13 de janeiro de 2016

“No nada”, por Lúcia Helena Alves de Sá

oleoentaboa



Sentado no centro do mundo está Deus com cara de cão em desencanto com o ser-do-homem que se faz boludo, diábolo da pedra do reino e de avalovaras sem tons e veredas
Lúcia Helena Alves de Sá Com o compasso e a rosa, espia o ventre da terra, risca o céu um furor de relâmpagos. O regresso ao princípio negador de o Nada existencial (do qual o Tudo existencial aflora e vige) vigora na contemporaneidade a mover-se no nada, em caos absoluto. Não há mais gênios nem mesmo os marginais que possam transgredir e superar a tudo o que há de negativo no mundo. Perdeu-se a racionalidade (razão) e o homem de hoje atingiu apenas a intelectualidade (intelecto). Estamos na diáspora de nós mesmos, destituídos de Autos: o espaço do Sagrado e de Chronos em que se exercitam as noúres (em grego, espírito ou verbo).
Perdidos, partidos e até olvidados da co-presença da consciência de Deus — aquele primeiro pensamento que pensa e que só se manifesta em vivência ética social — não exaltamos a nossa subjetividade na qual o sujeito íntimo, que é Aquele que nos provê, expirou: é nada. Estamos no nada, o que mais afronta a dignidade humana, pois somos apenas objetos abjetos, enquanto deveríamos ser uma racionalidade entre outras tantas que têm vida própria e uma aspiração de transcendência, somos tão somente a porção mais vil do caos ao absurdo de um drama humano de tal forma que não há visão a partir de lugar nenhum para uma admissão em que o homem deixe que brote de si tudo quanto é de possibilidade divina ao mesmo tempo em que não perca nada da sua humanidade, do Espírito Livre, Santo, estado em que o homem adquire a consciência crística que já deveria estar a governar vidas de crentes e ateus de todos os povos.
O que nos deveria interessar não é senão a edificação de nós mesmos: a catábase que exbrange sentimento, conhecimento e experiência em comum com o “outro”, tendo com ele proximidade de tal forma que expresse o fenômeno do duplo na medida em que se torna um “ator” por meio do qual o “outro” se manifesta. Na condição de ator, o sujeito pertence ao mundo do evocado, sendo capaz de observar e criticar o “eu” e de exercer influência sobre ele.
Se i-dentidade e di-ferença compõem a vizinhança da mesmidade poético-filosófica do novo mundo que queremos instaurar, cada um de nós tem de dizer o Ser poeta que somos e como poetas nomearmos o Sagrado perdido. Temos de ser autores de uma nova linguagem que mostre o Ser em sua relação com o mundo e, por conseguinte, estabeleça a possibilidade de articulação de sentidos seja com o mítico, o poético, o filosófico, até mesmo com a existência mesma de o Nada que é o Tudo. A bem da verdade, tal linguagem constitui-se em um afluxo do dizer sempre em jogo cuja essência é a ação de fundamentar, concentrar Deus (o Da Seinno homem) para a experiência humana, para a ek-sistência.
Eis a nossa catábase a destituir o diabólico da diáspora de o Nada, pois que o fazer do homem é vislumbrar a di-ferença ontológica entre o Ser e o ente, di-ferença que comunga uma unidade interioridade/exterioridade em estado de nascimento, de contínua recriação e retificação. Uma dialética do possível que busca a coerência de (co)presença especificada sob o signo da complementariedade que se dispõe na continuidade da conciliação dos contrários. Quer dizer, toda atitude humana tem de se apropriar da linguagem que expressa a experiência do acontecimento que instaura, no desígnio do dizer, a ressonância de que Deus é o único sentido oculto das coisas e do homem que têm existências por que Ele é. A significação delas é Deus.
A linguagem humana e as atitudes do homem no espaço que o cerca estabelecem, assim, a intimidade do universo relacional existente entre Deus, as coisas e o homem, celebrando aconjunção dos contrários projetados no curso dinâmico do “é” de Deus que, parecendo igual, nunca se imita a si mesmo. Esta determinação de que Deus “é” só se torna compreensível devido à língua portuguesa, a única capaz de bem distinguir a di-ferença ontológica entre ser eestar. O verbo ser, indicativo de perenidade e infinitude, pertence eternamente a Deus. Tudo o mais aí está em duração finita. A língua portuguesa permite que seja dito que a essência/substância de Deus é a sua eternidade. Se Deus é eterno, então, a Sua áurea — Graça— está nos eventos reais, na concretude finita da vida infinitamente do mínimo minimorum de uma partícula à complexidade dos seres humanos.
O dizer de uma nova linguagem está envolto pelo encantamento das presentidades várias e divergentes que é o poema-Deus-poeta. Compreende não um real aparente, porém, uma realidade existente ou de uma aparência que fosse aparição da realidade, mas não a aparência a que à realidade se opõe. Deus aparece em uma interdependência dialética ma(i)s viva que àquela que se assenta longe da normalidade que reifica o homem e que se expressa avessa ao mundo despotencializado, construído e dominado pela lógica do pensamento calculador ou pensares costumeiros. Nossa nova linguagem é eivada e indicativa do inexprimível da própria coisa evocada. Assim sendo, deve tender a mostrar a realização daalethopoíesis do ethos de Deus e de Deus no homem que jamais é redutível a uma formalização reiterável visto que é transbordante de transdescendências e aparências.
Deus, força inquebrantável cujo Espírito que é Santo coordena e dá ek-sistentia ao universo e ao ser do homem, só adquire conteúdo teórico na aproximação excessivamente intelectualizada ou na proximidade lúdica de uma razão que sonha o Inominável sendo tempo algum e todos os tempos. Mesmo exaurindo todas as possibilidades racionais, esquadrinhando imagens e enovelando palavras, Deus sempre escapa à compreensão definitiva. É uma instantaneidade eterna.
Em torno do significado de Deus se estabeleceram atribuições genéricas que só adquiriram entendimento quando expressas sob particularidades filosóficas. Logo, pôde ser captado como sendo o princípio que possibilita a existência do mundo e do ser de todo ente, bem como a fonte de tudo o que há de excelente no mundo, sobretudo, o que diz respeito ao mundo do homem. Entretanto, essas qualificações distinguiram entre si outras concepções específicas de Deus. Ou seja, quando posto em referência ao mundo, Ele é a causa de sua existência; em relação com a ordem moral, é o bem; pensado em relação a si mesmo, é Ele aGraça — centro abstrato, ponto fixo de energia que é, em simultâneo, ideal/pensado e real/existente — está primeiramente senão no pessoal e continuamente em todo o universo. Importa dizer que isto trata da realização autêntica da alethopoíesis, ou seja, uma propensão para alargar os horizontes da compreensão do ser e, por via de consequência, da elucidação do Incognoscível e, por via de consequência, da percepção do mundo.
É na conversabilidade segura com as pessoas, na vivência prática, ativa, observadora de costumes e de gente, em torno da concretude real das coisas, que a Graça se manifesta, pois ela é o cuidado ético da dimensão ontológica e espiritual do homem, mas também, antropológica na medida em que zela pelo ser social, pelo hábito da cooperação e da tolerância, pela derrubada de atos humilhantes e preconceituosos, gerando a convivência em vez de isolamento de caverna. A Graça somente se faz sentida se nos dispusermos a agir sob uma ética pessoal e social de saber orar, amar e servir. Orar que tem sentido não apenas reflexivo, mas, sobretudo, é um agir pragmático de maneira que se demonstre simplicidade nas atitudes e desprezo pelo prestígio social. Saber amar é respeitar o próximo, não cerceando a liberdade alheia; as relações do amor partilhado indiferentemente a todos os indivíduos conformam o ecumenismo em que todos os credos, crenças, metafísicas e místicas estejam juntas de modo a amenizar ao máximo a barbaria da violência das incompreensões. Saber servir impõe aos homens um processo concreto de sociabilidade cooperante e libertadora.
Por um lado, a partir do entendimento de que a Graça nos habita, todos os outros pensares fluirão naturalmente como: (1) a acepção do “ser” do homem como aquele que está no mundo, habitando-o, porque é ser-da-terra e dele partindo as diferentes experiências; como sendo, a um só tempo, compreendido entre o ser fatal e livre; como sendo aquele que reconhece em si mesmo potencialidades que o torne transformado, porém, sendo fiel a si próprio; e como o que aceita os dinamismos da vida em seus compassos contrários, mas complementares; (2) a felicidade não está no desejo de consumir ou no ato de ter coisas, dominar pessoas ou possuir bichos, visto que ela é interior ao ser; (3) a esperança da humanidade reinstaura-se no Espírito Santo, pois não é encontradiço e não é inacessível; (4) a criança reformará as estruturas corrompidas da polis. Por outro, a compreensão da Graça em nós promoverá a justeza de ações que ocorrerão de modo correspondente à promoção da solidariedade comunitária na experiência da realidade da vida cotidiana, o que inclui (A) os princípios de liberdade, equidade e os paradoxos da igualdade propalados no culto à realeza do Espírito; (B) o fazer da pedagogia conversável sob os pilares da lucidez e da ludicidade; (C) o reconhecimento de valores materiais que deem a todas as gentes trabalho, moradia e saúde, enfim, dignidade para o bem viver; (D) o redimensionamento dos processos técnicos elaborados para a maior produção de alimentos ou outros bens de consumo basilares.
É fato que os pobres estão ainda mais miseráveis, carecem da quantia mínima de capital para sobreviver e, portanto, precisam de um pacto humanitário dos países ricos que realmente efetive um esforço combinado para acabar com a fome, a miséria e migrações em massa, porque são a pobreza e a guerra os maiores fatores de risco de nossa contemporaneidade que oblitera a liberdade dos homens como a iliteracia, a violência, o terrorismo, o crime organizado e a corrupção; a concentração da riqueza sob o controle de uma minoria presa ao luxo e ao supérfluo; e o desequilíbrio ecológico. Tudo são mostras do descompasso econômico do mercado global e da insustentabilidade do modelo capitalista cada vez menos democrático, de totalitarismos e de fundamentalismos religiosos. Estamos neste no nada da existência e da convivenciabilidade fraterna.
