22 de fevereiro de 2015

Portuguesa eleita vice-reitora da Universidade de Sorbonne


Aos 38 anos, Isabelle Oliveira, professora e investigadora luso-francesa, acaba de tomar posse como vice-reitora da Universidade de Sorbonne, em Paris. É a primeira vez que uma académica que tem nacionalidade portuguesa chega à direção de uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do mundo.

Numa academia que mantém algum "conservadorismo", a professora catedrática reconhece que o feito não é assim tão comum para quem 'vem de fora'. "Sempre fiz questão que soubessem que também tenho nacionalidade portuguesa. Sempre prezei ser 'Oliveira' e não 'Olivier'. Para mim não é um handicap, porque na Sorbonne sabem que toda a minha formação é francesa. Caso contrário, não sei se teria chegado a este cargo. Até agora, os lugares de grande chefia têm sido ocupados por franceses de 'gema', com nomes bem franceses", conta Isabelle Oliveira, nascida em Negreiros, freguesia do concelho de Barcelos.

A permanência em Portugal foi curta. Ainda bebé, emigrou com os pais para Franche-Comté, junto à fronteira com a Suíça. E o contacto com o português foi posto de lado. Em casa, era em francês que se falava porque os pais entendiam que era mais importante dominar bem o idioma utilizado na escola. A oferta de português era inexistente na região e o espanhol e inglês acabaram por ser as línguas aprendidas por Isabelle Oliveira. "Foi só quando cheguei à universidade que comecei a aprender", recorda agora num português fluente com sotaque francês. Os romances de Eça de Queirós foram uma ajuda preciosa. Mas foi o ano de Erasmus que fez em Portugal - "quis ir ao encontro das minhas raízes", explica - que foi decisivo.

Em 1999, concluiu a licenciatura em Ciências da Linguagem e do Conhecimento na Universidade de Lyon, com média de 17,8 valores. Em 2006, acrescentou outro curso ao currículo: Direito, em Coimbra, feito à distância. "Sempre foi uma paixão que tive."

Da licenciatura passou ao doutoramento e ao pós-doutoramento no laboratório Modelos Matemáticos, Neuropsicológicos e Informáticos. Cérebro, linguagem e perceção, do Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS). É aí que continua a investigar e a relacionar todos os conhecimentos que sempre lhe interessaram: das ciências exatas, área em que fez todo o ensino secundário, à linguística. E é com o mesmo à vontade que fala de algoritmos e programação como de metáforas e semântica. "As línguas têm muito de lógica", assegura.

A criação de um software de deteção automática de metáforas para a língua francesa e portuguesa e de um "Atlas Semântico" são dois dos projetos que lançou e em que continua envolvida. "O objetivo é criar um mapa conceptual que é mais rico do que um simples dicionário de sinónimos. É como um mapa que se visualiza e que tem várias constelações: no meio de cada uma está um termo. E a partir dele vemos os diferentes traços conceptuais que lhe estão associados. Já concluímos que em determinadas áreas do saber, o português é muito mais rico conceptualmente do que o francês", explica a até agora diretora da Faculdade de Langues Etrangères Appliquées, da Universidade Sorbonne Nouvelle. Foi eleita para o cargo em 2011, com 97% dos votos: "Venceu a latinidade contra a outra lista que era constituída pelos colegas mais anglicistas", afirma com orgulho.

Contra o "imperialismo" soft do inglês
Agora à frente da Sorbonne como vice-reitora, a projeção torna-se maior - a direção é ouvida de forma regular pelos governos na definição das políticas de educação e investigação - e os desafios ganham dimensão. Logo à partida porque vai ficar a coordenar o projeto "Paris Sorbonne Cité", que junta numa superstrutura oito das mais prestigiadas universidades e cinco centros de investigação daquela região, num total de 120 mil alunos e um orçamento para 2016 de €7,7 milhões.

O objetivo é assumido por todos: ganhar dimensão e saltar para o topo dos rankings internacionais, em particular o de Xangai, que são dominados por instituições norte-americanas e inglesas, com as asiáticas ainda à distância, mas a subirem.

"Já sabemos que só por via do critério do número de alunos vamos ficar em 43º lugar nesse ranking. E se duplicarmos ultrapassamos Harvard. Claro que todos estes critérios são questionáveis. As ciências sociais e as humanidades nem sequer são tidas em conta nesse famoso ranking, deixando as faculdades de Sorbonne de fora. Ao apresentarmo-nos em conjunto ganhamos projeção", explica Isabelle Oliveira.

