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13 de maio de 2013

EFEMÉRIDES



Salazar e os governos actuais
No final dos anos 30 Salazar mandou afixar nas escolas primárias uma série de
cartazes de propaganda do então chamado Estado Novo, um dos quais ( que a seguir
recordamos de memória com possívais erros nas palavras mas não no conteúdo)
parecia particularmente inútil e deslocado:
“Ninguém ama mais Portugal do que os portugueses.”
Quem, então, senão os portugueses, poderia amar mais Portugal ?
Foi preciso esperar mais de 70 anos para encontrar com o governo de Passos
Coelho alguma razão para a advertência da Salazar.
Com efeito, este governo não só privatizou a grande maioria do capital da EDP, como
considerou conveniente, em Março, vender os 4,1 % que restavam ao Estado português.
Isto significa que desistiu, não unicamente do direito de acesso à sede da EDP em
Lisboa mas, também, do direito de estar presente e emitir a sua opinião nas assembleias
de accionistas em que se definir a estratégia do grupo para a exploração e distribuição
da energia eléctrica em Portugal.
O Governo de Passos Coelho entendeu que, sem a sua presença, outros defenderiam
melhor os interesses do país. É acreditar que outros amam mais Portugal.
Salazar, com a sua visão centralizadora, conservadora e retrógrada, inferiorizou e
empobreceu a população do país mas, também, há que reconhece-lo, tentou, embora
nalguns casos de um modo dramaticamente errado, valorizar o aparelho do Estado
português procurando, quando o pode, assegurar a sua independência.
Ele acreditava, no fundo, num Portugal conservador, com uma população pobre,
humilde, submissa e hierarquizada, mas independente. A expressão mais representativa
do seu tempo era a frase: “Manda quem pode, obedece quem deve”. Ele foi, sem
dúvida, um homem coerente e, à sua maneira, um patriota. Esmagou o Povo Português
mas para, na sua visão, defender e valorizar o Estado Português .
O que mais nos custa agora compreender é a política de um governo que parece,
simultaneamente, empenhado em desmantelar o aparelho do Estado Português e em
esmagar o Povo Português.
A corrupção
E não se venha agora dizer que no tempo de Salazar não havia corrupção. A
diferença está em que era muito hierarquizada e, agora, democratizou-se.
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Pag. 10 “Jornal República”
Antigamente, um indivíduo que roubasse galinhas era um pilha galinhas. As carteiras,
roubavam-se. Os caixas dos bancos e os pequenos gestores faziam desfalques e os
grandes gestores desvios. Em certa altura, a então Assembleia Nacional, pronunciouse
sobre alcances sobre os fundos do Estado. A palavra até era bonita.
Agora, como o país é mais rico, rouba-se mais. Mas, o mais grave é, talvez, terem
surgido indivíduos com salários legais gigantescos, várias vezes superiores ao do
Presidente da República portuguesa (e mesmo dos Estados Unidos).
E, o que nos parece espantoso é, agora, o Ministro das Finanças aparecer na televisão
a considerar normal que sejam pagas comissões pelos empréstimos negociados por
gestores de empresas públicas. E, depois, admiram-se por eles procurem negociar
mais emprétimos, em vez de procurarem gerir bem as empresasa que não são deles.
Um Papa Sul Americano
O “Jornal República” sentiu que sem dedicar neste número algumas linhas à
evolução da Igreja Católica e, em particular, à eleição do primeiro Papa sul americano,
estaria fechar os olhos para o futuro.
A Igreja Católica é uma instituição de origem eminentemente europeia, altamente
centralizada em Roma, com dois mil anos, que sobreviveu como entidade unificadora
depois da queda do Império Romano do Ocidente.