Será inevitável que uma nova economia surja, criando outro habitus social e situações políticas completamente novas. Quiçá seja a reforma econômica da sociedade o sistema de cooperativas e dele se afaste todo tipo de subordinação a qualquer de seus membros cooperados que implica o servir cujo significado concreto, efetivo, está nos atos de solidariedade, participação e doação. O desenvolvimento técnico e o aperfeiçoamento dos instrumentos de produção devem ser feitos em benefício de maior bem estar do homem que, pelo seu aspecto externo, significa ter maior conforto, mas pelo seu aspecto interno, maior aperfeiçoamento pessoal. Isso tudo se torna uma esperança justificada para as gentes dos povos menos favorecidas, vítimas involuntárias da injustiça de homens.
A vida deixou de ser gratuita; há escravos e funcionários que sustentam o capitalismo de concorrência que, por desgraça de nada fazermos, passou para o capitalismo de opressão em que os homens, já afirmara Agostinho da Silva, são considerados como feitos para produzir dinheiro, o qual serve, por sua vez, para produzir dinheiro para produzir todas as mazelas e caricaturas humanas. Nem tempo há para pensar em rosalías. Isto é o nosso triste fadário: sem universo animado em cujo presente o passado deveria ser renovado. Estamos na diáspora da poesia que permite que todo poeta percorra tempo e espaço e esteja livre para projetar-se ao futuro.
A diáspora de nós mesmos está na perda de uma espécie de estado de perfeita liberdade e inocência partilhada de felicidade; de vida ordenada por uma comunhão entre a natureza e o homem. Isto é o “no nada”: a corrupção dos costumes e a existência que deixou de ser beatífica para ser encoberta pela vulgaridade do cotidiano institucionalizado. Assim me parece que toda e qualquer imagem poética e uma ideia filosófica — nos espelhos de palavras — não são mais projeções de um mesmo projeto humano quanto à impreterível concretização de uma nova governança mundial, haja vista que é necessário que todos os homens se sintam não apenas irmãos, mas que se sintam unos uns com os outros.
Neste “no nada” em que nos inserimos, a cultura está decadente e difusa, não sabe definir suas linhas de rumo: liberdade, comunitarismo econômico, justiça e paz. Essa falta de rumo se estende a toda sociedade atual que está em vias de um colapso econômico-financeiro que atingirá, evidentemente, os mais necessitados. Em uma capacidade diagnóstica de perceber que em todos os quadrantes toda gente de diferentes povos vive em nevoeiros, sob os enganos do imenso “império” da nova globalização, é inconteste que está ocorrendo a perda da humanidade espiritualizada (império perdido). Quando isso acontece, perde-se, de maneira inevitável, histórias de vida (passado esquecido). Desventuradamente, privamo-nos de futuro que se torna, então, inconcebido. Todo futuro depende e reclama de saberes, memória, crenças, símbolos, valores, mitos indispensáveis às nossas aprendizagens na vida, nas experiências sociais e à constituição de um mundo sempre em renovação.
Creio que o tempo é marcado por um gesto profético no qual a verdade revela-se na História. Uma História que não valoriza o futuro (por não haver nada concreto que o defina) e nem passado (por não ser glorioso). Talvez, por isso, o futuro nunca seja concebido para libertar o homem das pressões físicas e prisões mentais a não ser por uma das revoluções fundamentais da humanidade: a conectividade da teia da vida dentro da ciência do real: a Ecologia sob o âmbito da Física Quântica e da Teologia. Seria, então, imaginável que todas as gentes pudessem reconhecer a sua pertença à vida, demandando liames de confraternização para refundar vínculos sociais. Nesse sentido, Agostinho da Silva traz uma mensagem política ou de uma política de vida, logo, revolucionada e atenta a mudanças de paradigmas. Contudo, há um desinteresse de outras tantas gentes de entender que a vida tem seus jeitos para revelar planos a cumprir, visto que foram moldadas no e para “o nada”: época mecanizada que exerce poder sobre o homem, fundamentalmente, poder decisivo sobre o habitus de toda gente ao mesmo tempo em que o niilismo está presente, uma maneira de renegar as verdades morais e as hierarquias de valores. Deus está morto, logo, matamos Deus em nós. Matamo-nos. Somos destituídos, em simultâneo, do Dasein (ser do ente/o ser-aí) e do Da-sein (o ser-lá/Ser).
Estou a apontar para o problema filosófico da dissolução da i-dentidade e fragmentação ou dissolução do ser. Um ser sem passado, sem presente, que é representado por gentes envolvidas pelo niilismo, certo aniquilamento, espírito destrutivo de si e do mundo. Estão desenraizadas da vida e de vida, deslumbradas pela ilusão da transmissão cultural em que tudo é frenética e exteriormente oferecido acriticamente e quando há críticas, morrem cidadãos. Não se pode mais reconhecer nessa gente um indivíduo-sujeito. É toda gente homogeneizada pelos gostos e vícios dos consumos modernos, bem como esquecida de suas tradições, tornadas névoas, pois deixou desaparecer de si a sua natureza de Home complex, desencorajados de planos a cumprir. Constato ser isso um apelo à precisão de uma mudança ontológica para mudar a face da ecúmena: a vida de toda gente só será bem vivida se não se furtar à experiência alguma e tendo como experiência máxima a apreciação da vontade de todos os homens de todo o mundo para ser uma humanidade fraterna e viva. Isto é que vai decidir que tudo se renovará pela própria ação, particular e conjunta, de todas as gentes capazes de recriações animadas que enriqueçam o nosso patrimônio cultural com o qual podemos atingir algo sempre (de) novo: a comunhão do saber, o humanismo, o cuidado com o ser. É crucial tentar superar as estreitezas na qual nos cercamos a fim de que se estenda o amor socialmente enlaçado à humanidade inteira.
Vai assim o mundo dos homens entre branco e azul, verde e vermelho, na cruz dos braços, erguidas, morte ou infância saltam do tronco igual promessa e perdão. Deparo-me — enquanto a nave largada na nudez de o Nada, pois há revoltas de impérios e toda a ideia de Império por fazer — que passamos a ser sistematicamente fragmentados em nossa unidade, tornando-nos peças adaptáveis a todo tipo de modismos e sofisticações que podem até mesmo levar à insensibilidade diante das misérias: a do saber, a do servir, a do amar ou a do pensar, a do agir, a do ser sendo-no-mundo. É fato notório que são tantos os problemas e são tão perigosos os avanços que o homem fez, nesses últimos séculos, que quase não entende o que lhe está acontecendo e a vida vai tornando-se uma espécie de conflito de condutas e vocações existenciais que, em uma não menos evidente situação, decorre sob os hábitos do cosmopolitismo. A potência da mundialização da cultura de massa está, por exemplo, expressa nos modos de ser (opacos) e na moda (fútil) que regem comportamentos, apelam à imitação e às incitações publicitárias, muito próprias da lógica produção-consumo que desagrega e desvaloriza valores e adapta os que já estão adaptados e adapta os adaptáveis à economia-tecnológica.
Todo tipo de gente está entregue à única justificação da vida presente, desfrutar das realizações imediatas, da homogeneidade de costumes, descuidada em zelar por um novo Espírito do Tempo. O que me entristece o pensamento é saber que esses tempos modernos são de “aculturação” do homem, oriunda do poder industrial e do progresso da Técnica. Por isso, há apatia sociológica, uma substituição de uma aparente liberdade recuperada pela alienação e subjugação a um materialismo consumista e desumanizado. Sob um viés racional e intelectualmente de sentido político, devemos nos remeter a uma perspectiva ecossociológica que reivindica a não submissão à tirania ou a ditadores porque qualquer tipo de sujeição impede os cidadãos de pensar e ter iniciativa.
Lamenta-se o cerceamento da liberdade nos regimes de tirania que cultivam o obscurantismo e a pauperização de forças reivindicativas. A tirania opera uma equívoca beligerância que ofusca as relações sociais, suprime a riqueza ao povo e provoca a marginalidade das classes trabalhadoras e das minorias. Aos tiranos (em especial) falta o entendimento do que é a “coisa pública” que exige disciplina e coordenação social. Os tiranos, além de suprimirem a liberdade, parecem esquecidos de que devem gerir um bem comum e que ao povo deve ser respeitado o direito de pagamento em dia certo para prover suas necessidades que daria para isto ou aquilo, o que sobrasse, guardado. Diante dessa estupidez dos tiranos (corruptos de almas corruptíveis), a única solução é mesmo a revolução, mas esta feita pelo povo. A política não é o poder despótico, como o dos tiranos sobre os outros, mas deve ser um exercício de amor, de cuidar coletivamente da “coisa pública”.
Entretanto, começamos a ver que já há gente a problematizar a subserviência do povo aos “tiranos”, pois o jeito na circunstância é mesmo a revolução que não é culpa dos revolucionários, mas dos regimes e seus atos de violência que instigam manifestações de repúdio. A revolução deve ser feita em um processo coletivo que necessita da cooperação de todos (os povos) para dar cabo do medo, das armas, das repressões, das migrações, dos preconceitos, da fome e da miséria. Não basta eliminar aqueles que têm o poder político, mas, sim, abarcar a compreensão de que o problema está em como fazer uma nova sociedade e entender a complexidade imbricada nos problemas contemporâneos a fim de que se dissipem os antagonismos entre a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Fartei-me das vaidades dos tiranos.
Não digo nada mais a não ser “o Nada que é o Tudo” que a todos nos falta e uma crítica ao gosto ou juízo estético no habitus cotidiano de uma “gente” produzida artificiosamente e presa a uma época de reprodutibilidade técnica que obscurece o assentimento de que o destino dos homens é ser sempre mais que humano. Dito de outro modo, de destino humano dotado de simplicidade, humildade e de uma ética que encontre na ação cultural e na educativa o caminho mais ajustado a atividades politicamente aptas à transformação do homem em todas as suas possibilidades pessoais, intelectuais e racionais.