Mas o que Sorbonne está disposta a fazer para entrar neste campeonato cada vez mais competitivo tem limites, salvaguarda a professora. A qualidade é para reforçar e o francês como língua de ensino e de investigação para manter, mesmo que isso custe à universidade perder pontos no critério da publicação em revistas científicas.

"Já nem digo que promover o francês é o nosso objetivo número um, mas pelo menos a diversidade linguística e cultural e pôr um travão no globish" - uma forma simplificada de comunicar em inglês com recurso a um vocabulário de 1500 palavras. "Temos uma política de defesa da língua. Ensinamos em francês e publicamos em francês, sempre que possível. Pedimos imensa desculpa, mas não nos resignamos com o 'imperialismo soft da língua inglesa.'"

A decisão é assumida, aliás, de forma nacional. Em França e ao contrário do resto do mundo, não há software mas logiciel e a web é a toile, já que os anglicismos não entram no vocabulário.






http://expresso.sapo.pt/portuguesa-eleita-vice-reitora-da-universidade-de-sorbonne=f911867#ixzz3SVTpOaU9


13 de fevereiro de 2015

Notícia da Agência Lusa sobre o 109º aniversário de Agostinho da Silva


"O Estranhíssimo Colosso" é o título da primeira biografia sobre 
Agostinho da Silva, 
da autoria de António Cândido Franco, e vai ser apresentada 
sexta-feira, dia 13, 
quando passam 109 anos sobre o nascimento do filósofo, 
no Porto.
Para assinalar a data do nascimento do portuense Agostinho da Silva,
que defendeu a
Lusofonia e a criação de um passaporte lusófono, o escritor e professor
de Literatura Portuguesa 
na Universidade de Évora, António Cândido Franco, apresenta
"O Estranhíssimo Colosso", 
em Lisboa, na Livraria Bertrand Picoas Plaza, com o apoio da
Associação Agostinho da Silva.
Editada pela Quetzal, é "a primeira biografia que se faz sobre
este pensador português", disse 
hoje à Lusa Renato Epifânio, da Associação Agostinho da Silva,
especialista e investigador da
obra do filósofo.  Segundo Renato Epifânio, havia alguns períodos 
da vida de Agostinho da Silva 
que se podiam considerar "buracos negros", designadamente 
quando andou pelo Uruguai e 
pela Argentina, fases da vida do pensador português que dificultavam 
o trabalho aos biógrafos.
António Cândido Franco, que conheceu pessoalmente
Agostinho da Silva, debruçou-se 
"a fundo" sobre a biografia do filósofo, durante três anos.
As duas últimas frases da obra "O Estranhíssimo Colosso" são:
"Tenho os braços desfeitos. 
Escrever uma biografia de Agostinho da Silva é andar com
o mundo ao colo".
George Agostinho Baptista da Silva nasceu a 13 de fevereiro de 1906,
na travessa 
Barão de Nova Sintra, freguesia do Bonfim, no Porto, numa família
da pequena burguesia 
originária do sul do país. Frequentou Filologia Clássica na
Faculdade de Letras da 
Universidade do Porto e concluiu a licenciatura com 20 valores.
Morreu há 20 anos, com 88 anos, a 03 de abril de 1994, em Lisboa, 
no Hospital de São Francisco Xavier.
Professor particular de Mário Soares, na juventude do
ex-Presidente da República, 
visita assídua da casa do ex-ministro da Justiça Laborinho Lúcio,
admirado pelo ensaísta 
Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva foi "corrido do ensino",
em Portugal, 
em plena ditadura do Estado Novo, quando se negou a assinar
um documento 
de compromisso a não pertencer à maçonaria. Optou então
pelo exílio, na década de 1930, 
em Madrid, até à eclosão da Guerra Civil de Espanha e, depois,
na América do Sul, a partir 
de meados dos anos 40.
Agostinho da Silva viveu no Uruguai, em 1945, onde lecionou
História e Filosofia em escolas
livres de Montevideu, viveu também na Argentina, em 1946,
onde organizou os 
cursos de Pedagogia Moderna para a Escola de Estudos
Superiores de Buenos Aires e 
fixou-se no Rio de Janeiro, Brasil, entre 1948 e 1952, país
onde fundou várias universidades.
Liberdade era algo que o filósofo portuense entendia como
algo inerente ao próprio 
homem e, por isso, afirmava que a sociedade não tinha
mais nada que fazer se não 
"proporcionar as condições para que essa liberdade pudesse
ser exercida", disse à Lusa 
a responsável pelo Departamento de Filosofia da
 Faculdade de Letras da Universidade do 
Porto, Celeste Natário.
Para Agostinho da Silva, o trabalho não deve ser entendido
como algo que torna a nossa 
vida difícil, mas como algo que devemos fazer com prazer.
Há cerca de 50 anos, Agostinho da Silva falava dos meios
de comunicação e das novas 
tecnologias como uma forma positiva de libertar o homem
de trabalhos menos interessantes 
e esse trabalho passaria a ser feito pelas máquinas e os humanos
ficariam, sim, reservados 
a tudo o que tivesse a ver com a criatividade.
As civilizações clássicas foram uma fonte para Agostinho da Silva.
Defendeu uma tese sobre 
"Teixeira de Pascoaes", autor que foi uma referência no seu percurso.
Outro, que estudou e 
muito estimou, foi Fernando Pessoa, que chegou a conhecer em Lisboa.
A apresentação de "O Estranhíssimo Colosso" tem início
pelas 18:30, na Livraria Bertrand 
Picoas Plaza, em Lisboa, com o apoio da
Associação Agostinho da Silva.
Agência Lusa