Esta nota podia ser incluidas na secção “Refundação” que se segue, porque a
evolução da Igreja Católica nas últimas décadas foi, sem dúvida, um notável exemplo
de refundação, ou, pelo menos, de renovamento, que surpreendeu mesmo os que a
olhavam de longe.
Mas pensamos que não há verdadeiras refundações sem referência a raizes antigas.
Por isso, incluimos estas breves linhas nesta secção de “Efemérides” e, dispensando-nos
de repetir o que escreveram os jornais de todo o Mundo sobre a eleição do Papa
Francisco, vamos dizer algo que talvez muito poucos tenham referido.
A eleição no início do Século XXI do primeiro Papa sul americano resulta de uma
opção estratégica tomada há 500 anos pelo Rei Dom João III de Portugal. Na primeira
metade do século XVI Portugal esteve empenhado em manter um domínio marítimo e
procurou cristianizar o Oriente. Mas, em meados do século, já tinha verificado que os
seus recursos eram insuficientes para a tarefa e que na Ásia havia religiões muito
estruturadas capazes, por exemplo, na corte do Imperador Mogal, de dialogar com os
padres jesuitas, mas que não era fácil substituir. Mesmo na Etiópia cristâ os jesuitas
tinham sido expulsos pela reacção do clero local.
Na Europa, as lutas religiosas estavam no urge e a influência do Papa de Roma
tinha sido reduzida a meio continente. O Norte de África o domínio era muçulmano.
Mas no Brasil, que pouco mais era do que uma escala de passagem para a Índia, havia
muito espaço e uma população que acolhia bem a chegada de uma nova religião.
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“Jornal República” Pag, 11
Dom João III transferiu então para lá o grande empenhamento religioso português no
Oriente. Os Reis de Espanha fizeram depois o mesmo e, hoje, metade dos católicos
estão na América Latina.
Tempos mais recentes
Mas, sem recordar tempos tão antigos, saudemos a evolução recente da Igreja
Católica e, em particular, a sua mensagem de Paz e diálogo com as outras religiões. Mas
nem sempre foi assim. Lembremos que nos “Lusiadas” os muçulmanos são aqueles
“que seguem do arábico a lei maldita” e que a grande glória dos portugueses foi terem
andado “desvastado as terras viciosas da Ásia e da África”.
O salazarismo usou esta ideologia até muito tarde, mas não foi ele que a fundou. O
nosso isolamento em relação ao resto do mundo não era só religioso era, sobretudo
cultural e mesmo histórico. Para os homens da geração dos directores deste jornal, na
altura de fazerem a tropa, o Norte de África só era civilizado porque nele estavam os
franceses e o ingleses que tinham tido o mérito de expulsar os italianos e os alemãis.
Hoje, há escolas islâmicas e mesquitas e centros de outras religiões em Lisboa, e
vemos com agrado igrejas católicas dar apoio ao culto ortodoxo. Mas, há não muito
tempo não era assim. Em 1950, um padre ortodoxo que veio a Lisboa pedir fundos
para igrejas na Turquia fui denunciado à pide que o meteu no Aljube até o expulsar.
Mas como ele era um homem muito grande, para o meter nos “curros”, tinham sido
precisos quatro guardas. Foi um acontecimento que eles ainda contavam anos depois.
Nós viviamos no interior de um “Mundo Português” e só espreitavamos um bocado
para fora pelos olhos dos franceses, ingleses, americanos, ou russos, que alguns
olhavam como modelos e mentores. Mas sentiamos ter alguns méritos.
Orgulhavamo-nos do elogio que Victor Hugo nos tinha feito por termos sido o
primeiro país da Europa a suprimir a pena de morte. Nos nossos documentos de
identidade não havia referência e, salvo em inquéritos estatísticas, nenhum cidadão
português podia ser interrogado sobre a sua raça, ou religião. As praias portuguesas
eram todas públicas. São valores ainda hoje válidos para a Europa.