15 de agosto de 2015

A língua portuguesa e o século XXI

Convoquemos a todos para a montagem de um estratégia planetária para a língua portuguesa.

O século XXI começou desafiando a todos nós falantes da língua portuguesa. Está a nos exigir um protagonismo de grandes proporções. Hoje, há uma expressiva presença de nosso idioma em todos os continentes, presença que não para de crescer e tomar maiores dimensões planetárias.
Compomos um universo de falantes que supera o de línguas muito mais tradicionais no mundo da cultura e dos negócios. Somos mais falados do que o italiano e o alemão. O francês nos supera apenas quanto ao número de falantes não nativos. Juntos, estamos entre as cinco maiores economias do planeta.
A nossa língua está a nos exigir uma afirmação global, a nos cobrar uma responsabilidade para com ela. Impressiona-me que não tenhamos uma política comum a todos os países que falam o português. Quem há de negar que precisamos definir uma grande estratégia cultural de presença no mundo que abranja todo o nosso território linguístico?
Quem há de subestimar a importância da língua? É grande a sua dimensão social, política, econômica e geopolítica. Ela é muito mais que uma ferramenta de comunicação. Nela, não estão armazenados apenas conhecimentos e informações. A língua é a cultura que ela produz. É ela quem nos dá os sentidos. É o universo desenhado por ela que nos referencia e nos singulariza. A língua gera coesão, nos fortalece no mundo globalizado, “é a casa onde a gente mora”. Nela, se deposita know how, tecnologia. Língua também é economia.
Não subestimemos o assunto. Ele é sério. Estamos diante de uma questão de afirmação da qual não podemos nos furtar. Por meio de nossa cultura podemos afirmar uma visão de mundo, um modo de vida, projetos de civilização fundados em estratégias generosas e abrangentes. Estou convencido de que podemos ser portadores de uma mensagem planetária singular.
No mundo globalizado em que vivemos, nunca houve tantas trocas de ideias, de discurso, de palavras, entre todos os falantes de língua portuguesa - nunca houve tanto conhecimento e reconhecimento mútuo.
O português de Portugal, o português que emerge nos países africanos e a língua que é falada no Brasil formam um só idioma. Não tenho dúvidas que uma ortografia comum, como parte de uma maior interação cultural, nos dará a grandeza e dimensão que nossos artistas e escritores projetam.
É claro que precisamos de uma ortografia uniformizada. É insensato não crer na necessidade de um acordo ortográfico. Possíveis erros de condução não diminuem sua importância, e o que representa para o fortalecimento da língua no contexto global. A diversidade e a riqueza de um português que floresce em vários cantos do planeta, e que a enriquece, sem uma escrita comum podem vir a comprometer a sua unidade.
Precisamos dar novos passos para a consolidação de uma comunidade de língua portuguesa, compartilhar nosso universo cultural num grau e proporção ainda não experimentado. Precisamos fortalecer ações de colaboração e integração mútua rumo a uma maior projeção global.
Convoquemos a todos para a montagem de um estratégia planetária para a língua portuguesa. Convoquemos aqueles que com ela criam, tendo-a como matéria prima, aqueles que a mantém viva, que a recriam diariamente e que expressam seus falares.
Convoquemos os poetas, os escritores, os artistas, os jornalistas, os cronistas, os tradutores, os editores, os professores, os filólogos, os intelectuais, os sociolinguistas, os midialivristras, os críticos literários e, também, os normatizadores. Precisamos de todos, inclusive dos estados nacionais.
Pensemos a língua em suas várias dimensões. Consolidemos um universo cultural comum, não apenas em suas expressões literárias e poéticas, mas também na música, no teatro, no cinema, no pensamento; e em suas inserções na internet, no rádio, no jornalismo, na TV, etc. etc. Pensemos globalmente.
Não podemos, enfim, simplificar o assunto, reduzindo-o a uma questão puramente técnica. Não podemos desconectar a uniformização da ortografia de um contexto cultural mais amplo que diga respeito toda a comunidade lusófona.
Sociólogo, ministro de estado da cultura do Brasil