Hoje é aniversário de Agostinho da Silva

Um homem da ação do pensamento, George Agostinho Baptista da Silva (Porto, 13 de Fevereiro de 1906 — Lisboa, 3 de Abril de 1994) foi um filósofo, poeta e ensaísta português. O seu pensamento combina elementos de panteísmo, milenarismo e ética da renúncia, afirmando a Liberdade como a mais importante qualidade do ser humano. Passou considerável tempo de sua vida no Brasil ajudando a formar Universidades e Centros de Estudos.

10 de fevereiro de 2015

A justiça há-de ser para nós amparo criador, consolação e aproveitamento das forças que andam desviadas; há-de ter por princípio e por fim o desejo de uma humanidade melhor; há-de ser forte e criadora; no seu grau mais alto não a distinguiremos do amor.

    Agostinho da Silva, Considerações "Pelos Vencidos"
 in Textos e Ensaios Filosóficos I, Âncora Editora, p. 112

1 de fevereiro de 2015

Adriano Moreira CPLP e plataforma continental são "janelas de liberdade"

23 de Janeiro de 2015 | Por 


O professor universitário Adriano Moreira apontou hoje a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a criação da plataforma continental como "as janelas de liberdade" que permitirão a Portugal ultrapassar a atual crise e afirmar-se internacionalmente.



"Portugal é com frequência um país exógeno, quer dizer, um país que sofre as consequências de decisões em que não participou, mas tem valores fundamentais que podem assegurar-lhe uma posição e intervenção responsável internacional, vencendo a crise que temos atravessado, designadamente através daquilo a que eu tenho chamado as janelas de liberdade portuguesas, que são, pelo menos, a CPLP e a plataforma continental", defendeu.

Adriano Moreira falava à Lusa no final de uma aula aberta na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, subordinada ao tema "Uma história de vida pelos Países de Língua Portuguesa -- os laços existentes", em que falou, de forma mais aprofundada, destas "janelas de liberdade portuguesas".
Sobre a CPLP, o professor e analista político salientou que Portugal "é o único titular de um império dissolvido pelas armas que tem uma organização à qual pertencem todas as ex-colónias", mas não escondeu que existem nessa organização "alguns problemas", alguns obstáculos a superar, como é o caso da entrada da Guiné Equatorial, "um país que tem a pena de morte e que fala espanhol, não português", e que interessa por causa do petróleo.
Referiu, a propósito, "a ideia do Brasil para a CPLP", que inclui a adesão de "Indonésia, União Indiana, Ceilão e Nigéria".
"Ora, isto é uma associação de petróleo, não é uma associação de língua portuguesa", comentou.
Outro problema com que Portugal se confronta é "a insegurança do Atlântico-Sul - pirataria, tráfico de drogas" -, para o qual a solução deveria ser a criação de uma organização de segurança à semelhança da NATO.
"Mas, na minha visão, não se pode tratar de uma extensão da NATO, porque a cultura do Atlântico-Norte é toda ocidental e a do Atlântico-Sul não é", frisou.
"Os países da CPLP são todos marítimos, são todos pobres e nenhum tem frota marítima. Porque é que não há uma frota da CPLP?", interrogou-se.
Quanto à plataforma continental de Portugal, "que será uma das maiores do mundo", o professor de Relações Internacionais indicou existirem igualmente obstáculos a ultrapassar, já que embora "a base seja de soberania portuguesa, ela tem de ser reconhecida pelas Nações Unidas", um reconhecimento que tarda.
"Primeiro, era em 2013, depois passou para 2015, e agora foi adiado outra vez", lamentou.
Outro dos obstáculos à criação da plataforma continental portuguesa foi, considerou, a atuação do então "presidente cessante da Comissão Europeia", José Manuel Durão Barroso, que Adriano Moreira criticou, na altura, diretamente.
Por ocasião da atribuição a Durão Barroso de um doutoramento honoris causa na Universidade Técnica de Lisboa, o académico disse-lhe: "O senhor anda a querer fazer o mar europeu, já o propôs. Se o senhor faz o mar europeu antes de nós termos a plataforma portuguesa, eu começo a pensar em 1890, mapa cor-de-rosa e ultimato, e estou a ver a Estónia, a Letónia e a Lituânia a esfregar as mãos e a dizer 'Ai, que bom, isso também é nosso'".
Apesar das dificuldades existentes, se se apostar na CPLP e na plataforma continental e se for "ultrapassada esta crise que estamos a atravessar, eu acho que vai reservar a Portugal uma importância que resulta desta circunstância em que insisto: é que o poder da palavra muitas vezes vence a palavra do poder", disse Adriano Moreira à Lusa.
"E, portanto, nós podemos utilizar o progresso científico e técnico e a nossa capacidade para que a nossa palavra seja ouvida e para que a vida previsível, a vida vivível, feliz, com esperança, possa ser restabelecida", concluiu.