Nós e a Etiópia
Há talvez duas décadas, dois futebolistas da selecção nacional da Etiópia, então
uma ditadura, fugiram durante um jogo internacional e procuraram asilo político no
estrangeiro. A FIFA interessou-se pelo caso e perguntou a vários paises, entre eles a
Portugal, se os podiam acolher. Mas, um burocrata sem sensibilidade e sem cultura,
nem sequer futebolística, deu um parecer negativo que o Ministério dos Negócios
Estrangeiros depois fez seguir.
Se o parecer tivesse sido outro, estes dois etiúpes estariam provavelmente integrados
na vida portuguesa e poderiam explicar na língua materna ao Sr. Seilaseé, personagem
central da Troika , o que é que significa a expressão “Que se lixe a troika” e porque é
que ela se revelou tão mobilizadora da população portuguesa .
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Pag,12 “Jornal República”
O “JR” falou no seu 3º número às nossas relações com a Troika e voltaremos ainda a
faze-lo neste número. Queremos, no entanto, dizer aqui que nada nos move contra o Sr.
Seilaseé. Pelo contrário, informações que nos chegaram dizem que ele é uma pessoa
simpática que gosta de comer em pequenos restaurantes e tascas de Lisboa.
Não temos nenhuma intenção de o ir ouvir numa conferência oficial mas, para a
hipótese de um qualquer encontro ocasional com ele, guardamos em carteira duas
perguntas jornalísticas para lhe fazer: São elas:
1ª- Se na Etiópia há produção de vinho e se gosta do vinho tinto português. (Sendo
manifestamente dificil exportar vinho para paises muçulmanos, a pergunta tem
manifesto interesse para o Comércio Externo português. )
2ª – Sendo a Etiópia um pais cristão, é natural que na sua estrutura administrativa
tenha algo que se assemelhe às nossas freguesias. A pergunta ao Sr. Seilaseé é se ele,
para promover o desenvolvimento do seu país, preconiza a redução do número destas
freguesias ou orgãos semelhantes.
A CATÁSTROFE NO BENGLA DESH
Em 24 de Abril ruiu no Bengla Desh uma fábrica causando a morte de 500 dos
seus trabalhadores que nela trabalhavam amontuados 12 horas por dia. Não foi
uma catástrofe natural, mas uma catástrofe no mundo do Trabalho no espaço da
Economia global onde há liberdade de circulação de mercadorias e capitais do
nosso planeta. Mas, tudo se passa como se os operários do Bengla Desh fossem de
outro planeta. A eles ainda não chegou a solidariedade efectiva dos trabalhadores
do mundo em que os sindicatos conseguiram fazer reconhecer há 140 anos, e
depois de muitas lutas, o direito às 8 horas de trabalho diário. E, no entanto, estes
mesmo trabalhadores estão a ser vítimas do que se passa no Bengla Desh porque,
nos seus paises, se argumenta com a necessidade de aumentar os horários de
trabalho para se poder competir .... com o Bengla Desh e outros paises onde não
são respeitados os direitos dos trabalhadores.
Os grandes progressos da Humanidade foram sempre progressos morais.
No seu discurso, sempre optimista, na festa do seu 103º aniversário (referida no
1º número do “Jornal República”) o Dr. Emídio Gerreiro disse que o Século XXI
seria o século da Solidariedade. A tragédia do Bengla Desh mostra, claramente,
que a alternativa é a ganância. O confronto vai ser longo e vai depender das
instituições que mais nele se empenharem. O “JR” atrasou o seu 4º número
impresso para nele incluir este texto e reescrever alguns outros. Quando pensamos
em quais serão as instituições mais capazes de sentir que a solidariedade tem de ser
global no Mundo, pensamos que poderão ser os sindicatos e as Igrejas, instituições
que várias vezes se defrontaram em periodos recentes..
(Ver nota no final da página 16)
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“Jornal República” Pag, 13