10 de agosto de 2015

Nova era ecológica

A era económica de controlo do capital, criação de escassez e domínio das patentes chega a seu fim. Tudo quanto se torne propriedade, mesmo a intelectual, remata criando controlo dum pequeno grupo sobre um determinado bem comum.
Vários autores, em diversas áreas, por todo o mundo, têm visionado o fim desta era capitalista (vencedor da guerra fria e, pelo tanto, fim já da tentativa socialista) e chegada duma nova era, que não sabem muito bem definir. Podemos intuir mas não definir.
O economista britânico Paul Maison fala de pós-capitalismo. Manu Saaida fez uma comparativa com o modelo económico da série Star Trek, num mundo sem salários, sem moeda… Onde o prestígio pelo aprendizado seja a base de incentivação humana. Muitos outros economistas falam abertamente da impossibilidade de avanço tecnológico (com a consequente destruição de emprego) sem a inserção duma renda social básica (argumentando, entre outras coisas, que em aqueles países como Índia ou Brasil onde esta renda foi incrementada o emprego de qualidade subiu, o gasto em sanidade e educação baixou; incrementando-se ainda o acesso à formação).
O modelo atual económico que tende a concentração da renda e a criação dum capitalismo neofeudal baseado na absorção do património coletivo por uma elite financeira (que por sua vez utiliza este acervo para criar renda, obrigando a sociedade a um continuo pagamento pelos serviços) não parece ser compatível com uma futura sociedade tecnotrónica. As novas tecnologias aceleram o acesso livre à informação e travar esse aceso significa travar o desenvolvimento das mesmas.
Maison analisa, num recente artigo publicado em The Guardian, a existente contradição latejante entre a quantidade de produtos de informação acessíveis de graça e o atual sistema de monopólio, bancos, lóbis e governos que tentam privatizar e manter os benefícios comerciais em mãos duma pequena elite. Esta contradição aumenta por um lado a necessidade, que artificialmente têm as elites de criar escassez para controlar a riqueza, e por outro a necessidade que tem o sistema de expansão tecnológica de criar abundância informativa: compartilhá-la e aproveitar com maior facilidade a rede de interrelações pessoais em uma escala mundial
Novas sociedades terão, pois, de ser criadas em torno à abundância, alicerçando o fator humano como central e tirando-lhe a centralidade à economia. Nós iríamos muito mais longe: o planeta e a variante ecológica como centralidade.
Por outro lado, muitos são os analistas que se tem debruçado sobre o espinhoso tema do pico do petróleo e a descoberta de novas tecnologias (mais adequadas para uma eficaz solução dos problemas da humanidade). Muitos condizem na abordagem destas novas tecnologias (incluídas as fotovoltaicas) terem um custo muito baixo e uma fabricação relativamente acessível (em determinados casos) às comunidades de base. O que num futuro pode mesmo derivar em alteração da capacidade das transnacionais para assegurar o seu controle. Aliás, tendo em conta que as novas tecnologias da informação precisam da comunidade em rede; a autogestão de recursos terá de abrir-se passo, pouco a pouco, como alternativa real (não fictícia) ao poder neofeudal das rendas.
Uma nova experiência humana surge, pouco a pouco, mais adaptada à sua vez a verdade natural da teia da vida: o homem abandona pouco a pouco o ser ególatra freudiano e luxurioso, que ansiava domínio e poder para realizar seus caprichos; em face dum novo ser humano que tem necessidade de viver ativamente sua experiência em grupo. Obrigando-se, por esta inércia, a uma educação dentro dum entorno mais participativo (mais recetivo as necessidades mais amplas da comunidade, onde está inserido).
A ecologia cobra aqui seu maior significado, por que as novas tecnologias põem de relevo a necessidade comum de compartilharem o planeta. O ser tem com elas mais capacidade de descoberta e compreensão da riquíssima teia da vida. Essa mesma teia da vida impõe também como paradigma o trabalho em rede.
Estas tecnologias com as que trabalham, por exemplo, o brasileiro Norbeto Keppe (na sua Nova Física da Metafísica Desinvertida , a Magnetónica ou desenvolvimento do Motor Keppe) caminham a esse encontro entre o novo ser humano (renascido das dinâmicas de guerra-confronto) e o conceito de abundância natural multiplicando-se (entendendo abundância natural renovável, como respeito e aprendizado das técnicas que permitem à natureza a criação da extensa teia da vida).
A auto-organização deve avançar pois na dicotomia de ultrapassar o velho paradigma esquerda–direita, próprio do período decadente de guerra-confronto (necessário na anterior experiência humana criada desde que o homo sapiens gravou, com lume. a visão interior de dominador como único meio para garantir a sobrevivência).
As novas tecnologias, avançando em todas as áreas do saber (a raiz da abertura da física quântica), prazerão a humanidade capacidades, ate o de agora, referenciadas como ficção. A robótica pode contribuir extraordinariamente para liberar as pessoas das suas responsabilidades laborais – centrando-as nas ruas responsabilidades de crescimento pessoal e coletivo.
Mas antes de chegar a essa esperança futura, devemos ainda trilhar muito caminho de medo, sofrimento, precariedade. A existência já de milhões de pessoas com condições laborais precarizadas é um exemplo das múltiplas provações que teremos que ultrapassar. Mas, como diz o ditado romeno: o caminho também está feito de pedras.
A mais urgente, pungente, das atividades a dia de hoje passa pelo pacifismo integral. Impedir a possível nova Grande Guerra é nossa primordial prioridade. A realidade do Meio Oriente (onde a faixa de fricção pela hegemonia entre Rússia China e o Império Ocidental se fez mais evidente) compagina dentro do seu seio múltiplos atores secundários com interesses encontrados (Turquia, Irão, Israel e Arábia Saudita); não permitindo uma solução integral que não dizime os anelos dalgum protagonista.
Sem um poderoso movimento pacifista mundial (agora mesmo em decomposição) não será possível travar as animosidades belicosas, que põem em risco toda a humanidade (dado a possibilidade real dum envolvimento atómico). Isto tem de ser neste momento a nossa prioridade máxima: começar a articular o movimento pacifista; e a Galiza não deve ser uma exceção.
Esse pacifismo tem de começar pela ausência de violência em todos os seus matizes. Para isso é precisa a pacificação do indivíduo, as suas guerras internas e contradições, por meio da introspeção e observação continua. Atingindo níveis de reprogramação através do exercício a ética ativa, a prática ecológica e compreensão do próximo. Um grande trabalho necessário para toda a humanidade, se quisermos passar desta etapa velha de Império da Guerra, em ruína.
Pacifismo integral ativo, também requer de ação em todos os campos reivindicativos e lutas sociais em procura duma sociedade mais justa (sem nenhum tipo de recurso à violência). Trabalhando em favor da autogestão e auto-organização. Trabalhando pela cooperação ética.
Devemos ser cientes que não poderemos criar a futura sociedade libertária (sem amos nem servos) se não formos capazes de evoluir na psique; de modo a tornar-nos, como dizia Gandhi, a mudança que queremos ver no mundo.
Essa evolução da psique deve ter paciência para aguardar pela maduração coletiva (entendendo que haverá ainda muitas pessoas que trilhem o caminho ególatra da ganância, violência, desrespeito…). Não devemos permitir que interrompam a nossa maduração, mas também não podemos olhá-las com arrogância ou desprezo, pois em esse caso nós estaremos em retrocesso.
Devemos entender que sempre há distintos níveis evolutivos (a natureza nos oferece exemplos vários disso)… E ao igual que nós ainda precisamos muito avançar, outros podem precisar ainda muita experiência extrema de sofrimento antes de chegar, dentro de seu coração, a enxergar a luz do amor fraterno.
A nova etapa será de Confraternização (como muitas vezes temos falado). Mas antes teremos de aprender a abandonar o caminho inútil da imposição pela força: guerra–destruição.
Por Artur Alonso Novelhe