29 de janeiro de 2015

O grande jogo, por Artur Alonso Novelhe


Pela força de atração e repulsão
surge a dúvida no mundo.
No combate ao indiferente eu achei certa aquela voz
que habita no meu deserto.
O profeta proferindo:
“Amar-vos uns dentro dos outros”
Mas o clérigo predicou, prevaricando :
“Olho em seus olhos, dente em seus dentes
deveis vingar: é tempo de derrubar o templo”
Respiramos longamente, para no espelho assassinar
aquele que nos mostra a nós mesmos
Tínhamos uma vida anímica
e na arte filantrópica, altruísmo
para logo nos mostrar, a eles, também superiores….
(fora um tempo colonial
na noite ainda melancólico)
Houve uma bomba – mortes dentro do ocidental jornal, e
milheiros de pessoas sua aversão a demonstrar
a aqueles que foram maus filhos
… Soldado: soldado algum dia tu serás
para remover com teus ossos
as cinzas que tardam em maturar
milênios no Meio do Oriente…
O ódio adensa-se,
no sangue o desejo ainda flui
animicamente empregando
por algum tempo
propósitos bem maléficos…
Aquele lume purifica
na guerra que alguém quer procriar
se joga o controlo do mundo…
Nós, os outros, olhamos paralisados
enquanto o tirânico Oráculo
revestido de poder Mundial
se mostra precavido…
(o Deus Mercado não sabe em quem confiar
agora que a Rússia de novo tenta desafiar
com Beijing espreitando na porta do inicio)
Acomodem passageiros,
segurem bem o cinto
Decolamos, hoje, bem cedo,
para manobras realizar, ocultas sobre o abismo!

22 de janeiro de 2015

Terror em nome do Islão, quem prova que não?


Do diálogo cínico entre representantes islâmicos e democratas
António Justo
Tornou-se num lugar-comum, representantes de instituições islâmicas, em situações semelhantes às dos atentados de Paris, se desculparem dizendo, tratar-se de um atentado contra o islão, ou ainda, que “eles não são muçulmanos!”. Seria incorrecto a Instituição islâmica julgar-se vítima, quando em seu nome e também através de estados islâmicos se espalha o terror por todo o mundo. (Não falo aqui da responsabilidade do Ocidente, atendendo ao espaço e já ter tratado o tema noutros artigos).
É verdade que não se pode taxar um grupo inteiro de culpado do que acontece em seu nome. Uma “desculpa de mau pagador” para sacudir a água do próprio capote, perante desinformados. Seria negador da realidade e testemunho de hipocrisia negar que a “guerra santa” (Jihad) e os atentados têm a ver com o Islão.
Torna-se urgente um diálogo sério que ajude muçulmanos e não muçulmanos. Os muçulmanos moderados, para se tornarem verdadeiramente credíveis, têm que demonstrar que os extremistas invocam, injustamente, as suras do Corão para justificarem a sua luta. O Encargo de prova recai sobre as associações muçulmanas. Os eruditos e responsáveis do islão teriam de dizer publicamente que o Corão não é para ser seguido à letra e as suras não são válidas universalmente. Aqui se encontra o busílis da questão porque nenhum mestre ou mufti se atreve a afirmar tal, dado entenderem as suras do Corão como directamente ditadas por Deus (no Corão nota-se que Alá mudou de opinião aquando da mudança de Maomé de Meca para Medina – isto poderia servir de motivo para os peritos muçulmanos permitirem a análise histórico-crítica praticada nas ciências teológicas).
Por isso se tornam difíceis declarações públicas por parte de muçulmanos e se dificulta um diálogo onde os intervenientes, se comportam como o gato, a fazer batota em torno do leite quente! A gentileza junta-se à falta de honestidade intelectual ao distrair os públicos com aspectos mais ou menos moralistas ou de conveniências e vivências sociais, em vez de ir ao problema de fundo que se encontra nos princípios doutrinários imanentes ao sistema e aqui só em segunda mão na situação social injusta em que, por vezes, vivem. (1)
Os teóricos islâmicos têm de demonstrar, nos países para onde imigraram, como é que o Islão é compatível com as formas de democracia com separação de estado e religião, e com os direitos humanos. Este seria o primeiro passo ao serviço da integração e de um diálogo sério entre islão e democracia. Um tal diálogo ajudá-los-ia a dar o passo para a reforma do islão. (E porque não até, desenvolvendo uma outra forma de democracia?).Seria um atestado de pobreza se o viessem a fazer apenas a partir das universidades europeias, obrigadas a fundar faculdades islâmicas para formarem os professores de religião islâmica nas suas escolas.
No Corão há muitos versos onde se apela à violência contra “Kuffar” (não muçulmanos = indignos de vida, também apelidados de porcos e macacos, cf. sura 8,22 e sura 5,59-60). “A paz islâmica só se alcança, quando todos os cristãos, Judeus e pagãos forem extirpados” (Corão, sura 9,33…). Na Alemanha tem sido proibida a publicação do livro “Minha Luta” de Hitler, o Corão, em contrapartida tem sido distribuído aos milhares pelas cidades alemãs. Nem se exigem notas explicativas para versos apeladores à violência, como se queria exigir em relação a “Minha Luta” caso fosse publicada.
Não sou defensor da proibição de livro nenhum, só me horroriza o cinismo de uma sociedade que actua com dois pesos e duas medidas e como é fácil levar o povo, ontem como hoje. Hitler que defendia a superioridade da raça germana e o extermínio dos judeus é proibido, o Corão que considera a religião muçulmana como única e apela ao extermínio dos diferentes, não é questionado. Não é de negar que em “Minha Luta” e no Corão se encontram também muitas frases humanas e muitas contradições que ajudam quem luta. Da neblina e da confusão só podem viver melhor os mais espertos. (2)
Segundo historiadores, as religiões, geralmente, não estão na origem das guerras. A origem encontra-se em desigualdades econômicas na sociedade. As religiões actuam como aceleradoras porque implicam maior comprometimento ao dar mais importância à acção.
Continua em “Primeiro a dignidade humana depois a instituição”
António da Cunha Duarte Justo
Jornalista
(1)     Não, quando na qualidade de representante dos estrangeiros da cidade de minha residência lutava pelos direitos dos turcos e dos estrangeiros, pude observar, num espaço de 15 anos, uma grande mudança de atitude na sociedade muçulmana, antes muito pacífica e as mulheres com menos lenços na cabeça, embora vivendo em gueto. Com o tempo tornou-se mais agressiva, à medida que via surgir dela gente formada na universidade. A partir de então organizavam-se sobretudo na defesa dos próprios interesses, entendendo solidariedade no sentido muçulmano. Um facto é que de mais de cem nacionalidades (e muitas religiões) a viver na cidade quem não aceitava integrar-se eram os muçulmanos. Alguém dirá mas também a raça cigana não se integra; facto é que não se afirma na definição contra a sociedade que os acolhe e permanecem uma minoria em qualquer vila ou cidade. Naturalmente a sociedade aberta deve também ela aguentar uma certa tensão. O problema surge quando falta a solidariedade social e se legitima a luta como maneira de se fazer valer e uma sociedade maioritária discrimina. Se não houver um esclarecimento e empenho no sentido da integração então as nações tornar-se-ão mais cépticas quanto à recepção de muçulmanos. Aqui não está em discussão a questão da sociedade ocidental mas apenas a relação entre dois modelos de sociedade vigentes.
(2)     Digo isto porque sou amigo dos muçulmanos e crítico do Corão e dos Hadhit (Hadiz) e gostaria de um diálogo em que a pessoa humana seja respeitada e defendida, pense ela o que pensar, mas que se olhe com espírito crítico para as instituições que alinham as pessoas em torno de si para fins fomentadoras de domínio e imperialismos à custa da humanidade. O Islão só ganhará com uma reforma profunda.