12 de fevereiro de 2013

O Papa verdadeiro, não o do preconceito



Henrique Monteiro


Bento XVI resignou, do meu ponto de vista, por nenhum motivo obscuro, mas por ser quem é e sempre foi: um racionalista (ele mesmo escreveu e disse várias vezes que não era um místico) que entende profundamente o valor da vida e do ser humano. Como intelectual, Bento XVI é superior; como dirigente da Igreja Católica deu cabo de todos os preconceitos daqueles que, à data da sua eleição, queriam vê-lo como um mero "pastor alemão". Eu não sou católico, mas aprendi a respeitar a coerência e a elevação onde quer que elas estejam, bem como a tolerância e a convivência como valores indispensáveis à compreensão mútua. E por ter lido e ouvido de viva voz o Papa, considero-o uma figura impar na nossa intelectualidade.

Para não enfileirar com aqueles que só conseguem elogiar na hora da despedida, cito um artigo que escrevi há quase três anos nas páginas do Expresso precisamente sobre este Papa, quando ele visitou Portugal e eu tive a oportunidade de o ouvir. E deixo algumas notas finais escritas há dois anos, quando tive a oportunidade de apresentar em Portugal o livro "A Luz do Mundo" que resulta da longa entrevista que o jornalista Peter Seewald lhe fez. Já agora, nesse livro Bento XVI colocava a hipótese de resignar mediante certas circunstâncias, entre as quais estas que o levaram à coerência de o fazer. Eis o que escrevi há três anos:
 "Mas por que estranha razão, a cada passo, se ouve dizer que este Papa é um reacionário temível? O que Bento XVI quis dizer aos convidados do CCB, entre eles muitos pertencentes a outras confissões ou não professando nenhuma, foi simples: que cada um deve fazer da sua vida um lugar de beleza e que a Igreja está sempre a aprender a conviver e a respeitar os outros; "outras verdades, ou as verdades dos outros". A mensagem foi de uma profunda tolerância e de esperança que a "Verdade" possa iluminar cada ser humano. Quem se sente ameaçado por palavras assim? Já no avião, Bento XVI desarmara a polémica da pedofilia ao afirmar que a perseguição à Igreja não nasce dos seus inimigos, mas do seu interior. A frase, que parecerá revolucionária a quem nada leu sobre Cristo - a começar pela Bíblia - está, no entanto, em perfeita linha com a melhor tradição da Igreja. Em Fátima, o Papa defendeu - e bem - a liberdade de culto.
E assim, Bento XVI surge-nos infinitamente melhor do que aquilo que dele dizem.
E aqui se revela o preconceito.
Não o estafado preconceito que é arma de arremesso de todos os pós-modernos quando em causa está uma hierarquia de valores; mas o preconceito daqueles que, dizendo-se despreconceituosos, não resistem a um teste simples: fazer a crítica coerente ao que o Papa diz - e não a um conjunto de ideias pre-formatadas que ele jamais defendeu.
A luta central de Bento XVI é contra a desregulação do ethos, da ética - a mesma desregulação que elevou a ganância e a especulação a deuses de pés de barro que se estatelaram no primeiro abanão. É uma luta árdua contra a desvalorização da vida, da família, do esforço honesto e da esperança que pode e deve envolver não apenas os católicos. No CCB, também os líderes de outras confissões saudaram as palavras do Papa.
É difícil ir contra aquilo que se convenciona, em determinado momento, ser moda: o chocante, o grotesco, a desconstrução, a ganância, o egotismo. E, uma vez que a Igreja Católica continua a aprendizagem da convivência, mais do que possível é desejável o caminho comum."
E assim terminava o texto escrito no Expresso. Quero apenas colocar mais cinco notas, já escritas igualmente, mas que tenho vindo a confirmar:
1)      Como Bernard-Henry Levy também eu penso e escrevi que tudo o que diz respeito ao Vaticano e ao Papa surge na imprensa e em certos círculos acompanhado de preconceito, desonestidade e até desinformação
2)      Posso testemunhar que Bento XVI tem razão quando afirma que ninguém faz, em concreto, tanto pelos pobres, pelos que passam mal e sobretudo pelos doentes de sida como a Igreja. Andei muito por África - cobri conflitos civis em Angola, Moçambique, África do Sul, Namíbia, Malawi, Congo, Zimbabwe e sei bem que nesse Continente, bem como noutras partes do mundo, a Igreja tem uma obra assinalável. Há nos locais mais recônditos, sujos, doentios, depressivos sempre alguém que, por nada ou quase nada em troca, está lá a ajudar os outros. Diria que 100% são crentes e desses a maioria cristãos e  a maior parte católicos.
3)      A reação do Papa às denúncias do escândalo da pedofilia foi esta, exatamente, que transcrevo (e não o que por aí anda a correr: "Desde que sejam verdade são bem vindas - a verdade, conjugada com o amor corretamente entendido é o valor primordial".  Eis algo que é raro, senão impossível, ouvir de alguém responsável, nomeadamente na política.
4)      A ideia da racionalidade na Fé (ou na crença) liga-se a uma questão pertinente que raras pessoas gostam de responder. Esta: se a cultura, ou o múnus da cristandade no Ocidente perder a sua força estruturante da sociedade quem ou o quê vai assumir o seu lugar?
5)      Ratzinger tem toda a razão quando defende que a tolerância está em perigo com as doutrinas politicamente corretas. O seu exemplo é para mim paradigmático. Ei-lo "está a difundir-se uma nova intolerância (...) existem regras ensaiadas de pensamento que são impostas a todos e que são depois anunciadas como uma espécie de tolerância negativa. Como quem diz que, por causa da tolerância negativa não pode haver crucifixos nos edifícios públicos. Basicamente isto significa a abolição da tolerância"
Este texto vai longo, mas penso que vale a pena refletir sem preconceitos sobre esta figura e sobre o exemplo que ele dá a tanta gente. Ninguém é eterno e menos insubstituível. A dignidade dos cargos está relacionada com a dignidade de quem os exerce.
 Twitter: @HenriquMonteiro https://twitter.com/HenriquMonteiro
Facebook:Henrique Monteiro http://www.facebook.com/hmonteiro  
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