6 de agosto de 2015

O VALE DO SILÍCIO E A ESCOLA DE SAGRES – MITOS DA SUSTENTABILIDADE!

A nova Economia da Rede Digital e o correspondente Pensar comercial

Por António Justo
Cada civilização e cada época precisam dos seus mitos que lhe possibilitam a sustentabilidade de futuro. Em Torno do infante D. Henrique congregaram-se os mestres das artes e das ciências ligadas à navegação; a concentração dos sábios da época num determinado lugar possibilitou o mito de Sagres que se tornou na expressão motivadora do começo de uma nova era mundial.

Também agora, no seguimento dos líderes da Universidade de Stanford ligados ao Venture Capital (1), se acentua o mito do Vale do Silício (Silicon Valley Califórnia) que parece inaugurar, como Sagres, uma nova era. Vale do Silício é a capital do mundo da indústria de TI (tecnologia da informação) e da alta tecnologia. Aí se juntam ideias arriscadas com o capital de risco (2).

O génio ocidental sempre soube juntar o saber (a verdade) à dúvida que se revela como a incrementadora de desenvolvimento e futuro (a característica da civilização ocidental). Esta mensagem original encontra-se já na alegoria bíblica de “Adão e Eva” onde se junta o saber divino à dúvida humana na pessoa de Eva que inicia assim o desenvolvimento humano e a cultura civilizacional.

Numa dinâmica de tentativa e erro o ser humano tem encontrado maneira de dar forma ao seu desenvolvimento. Neste sentido tal como na relação do dia-noite se expressam, tal como na Bíblia, duas dinâmicas de pensamento complementares: o pensar optimista e o pensar pessimista.

Em relação ao novo mito da economia virtual, o publicista alemão Christoph Keese, que creio nas pegadas do Adão e Eva dos nossos dias, faz uma análise do Silicon Valley no sentido de se fazer uma ideia do que se pode esperar do vale mais poderoso do mundo. Keese, no seu livro “Silicon Valley”, movimenta-se entre medo e admiração na análise que faz daEconomia de Rede Digital cada vez mais orientada para o mercado e cada vez mais fomentadora de uma nova maneira de pensar: o pensar comercial (3).

A Ideologia eclética do Risco

O empreendimento digital possibilita novas conquistas da realidade e do globo, transformando a práxis das antigas empresas em movimentos empresariais. Der Spiegel n°10,2015, refere que a capitalização bolsista das 30 empresas mais valiosas do mercado Silicon-Valley já é mais do dobro da capitalização das 30 empresas de Dax. Grande parte das empresas mundiais actuais nasceu no Vale do Silício (4). Por aqui se nota que o futuro irá, em parte ou em grande parte, no sentido da filosofia das empresas “Vale do Silício” que têm como credo a inovação cientes de que “quem não arrisca não petisca”.

A mesma revista faz referência aos quatro líderes do pensamento da elite tecnológica Vale do Silício: Ray Kurzweil chefe de Google, intitulado de “o profeta”, prevê que os computadores em 2029 conseguirão fazer tudo o que o Homem faz hoje mas ainda melhor.

Para Sebastian Thurn, o “engenheiro alemão”, o optimista é quem muda o mundo, não o pessimista. De facto o optimismo baseia-se na esperança e na realização de um mundo melhor. O optimismo assemelha-se à água que não destrói mas apenas se desvia deixando com o tempo as marcas da sua presença. Trata-se de um optimismo humilde por não ter a certeza de saber para onde vai nem saber onde termina a viagem.


Joe Gebbia (o conquistador), criador de Airbnb, pensou revolucionar o turismo e fazer concorrência a actores financeiros internacionais que manobram a indústria hoteleira. Gebbia possibilita, como monopolista, uma certa democratização da economia. Estão presentes em 190 países ou seja em 34.000 cidades. Por um lado os novos monopolistas cibernéticos fomentam mais transparência concorrendo com os chefes locais a nível de economia e de política, por outro lado despersonalizam o indivíduo tornando-o objecto transparente.

Peter Thiel, “o ideólogo”, defende o princípio liberalista: Prosperidade e felicidade querem-se para todos através de tanta autonomia quanta possível e de tão pouco estado quanto necessário. Para o alemão, Peter Thiel, o mundo dos Bits conquistou o mundo por ser isento de regras retardantes, ao contrário do mundo dos átomos, como medicina e transportes, que devido à regulamentação estatal não se desenvolve tanto. Thiel defende os monopólios e quer a construção de cidades navegantes em águas internacionais (Já serão de prever as contendas que surgirão na luta pela ocupação das águas marítimas internacionais, isto certamente na lógica da Conferência de Berlim de 1815!). Thiel justifica os monopólios: “Monopólios criativos possibilitam novos produtos, dos quais todos têm proveito”.

Para os cientistas do Google a política, com as suas regulamentações, desacelera o progresso porque “tudo acontece globalmente mas as leis são locais. Isto já não se enquadra no nosso tempo”.

