-nosso que circulava na Amazônia era uma fada tupi, isto é, um monte de palavras desconexas que não expressavam o seu significado original.
O papa perderá uma boa oportunidade de fazer um gesto simbólico e de celebrar o guarani, reconhecido e valorizado quando usado em outros espaços sociais. Afinal, como diz um jesuíta amigo dos índios, Bartomeu Meliá, “también la historia de América es la historia de sus lenguas, que tenemos que lamentar cuando ya muertas, que tenemos que visitar y cuidar cuando enfermas, que podemos celebrar con alegres cantos de vida cuando son habladas”.   
Mas diante de tantas dificuldades, talvez seja melhor mesmo, pelo menos para os índios, que o Papa não reze em guarani. Bem ali, ao lado da aldeia Maracanã onde funcionou o antigo Museu do Índio, na paróquia do Divino Espírito Santo, peregrinos chineses rezarão em mandarim e cantonês. Longe dali, distante da Jornada Mundial da Juventude,os jovens guarani, abençoados por Nhanderu, cantarão seus cânticos sagrados tradicionais dentro da Opy, em suas aldeias.
P.S. A ilustração do nosso parceirinho Fernando Assaz Atroz