28 de março de 2011

Os malefícios da rivalidade na escola


Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de competição; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.

A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de batalha que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.

Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta.

Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas aulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro, e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória sobre uma idéia de guerra, de uma idéia de Paz.

Agostinho da Silva, Textos pedagógicos.

(seleção de Rômulo Andrade Pinto, Artista Plástico e Educador)

3 comentários:

Pintoandrade disse...

Oi Lúcia, esse título não está bom. Esse artigo tem endereço certo que assim se perde. Abraço

Pintoandrade disse...

Agora sim, ficou completo. cada palavra desse texto em mim bate forte. como educador tenho acompanhado algumas experiências de mudança nesse sentido dentro das escolas.

romulo disse...

Em mim bate bem forte. Em meus primeiros anos de escola no Rio de Janeiro dos 60's fui aquele aluno motivado, estudioso e responsável, amigo de colegas e professores que a partir do segundo grau
veio a ser chamado de cdf, começou a se dar conta dos muitos equívocos do sistema de ensino e se tornou um jovem irônico, inconformado e vagabundo. Decepcionado mais adiante com o sistema universitário, numa das consideradas melhores universidades
do país - UnB.

É preciso criar alternativas a essa escola empobrecida - seja particular ou pública: sem encanto
e estímulo às outras inteligências, sem tempo para a poesia e a beleza que há na vida, voltada exclusivamente a preparar pessoas para as demandas do mercado de trabalho.