O novo tipo de empresas tenta reunir em si a economia, o pensar esotérico, o socialismo cultural e o capitalismo liberal. Os impérios digitais parecem interessados apenas na prosperidade e na satisfação individual; a manutenção da multiplicidade dos biótopos culturais não lhes interessa. Um dos preços a pagar começa pela perda da esfera privada e pela renúncia à protecção de dados, como todos já sentimos no Google, Facebook, Yahoo, etc. O preço da própria satisfação é desnudarmo-nos.

Da Era dos Coches e dos Cavalos para a Era dos Automóveis e da Internet

O movimento de autonomia individual vê, na Elite tecnológica, a possibilidade da sua maior extensão; por outro lado o movimento tecnológico globalista e a economia virtual em via esvaziam as autonomias regionais, porque tentam ordenar a sociedade numa perspectiva de cima para baixo ao contrário de uma natureza que se desenvolvia de baixo para cima. A realidade global determina contínuos desafios. A política e a pastoral dos temos da era da velocidade do coche puxado a cavalo terão de ser aferidas à era dos aviões e dos computadores. Num mundo da eficiência para quem quer ser eficiente, a estratégia de Gebbia é “pensar como a pessoa que vai utilizar a tua ideia”.

A “ideologia califórnica” pretende a felicidade e a autodeterminação do indivíduo. Vale do Silício prossegue essa ideologia no sentido de “tornar o mundo um melhor lugar”.

As boas intenções do Vale do Silício esbarram com a dúvida, ao serem confrontadas com a verdade dos Goldman Sachs, Stanley, Lehman, etc, instituições sem alma, onde o proveito e a ganância são lei.

Para se não ser prisioneiro do tempo é preciso compreender o tempo. De facto, o que provocou os Descobrimentos foi a dedicação ao saber científico e tecnológico da altura, o saber e a vontade concentrados em Sagres e tudo iluminado pela fé numa missão ambiciosa; esta fé tinha porém uma componente religiosa de humanismo global bem determinado e arreigado no coração de um povo inteiro que afirmava ao mesmo tempo o valor da pessoa e o valor da comunidade.

No tempo dos coches, quando apareceu o automóvel, os pessimistas condenavam os carros por assustarem os cavalos, hoje condenam a internet por prender as pessoas. Não há que parar o tempo nem o desenvolvimento; a função do Homem será acompanhá-los e dar-lhes sentido a função do Homem será acompanhá-los e dar-lhes sentido à imagem do que aconteceu em torno de Sagres.

Se observamos o desenvolvimento da sociedade e da História verificamos uma constante mudança a nível exterior; uma mudança que vem servindo um satus quo sustentável pela ilusão da mudança que, de facto, não muda a essência das relações sociais e humanas porque a mudança adquirida é provocada pelos detentores do poder e seus herdeiros que reduzem a mudança à mera adaptação às circunstâncias e às necessidades do tempo. A política fracassada afirma-se no mesmo erro aceite que lhe dá continuidade. O Homem muda para não se mudar.
A reflexão continua no próximo artigo sob o título: “OS RISCOS DO CRENTE AD HOC COM UMA IDENTIDADE INTERNET”

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e pedagogo

21 de julho de 2015

O PAPA SEM FILTRO – PAPA DA POBREZA DA ECOLOGIA E DA MISERICÓRDIA

Tema “Família” no 2° Sínodo dos Bispos em Outubro
António Justo
No vaticano sopra um vento sul forte, um vento oceânico de fora da Europa que, ao suflar nas batinas da Cúria romana, habituadas à brisa mediterrânica, causa perplexidade. Francisco I, no seu discurso de 22 de Dezembro diagnosticou 15 doenças em pessoal da Cúria e em muita outra gente acomodada que não se controla: “Alzheimer espiritual”, “terrorismo das conversas”, críticas aos “fariseus”, são palavras não diplomáticas que abanam muitas árvores da cúria chegando a atingir até as raízes de alguns “cedros do Líbano”.
No vaticano, como na política há posições controversas, uns mostram-se mais comprometidos com a doutrina, outros com a praxis, como é natural numa tradição de dialética frutífera entre doutores e pastores. A um Papa teólogo segue-se um Papa pastor. É profético e quase de obrigação programática o facto de a História ter reunido dois Papas ao mesmo tempo sob o mesmo tecto romano, como que a avisarem: a praxis é a flor da doutrina; a pastoral não se deve dissociar da doutrina embora aquela deva constituir um desafio a esta. Um grupo conservador receia que Francisco I mude a doutrina quando ele apenas quer pôr a pastoral na ordem do dia. Aguentar a tensão é o que a Igreja católica sempre conseguiu tornando-se assim em modelo institucional para a humanidade.
De facto, a Igreja encontra-se em diferentes contextos; foi a primeira instituição global quando os países nasciam e lutavam ou lutam ainda pela sua identidade regional; como tal, a Igreja tem diferentes rostos segundo os continentes e as culturas subjacentes, o que poderá originar diferentes práticas pastorais.
Francisco I também manifesta compreensão para com os gays de boa vontade que “não se devem condenar, mas pelo contrário ser integrados na sociedade”. As suas expressões espontâneas e palestras livres na missa matinal tornam-se motivo de observações teologais por parte de alguns prelados.
O Papa pretende a reevangelização do mundo. Até os seus críticos reconhecem nele grandes qualidades incontestáveis. Ele sabe olhar as pessoas nos olhos. Ao escolher a Casa Santa Marta (a casa de hóspedes do Vaticano) para residência preferiu o contacto directo com a realidade universal. O Papa revela-se à altura dos tempos e tem sido muito oportuno em iniciativas para as religiões no sentido de serem fiéis à sua tarefa primordial e dando também impulsos muito concretos para a política internacional: genocídio dos arménios, impedimento dos ataques dos americanos e do ocidente contra a Síria, relações diplomáticas entre Cuba e USA, apela para “não desprezar a Rússia”, e tem conseguido transparência na banca vaticana etc.
Ano Santo da Misericórdia
Em Abril, anunciou um ano santo extraordinário, o Ano Santo da Misericórdia que vai de 8 de dezembro de 2015 até 20 de novembro 2016. O bem da igreja e das almas é prioritário.
Uma igreja precisa de mística, doutrina e pastoral. As reformas na moral e na pastoral são precisas tendo muito em conta as assimetrias culturais e sociais das diferentes sociedades. A revelação divina acontece na Bíblia, na Igreja, na Comunidade e na História que vai sempre mostrando novas facetas da realidade global que é Jesus Cristo.
O Pontífice é servidor e não senhor da verdade, por isso não pode mudar a doutrina/dogmas, pode criar prioridades na forma de tratamento pastoral. Por isso, na sua bula sobre o ano da misericórdia acentua: a ”misericórdia é o caminho que une Deus e o Homem”. Misericórdia para quem merece uma pena é uma questão que na visão secular parece contraditória…
Bento XVI era um teólogo, Francisco é um pastor, a teologia permanece na tensão entre doutrina e interpretação e a pastoral segue as circunstâncias dos tempos e das idades. O que se faz e o que se crê não são a mesma coisa, a fé permanece embora a prática seja mais importante. A verdade é processo e o Papa tem a função de encaminhar as diferentes forças em direcção a ela. Francisco I esforça-se no sentido de tornar o espírito de Jesus mais visível e mais experimentável. Sabe que não é seu papel adaptar a Igreja ao gosto do tempo mas que a partir dele se torne experimentável o espírito de Deus. Esta será a sua tentativa.
Há pessoas que se sentem sempre indignadas com o que o papa diz. A indignação nem sempre é sinal de empenho e responsabilidade; hoje é, muitas vezes, uma forma fácil de se destacar e ser notado. Destacar-se perante alguém conhecido ajuda o “santo” ego.
Alguns radicais e eternos insatisfeitos que procuram aproveitar-se do bem e do mal para danificar a Igreja apelam à venda de igrejas e obras religiosas para com esse dinheiro se ajudar os pobres. Esta medida encheria o estômago de alguns pobres por algum tempo mas o problema continuaria. “Pobres sempre os tereis…” (Jo. 12,1-9. A igreja oferece não só pão mas também cultura, arte onde as pessoas encontram paz, conforto e meditação (Não só de pão vive o Homem!). Imagine-se a presença e o contributo contínuo da Igreja para o património cultural dos povos. (Uma instituição sem memória não comporta o futuro). Nas igrejas podem reunir-se os pobres e os que sofrem do frio da sociedade; a Igreja é também o seu porta-voz. Os templos e as obras religiosas são também elas as mãos da natureza, de cidades e aldeias e do povo crente a apontar para a transcendência, a apelar para a verticalidade num mundo cada vez mais horizontal e massa inerte. A expressão espontânea brota do coração e transmite o calor do amor, a expressão da inteligência reflectida espalha a luz do amor. O amor guarda espaço para a pobreza consciente e interior que se preocupa com o bem estar material e espiritual da humanidade. A pobreza espiritual é a maior causa da pobreza material. Precisa-se de uma rede de pessoas de boa vontade. O Pontífice trabalha no sentido de uma utopia que quer um mundo melhor, ao contrário das ideologias que prometem um mundo perfeito. Fronteiras e limites devem ser mantidos apenas como as membranas que ligam os órgãos do mesmo corpo.
2° Sínodo em Roma
Em outubro deste ano realizar-se-á o 2° sínodo em Roma. Prevê-se uma forte luta entre a defesa da tradição da doutrina da Igreja sobre a família e os que seguem o coração das pessoas que aceitam que divorciados que se encontrem na situação de segundo casamento civil possam frequentar os sacramentos. Aqueles argumentam que a Igreja não deve submeter-se aos caprichos do mundo. Entre eles, o cardeal Raymond Burke e vários cardeais africanos e da europa de leste e da Itália receiam que Francisco mude a praxis da doutrina do matrimónio. Sem ser necessário mudar o dogma chegar-se-á a um consenso entre teóricos e pragmáticos. A doutrina fica a mesma, tal como acontece nos Estados em parte com a Constituição mas que se usa das leis para adaptar a constituição à situação concreta. Assim se responderia à necessidade da dogmática (lei fundamental) e de uma pastoral (aplicação da mesma no concreto).
De facto o matrimónio dá-se muitas vezes numa situação de conhecimento e consciência diferente daquela que a realidade depois vem a mostrar; chega a haver casamento mas sem sacramento, apesar da liturgia realizada. Há doenças que um dos parceiros pode trazer consigo que não permitem uma verdadeira relação a nível interior e exterior. Para isso o recurso à anulação do casamento, por falta das condições iniciais necessárias, deveria torna-se num instrumento mais normal. Muitas pessoas trazem nelas doenças psicóticas (ou maldades) escondidas que só o convívio do dia-a-dia vem revelar e podem impedir o desenvolvimento espiritual e levar ao sofrimento dos parceiros a vida inteira.
Violência doméstica pode ser motivo para separação
O Papa Francisco tem compreensão para a separação no casamento em determinadas circunstâncias. “Certamente também há casos em que a separação de consortes se torna inevitável. Às vezes é até moralmente necessária”.Quando disse isto referia-se especialmente aos casos de violência doméstica, opressão do parceiro mais fraco ou de crianças pequenas.
Certamente um assunto muito complicado mas o “Casamento” não pode ser argumento de justificação de arrastamento de casos de violência repetida ou de impedimento de desenvolvimento individual e comunitário. No caso de matrimónios católicos há um instrumentário muito adequado que deveria ser mais utilizado e que constitui no recurso ao pedido de anulamento do matrimónio. Os episcopados deveriam ser mais receptivos e rápidos na decisão sobre pedidos de anulação. Por vezes faltam já de início as condições necessárias para a efectivação do sacramento.
Também Jesus comparou o Reino dos Céus a um reino em que o rei fez o convite a muita gente para a boda de casamento do filho; muitos convidados não vieram e então ele convidou todo o mundo, bons e maus (Mateus 22:1-14). De facto a Igreja não se reduz a um povo eleito ou a uma cultura, por isso Jesus convida todo o povo a entrar no seu reino.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo
In “Pegadas do Tempo” www.antonio-justo.eu

21 de junho de 2015

Uma Biografia de Agostinho da Silva



1. Comecemos por falar sobre o autor desta obra colossal (O Estranhíssimo Colosso. 
Uma Biografia de Agostinho da Silva, Quetzal, 2015, 735 pp.): António Cândido Franco. 
Não tanto para salientar a sua já vasta obra – recordamos aqui alguns títulos: 
Memória de Inês de Castro (1990), Eleonor na Serra de Pascoaes (1992), 
Vida de Sebastião, Rei de Portugal(1993), A literatura de Teixeira de Pascoaes (2000), 
Os Descobrimentos Portugueses e a Demanda do Preste João (2001), 
A Rainha Morta e o Rei Saudade (2003), Viagem a Pascoaes (2006),
 A saga do Rei Menino (2007), A herança de D. Carlos (2008), 
Vida Ignorada de Leonor Teles (2009), Os pecados da Rainha Santa Isabel (2010) 
Notas para a Compreensão do Surrealismo em Portugal (2013) –, 
ou sobre a sua carreira académica na Universidade de Évora – onde é professor 
há já bastantes anos –, mas sobre o seu carácter, mais precisamente, sobre 
um traço do seu carácter que valorizamos em particular.
Ao contrário do que é hábito – sobretudo, arriscamos dizê-lo, em Portugal –, 
António Cândido Franco lida bem com o diferente, ou seja, consegue dialogar 
com quem tem posições muito diversas das suas, conseguindo até, nalguns casos, 
admirar essas pessoas, sem que isso implique qualquer abdicação da sua posição 
de partida. Dou um exemplo recente: a recensão que António Cândido Franco 
publicou no nº 15 da Revista NOVA ÁGUIA (1º semestre de 2015) da obra 
O Puto – Autópsia dos Ventos da Liberdade, de Ricardo Saavedra. Esta obra, 
para quem não o tenha presente, é ela própria uma biografia, no caso de alguém 
que, nas palavras de António Cândido Franco, “viveu o lado errado e em geral 
esquecido da Revolução dos Cravos” – acrescentando: “Este homem não viveu, 
como tantos de nós, o 25 de Abril mas apenas a descolonização. Em vez de alegria, 
sentiu medo; em lugar de euforia, a depressão; em vez duma libertação, 
o pânico de perder casa e vida. É de pasmar que o herói deste livro, já 
encarcerado, no feriado do 25 de Abril traje de luto pela pátria morta? 
Não cremos. Está na lógica do livro e da personagem.”.
Não conhecemos muitas pessoas que, comungando o mesmo ideário de 
António Cândido Franco, tenham igual grandeza de carácter para escreverem 
o que acabei de citar – de imediato, lembro-me de Raul Proença, que salienta 
a “belíssima alma” de Teixeira de Pascoaes no mesmo gesto em que assume a 
dissidência em relação à “Renascença Portuguesa”. A regra entre nós é a contrária: 
as divergências acabam (quase) sempre em desqualificações: se alguém não 
concorda connosco é porque, em última instância, padece de alguma falha 
de carácter ou de inteligência. É bem mais complicado, com efeito, admitir, 
para mais de forma expressa, que os nossos adversários – ou mesmo os 
nossos inimigos – sejam pessoas no mínimo tão bem-intencionadas quanto nós, 
por mais que, objectivamente, consideremos que estejam do “lado errado”. 
Daí, de resto, o erro absoluto daqueles que reduzem os diferendos ideológicos 
a divergências éticas – da extrema-esquerda à extrema-direita, passando decerto 
por todas as variantes do centro, há pessoas bem-intencionadas. A diferença não está pois aí.

2. Mas regressemos a este colossal livro, não tanto pelo seu tamanho 
(mais de setecentas páginas), como, sobretudo, pela sua ousadia: fazer uma 
Biografia de Agostinho da Silva. Sabemos bem que esta era uma tarefa tão 
desejada por muitos quanto ciclópica, dados os muitos “buracos negros” 
que existiam na vida de Agostinho da Silva. António Cândido Franco, desde 
já o dizemos, não traz à luz todos esses “buracos negros”. Mas conseguiu 
realizar uma obra que merece, na íntegra, esse subtítulo: 
“Uma Biografia de Agostinho da Silva”. E sublinhamos aqui o artigo, 
que parece ter escapado a alguns comentadores mais apressados: 
trata-se aqui de “Uma Biografia de Agostinho da Silva”, não de 
“A Biografia de Agostinho da Silva”.
Isso é desde logo relevante porque toda esta Biografia se desenvolve 
a partir de uma perspectiva: a de António Cândido Franco, necessariamente. 
Assim, tal como o próprio Agostinho da Silva nos deu, numa das suas 
mais conhecidas obras, “Um Fernando Pessoa” e não “O Fernando Pessoa”, 
assim também António Cândido Franco” nos dá “Um Agostinho da Silva” e não 
“O Agostinho da Silva”. Tanto mais porque, ao longo da obra, 
António Cândido Franco parece-nos enaltecer mais as dimensões 
da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais se reconhece – 
e ao dizermos isto não estamos a fazer, como alguns poderão pensar, 
um juízo negativo.
Temos aqui bem presente a lição daquele cuja obra, a par de Agostinho da Silva, 
mais estudámos no âmbito do pensamento português contemporâneo
 – falamos de José Marinho. Escreveu ele que “quando expomos um 
pensador devemos dar toda a força ao seu pensamento” 
– defendendo ainda, citando Schopenhauer, “tal atitude é, em relação a eles, 
a mais adequada e é, para o nosso próprio pensamento, a mais proveitosa”. 
Ou seja: António Cândido Franco, ao ter – como escrevemos – enaltecido 
mais as dimensões da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais se 
reconhece, procurou dar (e bem) “toda a força ao pensamento” agostiniano. 
Nós, decerto, faríamos diferente – mas com o mesmo objectivo. Também nós, 
com efeito, tendemos a enaltecer mais as dimensões da vida e obra de 
Agostinho da Silva em que mais nos reconhecemos.
O retrato que António Cândido Franco nos dá de Agostinho da Silva é pois 
um seu retrato, mas é, inequivocamente, um retrato verdadeiro. Verdadeiro 
e generoso: mesmo que algumas passagens possam não agradar a alguns 
gostos mais conservadores (e isso chegou a acontecer connosco – 
não temos qualquer complexo em assumi-lo), António Cândido Franco 
procurou sempre aquele que seria, na sua perspectiva, o melhor ângulo, 
o ângulo mais favorável ao retratado, mesmo quando não escamoteia as 
dimensões mais chãs de qualquer existência humana. Em todas essas dimensões, 
foi, com efeito, Agostinho da Silva um homem maximamente viril, 
maximamente enérgico. Um colosso, numa palavra. Só acrescentaríamos 
“estranhíssimo” porque, nos nossos tempos, homens assim são cada vez 
mais raros. Verdadeiramente, Agostinho da Silva não foi um homem do nosso tempo.
 
3. Esse é, de resto, na nossa perspectiva, o maior paradoxo da 
existência de Agostinho da Silva – como é que alguém que não foi
verdadeiramente do nosso tempo conseguiu prever, melhor do que ninguém, 
o Portugal pós-imperial. Antecipando a previsível catástrofe, tentou, ainda nos 
anos sessenta, avançar para uma verdadeira Comunidade Lusófona. 
O Estado Novo não lhe deu ouvidos. A Revolução em curso também não: 
“…a ideia geral talvez fosse, e eu próprio a defendia e procurei no princípio 
da guerra em Angola, junto de autoridades portuguesas, por exemplo de um 
embaixador no Rio, pôr-lhes essa ideia na cabeça... fazer das colónias e de 
Portugal uma comunidade de língua portuguesa. Ideia que expus a 
Franco Nogueira quando vim a Portugal, em 1962, convidado pelo 
Governo português para discutir o estatuto do 
Centro de Estudos Portugueses em Brasília. O ministro Franco Nogueira, 
ministro dos Estrangeiros nessa altura, recebeu-me e pudemos 
conversar com toda a franque­za, perguntando-me ele se eu achava 
que a ideia de uma comunidade luso-brasileira seria bem recebida 
no Brasil, respondi-lhe que não. Exactamente por causa da atitu­de 
que Portugal estava a tomar com as colónias, com Angola naquela ocasião, 
o Brasil de nenhuma maneira ia aceitar isso, pois recordava-se muito bem 
que tinha sido colónia. A meu ver, Portugal tratou o Brasil muito bem 
quando foi colónia e se não tivessem sido os portugueses, o Brasil não 
se teria constituído. Mas o Brasil muitas vezes achava que os portugueses 
tinham tido defeitos na colonização — a meus olhos esses defeitos não 
existiram, embora houvesse muita coisa individual de tipo geralmente
 conotado com a colonização rapinante dos países. Mas não me parecia 
que naquela altura aceitassem uma coisa dessas. Mas havia algo que 
achava que aceitavam e que tomava a liberdade de expor a 
Franco Nogueira, que de resto tinha tido relações com um grande 
amigo meu, o poeta Casais Monteiro, e, portan­to, eu podia falar 
com uma certa liberdade, por isso disse-lhe que o que me parecia 
que se devia fazer era uma comunidade luso-afro-brasileira com o 
ponto africano muito bem marcado. Quer dizer, se pudesse, 
eu poria o ponto central da comunida­de, embora cada um dos 
países tivesse a sua liberdade, a sua autonomia, em África, talvez 
Luanda ou no interior de Angola, no planalto, de maneira que ali 
se congre­gassem Portugal e o Brasil para o desenvolvimento de África 
e para que se firmasse no Atlântico um triângulo de fala portuguesa
 — Portugal, Angola, Brasil — que pudesse levar depois a outras relações 
ou ao oferecimento de relações de outra espé­cie aos outros países. Então 
Franco Nogueira disse-me que isso era completamente impossível, 
que Portugal não se podia dividir e que não havia nada a fazer nesse ponto. 
De maneira que eu continuo a pensar que, aquando da revolução em 1974, 
se poderia talvez ter tentado isso.” 
(in Vida Conversável, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, pp. 51-52).
Resta perguntar se, esgotada a ilusão europeísta, que, como sabemos, 
Agostinho da Silva igualmente antecipou, chegou a hora de tentar de novo. 
Nós consideramos que sim.
Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono