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21 de junho de 2018

A Cátedra UNESCO Archai do Programa de Pós-Graduação em Metafísica da UnB,  o Laboratório de Dramaturgia (LADI) da Universidade de Brasília e o Núcleo de Estudos Clássicos do CEAM/UnB convidam para o Mini-Curso Mitologia na Filosofia e na Literatura: Eudoro de Sousa, a ser ministrado por Luís Lóia (UCP, Lisboa). 


As aulas acontecerão nos dias 26 (Terça-Feira) e 28 de junho (Quinta-Feira), das 14:00 às 18:00
Local: Laboratório de Ontologias Contemporâneas do PPG Metafísica: ICC Norte, Subsolo, Módulo 26
Universidade de Brasília. Archai


Luís Lóia é Licenciado em Filosofia, Pós-graduado em Educação para a Cidadania e Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, pela Universidade Católica Portuguesa (UCP). É Professor Área Científica de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da UCP. Nas suas funções docentes nesta Universidade é também Representante dos Docentes de Filosofia na Comissão Pedagógica da Faculdade de Ciências Humanas, Tutor do Curso de Licenciatura em Filosofia, em regime de b-learning e Coordenador da Pós-graduação em Filosofia para Crianças. Ainda nesta Universidade é Assessor Científico e Investigador do seu Centro de Estudos de Filosofia (CEFi), sendo Editor da sua Revista International Journal of Philosophy and Social Values. Tem também funções docentes na Universidade Europeia, em Lisboa, e no Colégio Manuel Bernardes. É Vice-diretor da Revista Nova Águia: Revista de Cultura para o século XXI e Membro do Conselho Fiscal do Movimento Internacional Lusófono. Tem como principais áreas de interesse académico a Filosofia do Conhecimento, a Ciência Política e o estudo da Filosofia Portuguesa com particular incidência no pensamento de Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Eudoro de Sousa, áreas onde tem lecionado, investigado e publicado. Atualmente, é também Investigador Integrado no Instituto de Filosofia da Universidade do Porto onde prepara o seu Doutoramento com uma tese intitulada Phylosofia e Phylomytia em Eudoro de Sousa. 

5 de maio de 2013


Palestra da Profª Drª Lucia Helena Sá (começa em torno dos 23:30 min do video) e do Profº Drº Loryel Rocha (em seguida, aos 45:30 min). Representantes, em respetivo, da Casa Agostinho da Silva e do Instituto Mukharajj Brasilan, no 1º Congresso Internacional da Cidadania Lusófona (3 e 4 de abril, em Lisboa).
Os textos lidos logo estarão disponíveis no site do Instituto Mukharajj e da Casa Agostinho da Silva.  
YouTube - Vídeos desse e-mail

4 de outubro de 2011

Espólio do filósofo Delfim Santos doado à Biblioteca Nacional de Portugal

Delfim Pinto dos Santos, natural do Porto, licenciou-se em Ciências Histório-Filosóficas na Faculdade de Letras do Porto, onde teve como mestre Leonardo Coimbra e por condiscípulos Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, José Marinho ou Santana Dionísio.

Ao longo da sua carreira Delfim Santos participou e proferiu conferências em diversos congressos nacionais e estrangeiros e colaborou em numerosas publicações periódicas, entre as quais a revista A Águia, de que chegou a ser director, Revista de Portugal, Presença, Revista do Porto, Inquérito, Diário Popular, Revista da Faculdade de Letras, Litoral, O Mundo Literário, Escola Portuguesa, Revista Brasileira de Filosofia, Arquivos da Universidade de Lisboa ou Diário do Norte. Algumas dessas colaborações foram editadas em separatas. Publicou ainda, por exemplo, Linha Geral da Nova Universidade de Coimbra (1934), Situação Valorativa do Positivismo (1938), Da Filosofia (1939), Conhecimento e Realidade (1940), Notes pour une Étude sur Descartes (1944), Fundamentação Existencial da Pedagogia (1946), Meditação sobre a Cultura (1946), A Criança e a Escola (1959), tendo prefaciado e preparado introduções e versões de obras de autores como Friedrich Nietzsche, Régis Jolivet, Hermann Hesse e Karl Jaspers.

Agora, seu espólio está disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa, integrando o seu Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea. Permitirá aos investigadores estudar sobre fontes primárias o percurso e pensamento de Delfim Santos, autor cujas obras completas têm a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian.

Fonte: http://www.bnportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=638%3Aespolio-do-filosofo-delfim-santos-doado-a-bnp&catid=49%3Aaquisicoes&Itemid=677&lang=pt

23 de maio de 2011

Quiosque da CAS

(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Crise na Igreja (!)

LANCES E RELANCES, 4




«CRISE NA IGREJA» (!)

Eduardo Aroso
«Nós os vencidos do catolicismo

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

(Ruy Belo «A solidão dos filhos de Deus» )


«Crise na Igreja». Três palavras enormes. Li-as numa das paredes exteriores de um templo, como anúncio de encontro/colóquio. Algo surgiu em mim instantaneamente, embora esta palavra seja pouco propícia ao pensamento filosófico ou reflexivo. Todavia, o instantâneo pode não ser intuição, faculdade esta a que Bergson deu bastante luz e revestiu de uma mais alta compreensão, sobretudo no mundo académico.

O meu coração, intuitivamente, só não se amargurou por saber que Deus não tem crise e, assim, a frase só pode espelhar a crise da Igreja enquanto instituição, coisa aliás de importância secundária. A crise na Igreja pode ser sintoma de um modo de ser que oscila entre a conveniência da moda e o que, ao invés de ser afastado, urge doutrinalmente aproximar do público, pelo menos daquele que mostre inclinação para tal. Se assim não for, quanto a este último ponto, teremos muita ênfase na instituição e pouca no «corpo espiritual» de que falava S. Paulo, muito embora ele lá esteja, perene, irradiante e irradiando.

Este quadro, o da crise da Igreja como instituição (ou de qualquer escola de pensamento onde há, de facto, espírito) deve por certo ser considerado como, de tempos a tempos, cuidamos da nossa casa e porventura a arrumamos de modo diferente. Mas numa crise (!) da Igreja enquanto «ecclesia » ou «corpo místico», que está nos antípodas do efémero, só podemos admitir o absurdo de que o Criador está afectado também pela dita crise! Deus está entre e para além do primeiro e do último suspiro. Agostinho da Silva disse haver pessoas que, por tanto atribuírem importância ao diabo, acabam por desvalorizar Deus, expressão que pode ilustrar, com o humor sério e profundo do saudoso professor, o tema deste pequeno artigo.

Os modos de pensar e agir automáticos tomaram conta da sociedade, até em sectores onde era suposto não dever acontecer, dado o carácter intrínseco de permanência em grau considerável que doutrina e filosofia possuem, realidade que não choca com a frase camoniana «o mundo é composto de mudança», se interpretada no devido ponto. A verdade é que as grandes provas são, antes de mais, lançadas aos guardiões do sentido sagrado da Palavra, e só depois aos que a escutam. O Mestre sabia do que falava quando lançou o repto a Pedro que, afirmando sempre que jamais negaria o seu Senhor, acabou por negá-lo, por mais que uma vez. Afinal, tudo são passos no caminho da realização.

Sabemos que a crise portuguesa, no seu mais profundo sentido, tem pouco a ver com os últimos anos de governos e desgovernos, mas que é o desfecho irreversível de um ciclo que se iniciou com o Marquês de Pombal e que agora agoniza em toda a diversidade das instituições, realidade histórica esta que Joaquim Domingues, com o rigor que lhe assiste, tem assinalado nos últimos tempos. Quem se considera na medula da crise fica apenas na instituição ou ao sabor do mercado, ou então, internamente, é impelido a uma reviravolta (se a sua consciência o mortificar), e aí temos o sentido grego de crise como crescimento. Ou então há que escutar de novo «Bem -aventurados os que têm fome e sede de justiça».

Crise na Igreja ou Crise da Igreja? Crise da filosofia ou crise na filosofia? Crise da poesia ou crise na poesia? Um pretenso pensador internamente desorganizado não invalida a irradiância de um corpo de ideias estruturado; versos brejeiros não anulam um sublime poema de amor. Como os limos que crescem e se agarram às paredes húmidas, ao longo da História também os milenarismos têm agarrado conceitos diversos. No que actualmente vivemos, espera-se que não seja nenhuma teria económica a salvar doutrinas religiosas, filosofias e artes.

Eduardo Aroso

17 de maio de 2011

Mensagem agostiniana

(…) O público adora os filósofos que pode compreender, que lhe vão na esteira, desencontrados como ele; o som das palavras move mais os homens do que o seu conteúdo (...).
“São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.

Agostinho da Silva, trecho recolhido de Sete Cartas a um Jovem Filósofo – Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro, I, IV, Edição da Ulmeiro, 1990.

Momento CAS reflexão

Se prestar mais atenção, vai descobrir que o tronco de árvore em decomposição e as folhas apodrecendo não só dão origem a nova vida, como estão cheios de vida.
Há microorganismos em ação. As moléculas estão se reorganizando.

Portanto não há morte em parte alguma da floresta. Há apenas a transformação da
vida. O que pode aprender com isso?
Aprende que a morte não é contrário da vida. A vida não tem oposto. O oposto da morte é o nascimento. A vida é eterna.

A cultura ocidental ainda nega amplamente a morte. Quando se nega a morte, a vida perde a profundidade. A possibilidade de saber quem somos para além do nome e da forma física
a nossa dimensão transcendental desaparece, pois a morte é a abertura para essa dimensão.
Sempre que uma experiência termina, a forma que essa experiência tinha na sua consciência desaparece. Muitas vezes isso faz com que você sinta um vazio do qual a maioria das pessoas tenta fugir.

Se você aprender a aceitar e até acolher os pequenos e grandes fins que acontecem em sua vida, pode descobrir que o sentimento de vazio que a princípio causou tanto desconforto se transforma num espaço interno profundamente cheio de PAZ.

Perder algo concreto que você inconscientemente identificou como seu pode ser uma experiência muito dolorosa. É como se ficasse um buraco na sua existência.
Quando isso ocorrer, não negue nem ignore a dor e a tristeza que sente.
Aceite-as. Cuidado, porque a mente tem a tendência de construir uma história em torno da perda em que você desempenha o papel de vítima. Preste atenção ao que está por trás dessas emoções, assim como da história que sua mente criou: aquela sensação de buraco, aquele espaço vazio. Você é capaz de encarar o vazio de frente, talvez descubra que ele deixa de ser assustador. E pode se surpreender ao descobrir que há PAZ emanando de LÁ.

A maioria das pessoas sente que sua identidade, sua noção do eu , é algo extremamente precioso e não querem perder. Por isso têm tanto medo da morte.

Parece assustador e inimaginável que o eu possa deixar de existir. O eu que você concebe é apenas uma forma temporária na consciência. Sua essência, seu EU SOU eterno é a única coisa que você não perde nunca.

Aos 20 anos de idade, você sente seu corpo forte e vigoroso; 60 anos depois, sente o corpo mais fraco e envelhecido. Sua forma de pensar certamente não é a mesmo de quando tinha 20 anos. No entanto, a percepção de que seu corpo está jovem ou velho ou de que sua forma de pensar mudou é a mesma. Essa percepção é o que há de eterno em você é a própria consciência. É a vida ÚNICA que assume muitas formas. Você pode perder essa Vida? Não, porque você é Ela.

Às vezes, pessoas muito doentes ou muito idosas ficam, por assim dizer, quase transparentes nas últimas semanas, meses ou até anos de suas vidas. Quando nos olham, é possível ver uma luz brilhando através de seus olhos. Não há mais sofrimento psicológico. Elas se entregaram, e assim o eu autocentrado se dissolveu. Morreram antes de morrer e encontraram uma profunda paz interior pela compreensão de que dentro delas existe algo imortal.

Nos poucos momentos que antecedem a morte física, e à medida que está morrendo, você tem uma experiência de si mesmo como uma consciência livre da forma. A morte então é sentida como ilusória tão ilusória quanto a forma física que você identificava como você.
Entregue-se profundamente a cada aspecto dessa experiência, entregue-se aos seus sentimentos, assim como à dor e ao desconforto que a pessoa à morte possa estar sentindo. Sua entrega e a calma que isso traz vão ajudar muito essa pessoa e facilitar sua transição. Se forem necessárias palavras, elas virão do silêncio que existe dentro de você. (Eckhart Tolle)
--
Texto enviado por Jayme Mathias Andrade

9 de maio de 2011

Pensamentos conversáveis

"Como é que o espírito se encarnaria puro se a matriz lhe não fosse eternamente virgem." (Agostinho da Silva*)


"A natureza do homem é a essência. É isso o que o homem tem de real em si: a sua natureza, sua essência. E a verdade já está inserida, está implícita na palavra "natureza". A verdade jamais pode advir de algo que não seja natural. Tudo o que é verdadeiro é natural.
Você não pode conhecer sua natureza. Ela é o desconhecido, é o misterioso. Nenhum esforço que você faça, por maior que seja, poderá revelar sua natureza interior. Você pode ser o homem mais notável da face da Terra, pode ser o homem capaz de realizar os maiores feitos do mundo, e mesmo assim você não será capaz de conhecer sua essência.
O conhecimento de sua natureza só pode se dar de forma direta e imediata. Então a mente não participa desse processo; ela fica de fora; a mente tem de ser posta de lado. E quando a mente entra em cena, ela começa a filtrar as coisas; tudo o que você vê é filtrado, todas as palavras que você escuta são filtradas pela sua mente, a mente filtra tudo. A mente é um filtro; você não consegue utilizar sua mente sem fazer interpretações, rotulações, julgamentos... Então, você não consegue ver as coisas acontecendo, pois o que quer que venha a surgir para você, estará maculado com conteúdos e valores assimilados pela sua mente.
Neste exato momento, muitas coisas estão acontecendo para você. Elas estão despidas, estão nascendo pela primeira vez. O que quer que esteja acontecendo agora é algo novo, é algo inédito. Isto nunca nasceu antes, em toda a história deste mundo. Tudo o que nasce agora, nasce como quando você nasceu pela primeira vez: nu, despido, puro. E olhar para estes acontecimentos com a mente, é tirar toda a pureza dos acontecimentos; a mente torna velho para você tudo o que está acontecendo no momento presente; você segue interpretando o presente em termos de passado. É por isto que tantos mestres espirituais insistem: “ponha sua mente de lado”; é impossível olhar para os fatos com a mente sem interpretá-los. Você deve, portanto, tornar-se senhor da sua mente e usá-la apenas nos momentos necessários. E quando você consegue olhar para os fatos da vida sem deixar a mente interferir, tudo é belo, tudo é extraordinário, tudo é valioso e único. Até mesmo os fatos que você julgava serem triviais tornam-se importantes; você pode reconhecer o valor de tudo. O que, antes, eram grandes coisas e pequenas coisas pra você, passam a ter a mesma importância, porque você descobre/percebe que elas não podem ser comparadas. Você vê que fazer comparações não tem o menor sentido. Pequeno e grande eram interpretações que sua mente fazia. Tudo é novo, tudo é único... e tudo possui sua respectiva importância. Cada coisa na existência ocupa o seu devido lugar e nada é em vão.
E lembre-se: A verdade nunca se torna uma memória. Mesmo quando você a conhece, ela nunca se torna uma memória. A verdade é tão vasta, que ela não pode ser contida na memória. Quando você atua pela memória, então você não vê o que é real naquele momento; você segue interpretando aquilo que você já havia visto antes. Você segue interpretando o presente em termos de passado; você segue impondo algo que não existe... e você segue não vendo as coisas que existem naquele momento. A memória tem de ser colocada de lado. A memória é algo bom, use-a, mas a verdade jamais foi conhecida através da memória.
Assim, a verdade será sempre desconhecida. Mesmo que neste momento você a veja, você não será capaz de reconhecê-la quando você a vir no próximo instante. Quando você a conhece, ela é nova. E sempre que ela voltar a acontecer, você a conhecerá novamente, e ela será outra vez nova. Ela nunca é velha; ela é sempre nova, ela é sempre fresca. E esta é uma de suas qualidades: a de que ela nunca tornar-se-á velha. Você nunca poderá saber dela de ante-mão; só é possível percebê-la no momento presente. Para você a verdade sempre é conhecida no momento presente; e para sua mente ela é sempre desconhecida.
Esse deve ser o olhar do iluminado: saber olhar para tudo, como se estivessem acontecendo pela primeira vez. Tudo é sempre uma novidade; você se surpreende com a vida a cada segundo que passa, pois nada do que acabou de lhe acontecer havia acontecido antes para você. Você poderia assistir o mesmo filme duas vezes, e ao assisti-lo pela segunda você desfrutaria dele como se o estivesse vendo pela primeira vez. Você poderá rir das mesmas piadas, se surpreender com as mesmas cenas. O olhar do iluminado é saber ver, por vários ângulos, a mesma e única coisa. Você olha para uma flor hoje, a aprecia e desfruta de sua beleza. Amanhã você olha para a mesma flor, mas você percebe que está olhando para algo inteiramente novo. Você não tem a obrigação de enxergar as mesmas coisas na flor, sempre e sempre.
E para isto, você deve viver mergulhado no desconhecido. Você tem de saber estar familiarizado com o misterioso, com a única coisa que você jamais conseguirá desvendar. E já que é impossível decifrar sua natureza interior, a solução do problema está em aceitá-la como sendo incognoscível. Essa é a única solução. É quase como um problema matemático que não apresenta nenhuma solução possível; então você o resolve colocando aquele símbolo do “E” ao contrário. Ora, quando um problema não tem solução, então solucionado ele está! Mas você precisa aprender a chegar na conclusão de que não há nenhuma solução possível para o problema. Somente então ele pode ser resolvido.
Assim, mesmo depois de ter atingido a iluminação, você não será capaz de saber, nem de dizer, se chegou completamente ou se chegou em parte. Você nunca irá saber. Um sentimento acompanhará você sempre, um sentimento de que você nunca sabe de nada. É como se você estivesse nascendo para a vida -- e você estará! --, a cada instante: tudo é sempre novo, tudo brota diretamente do desconhecido. Sócrates proferiu esta frase: “Só sei que nada sei”. Eis aí o significado dela. A verdade não pode ser conhecida. A natureza do homem não pode ser conhecida.
E o homem está constantemente lutando contra a sua natureza; ele não a aceita. Ela não é algo contra o qual se deva lutar. Fazer isso é tolice; é inútil porque ela não pode ser conhecida. Tentar conhecer sua natureza é lutar contra ela. E é isso o que o homem vem fazendo. Ele está tentando compreender sua natureza com sua mente; ele está tentando saber dela. Ele quer tornar a verdade um objeto de seu conhecimento. E isso não é possível; você não pode desdobrar a única verdade existente em duas verdades, do contrário ela perde seu sentido. Depois de desdobrada em duas, apenas uma delas é que será a verdade e a outra não será. A verdade só pode ser uma. Não é possível que haja duas. Depois que sua mente divide a Realidade em duas partes, então qual delas será a verdadeira? Será o sujeito que analisa o objeto, ou o objeto analisado pelo sujeito? Se isto acontecer, você cai dentro de um dilema: "Onde está a verdade? Ela está aqui comigo, ou está lá com o objeto que eu estou observando?". É por isso que você não pode observar, não pode conhecer, não pode saber o que a verdade é. Porque, se você pudesse observar a verdade, então ela estaria lá e você estaria aqui. E o homem, como um sujeito observador, jamais poderia admitir-se como sendo algo não-verdadeiro. Se aquilo que está lá é a verdade, o que é você então? Você consegue conceber para si mesmo que você é uma mentira? A resposta é que não; ninguém o faz. Assim, dividir a Verdade em duas e querer que o sujeito e o objeto sejam ambos verdades, é querer demais. Isso vai contra a natureza da Verdade, pois ela só pode ser uma.
O processo de "conhecer algo" significa que o conhecimento não existia anteriormente e que, de repente, passou a existir. Quando você conhece algo, o objeto que se tornou conhecido por você não é eterno. Isso também indica que nem mesmo o seu conhecimento é eterno: eles surgiram, ambos, ao mesmo tempo. E é por isso que a verdade não pode ser conhecida, ela é eterna; você nunca deixou de sabê-la; você sempre soube dela. Como você pode, então, vir a conhecê-la? Não, você não pode.
É como quando você já conhece o que é o céu, e de repente você começa a dizer "eu quero conhecer o que é o céu". É uma grande idiotice. Você não pode conhecer o céu duas vezes; apenas uma única vez já basta. Depois de conhecido uma vez, você pode empreender todos os esforços no sentido de conhecê-lo novamente, mas eles serão em vão. O céu só pode ser conhecido uma vez, e isto já foi feito. Aquilo que já está consumado, está consumado... e não há mais nada que você possa fazer.
O mesmo se aplica quanto a você conhecer a sua Natureza, mas aqui há uma pequena peculiaridade: você sempre soube dela. A diferença da sua natureza para o céu, é que o céu pode ser conhecido uma única vez. Mas, sua natureza não pode ser conhecida sequer, pela primeira vez. E veja: tentar conhecer sua natureza pela primeira vez é como tentar conhecer o céu pela segunda. Você não poderá conhecê-la de novo, por mais que tente. Você já conhece o que é a Verdade.
Assim, todo esforço é inútil. Isto é muito importante e tem de ser compreendido: a Verdade não pode ser conhecida, ela tem de ser aceita. Isso precisa ficar muito bem claro na sua mente; essa compreensão precisa entrar e ficar impressa em você, de tal forma, que você desista de tentar conhecê-la... de forma que você aceite que a verdade é incompreensível. Somente depois disso é que você tornar-se-á apto para aceitar e perceber que você já a conhece.
Sim, você já conhece essa verdade. Mas você a conhece pelo seu não-conhecer. A sua aceitação de que a verdade não pode ser conhecida de forma alguma traz consigo uma compreensão muito sutil. A sua aceitação de que esse problema não tem solução traz a solução do problema. É esta aceitação que te mostra que você sempre soube de sua natureza – apenas não estava consciente dela --, mas agora você se lembrou. O segredo é você se familiarizar, estar imerso, mergulhado, e aprender a se manter consciente desse seu não-saber, que você sempre soube.
E, mais uma vez, aceitar é a solução...". (Jayme Mathias Andrade)

*Trecho de Agostinho da Silva recolhido de Reflexões, Aforismos e Paradoxos (Thesaurus Editora)

21 de abril de 2011

Mensagem agostiniana



Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros, se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu, do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus.

Se o Criador o tivesse querido juntar a mim, não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence.

São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.


17 de abril de 2011

Agostinho da Silva por Santiago Naud


José Santiago Naud: poeta, ensaísta e professor pioneiro da Universidade de Brasília


"A seminal presença de Agostinho da Silva no Brasil é confirmação iluminada de sua generosa teoria civilizatória. À horizontalidade da abscissa que Roma edificou entre o Leste e o Oeste, ele soma a ordenada vertical que, unindo Norte e Sul, corrija os equívocos do poder indo-europeu e promova as coordenadas do Amor, como auguraram os "cavaleiros espirituais" da Renascença, que liam pelo avesso a palavra Roma. Harmonia da inteligência racional e emocial. No reino ideal, Portugal e Brasil conformam uma única nação, não obstante separada politicamente em dois Estados segundo a razão ou sem-razão das leis. O milagre axial dos Descobrimentos foi que o primeiro corpo multiplicou-se pelo mundo, agregando o diferente. Nesse sentido, hoje guarda enorme transcendência enquanto comunidade de povos, inspirada por sinal em idéia agostiniana e reconhecida oficialmente por novos governos constituídos. Tal fato se desvela à energia de sua literatura matricial, envolta no paradoxo porque é vigorosa conjunção de contrários, muito embora toda a sua complexa riqueza não tenha até agora morada condigna na confraria dos léxicos ou circunscrição dos compêndios. Já vale contudo como confirmação do princípio feminino, a mátria olvidada e profanada, trinitária Santa Marial medieval que tanto comovia, e opera nas águas históricas do Douro, Mondego e Tejo, recuados ao intemporal da pré-história. Também no templo da miscigenação e do sincretismo, os ilês afro-brasileiros, ele cruzava, como um sufi, Oxum e Iemanjá, que reúnem as águas das fontes, arroios e rios no imenso Oceano. Aí, quem sabe, explique a parapsicologia haver o escritor nascido sob o signo de Aquário. Assim, tudo quanto escreveu, falou ou praticou, singra a terceira margem do imenso rio ilusório que liga o tempo e a eternidade, onde o Padre António Vieira, mais um "sonho das eras português", igual a ele raie o sol futuro. A propósito, com a autoridade do historiador e do ensaísta, que o tempo viria a confirmar, o escritor Joel Serrão, um jovem professor alevantado contra os corporativismos e a mediocridade que topou nos começos da carreira, já em 1946 afetaria com intuição e percuciência o valor de Agostinho da Silva. Em torno do livro Vida de William Penn, que em edição particular o nosso autor publicava na série das suas Biografias, deixou escrito com clareza: "Em nenhuma obra literária portuguesa me parece ser mais vincada a indissolúvel unidade do homem e do escritor como na de Agostinho da Silva - e este facto é uma consequência, ao que creio, da inteireza mental e ética do homem". Ele "é um dos casos mais relevantes da cultura portuguesa dos nossos dias". "Pelo valor do homem, pelo seu talento literário (...) é, quanto a mim, um dos maiores, senão o maior escritor da língua portuguesa contemporânea".

Se o Leitor ainda não souber, esta Presença é um bom passo, certamente essencial."

(Texto recolhido de Presença de Agostinho da Silva no Brasil. / org. Amândio Silva e Pedro Agostinho; [pref.: Alma oceânica. José Santiago Naud]. - Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2007, p. 44-45)

16 de abril de 2011

Mensagem agostiniana

"Em toda a história do mundo foram sempre poucos os imaginadores, para além naturalmente de toda a gente que imagina haver mundo; hoje, porém, parece ter diminuído o número de imaginadores; certamente porque aumentou o total da população; se perdem na massa. Muita cinza, pouca brasa."

(texto recolhido de Reflexões, Aforismos e Paradoxos. Brasília: Editora Thesaurus, 1999,p. 115.)

4 de abril de 2011

Mensagem agostiniana



"[...] todo o homem é livre para examinar e escolher; [...] toda doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus."


(Trecho recolhido de SILVA, Agostinho. Textos Filosóficos I. Lisboa: Âncora Editora, 1999, p. 81.)

31 de março de 2011

Agostinho da Silva em Futura-Idade


“Acrescentarei logo que , para que o futuro se construa, é indispensável que se tenha uma noção clara, objectiva, concreta, digamos, numa palavra, científica do que se passa hoje nos domínios que importam, dispondo de uma informação actualizada e total e trabalhando sobre ela com mentalidade despojadora e crítica. Em seguida me funcionará a capacidade de inventar, sem utopias, mas ousando acreditar que podemos ir muito mais longe do que fomos ontem ou agora e crendo que a raça humana de hoje, tão oprimida ainda por tantas circunstâncias que parecem fatais, é apenas esboço do que pode vir a ser, [...].”


(Texto recolhido de Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira II. Lisboa: Âncora Editora, 2001, p.193.)

27 de março de 2011

Lembrar Agostinho por Pessoa

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis..." Fernando Pessoa

Texto que nos chegou: Despertar da Consciência

QUEREMOS PAZ OU CONFLITO?

Desejamos paz. Não existe ninguém que não a queira. Ainda assim, háalgo em nós que pede o conflito, o enfrentamento. Talvez você não seja capaz de perceber isso neste instante. Pode ser que tenha que esperar por uma situação ou até mesmo por um pensamento que disparem uma reação de sua parte: alguém que o acuse de algo, que não o reconheça, que se intrometa no seu território, que questione sua maneira de fazer as coisas, que provoque uma
discussão sobre dinheiro, etc. Diante de uma circunstância desse tipo, você consegue sentir o imenso impulso de força que começa a atravessá-lo, o medo, que talvez esteja sendo mascarado por raiva ou hostilidade?

É capaz de ouvir sua própria voz se tornando áspera, estridente? Tem consciência de que
sua mente está correndo para defender a posição dela, justificar, atacar, condenar? Em outras palavras, tem capacidade de despertar nesse momento de inconsciência? Sente que algo em você está em guerra, alguma coisa que se vê ameaçada e quer sobreviver a todo custo, que precisa do confronto para afirmar a própria identidade como o personagem vitorioso dentro dessa produção teatral? Consegue sentir que existe algo em você que preferiria estar certo a estar em paz?

ALÉM DO EGO: NOSSA VERDADEIRA IDENTIDADE

Quando o ego está em guerra, saiba que isso não passa de uma ilusão que está lutando para sobreviver. Essa ilusão pensa ser nós. A princípio, não é fácil estarmos lá como testemunhas, no estado de presença, sobretudo quando o ego se encontra nessa situação ou quando um padrão emocional do passado é ativado. No entanto, depois que sentimos o gosto dessa experiência, nosso poder de atingir o estado de presença começa a crescer e o ego perde o domínio que tem sobre nós. E, assim, chega à nossa vida um poder que é
muito maior do que o ego, maior do que a mente. Tudo de que precisamos para nos livrar do ego é estarmos conscientes dele, uma vez que ele e a consciência são incompatíveis.

A consciência é o poder oculto dentro do momento presente. É por isso que podemos chamá-la de presença. O propósito supremo da existência humana, isto é, de cada um de nós, é trazer esse poder ao mundo. E é também por isso que nossa libertação do ego não
pode ser transformada numa meta a ser atingida em algum ponto no futuro.

Somente a presença é capaz de nos libertar dele, pois só podemos estar presentes agora - e não ontem nem amanhã. Apenas ela consegue desfazer o passado em nós e assim transformar nosso estado de consciência.

O que é a compreensão da espiritualidade? A crença de que somos espíritos? Não, isso é um pensamento. De fato, ele está um pouco mais próximo da verdade do que a idéia de que somos a pessoa descrita na nossa certidão de nascimento, mas, ainda assim, é um pensamento.

A compreensão da espiritualidade é ver com clareza que o que nós percebemos, vivenciamos, pensamos ou sentimos não é, em última análise, quem somos, que não podemos nos encontrar em todas essas coisas, que são transitórias e se acabam continuamente.

E provável que Buda tenha sido o primeiro ser humano a entender isso, e dessa maneira anata (a noção do não-eu) se tornou um dos pontos centrais dos seus ensinamentos. E, quando Jesus disse "Negue-se a si mesmo", sua intenção era afirmar: negue (e assim desfaça) a ilusão do eu. Se o eu - o ego - fosse de fato quem somos, seria um absurdo
"negá-lo". O que permanece é a luz da consciência, sob a qual percepções, sensações, pensamentos e sentimentos vêm e vão. Isso é o Ser, o mais profundo e verdadeiro eu. Quando sabemos que somos isso, qualquer coisa que ocorra na nossa vida deixa de ter importância absoluta para adquirir importância apenas relativa. Respeitamos os acontecimentos, mas eles perdem sua seriedade plena, seu peso. A única coisa que faz diferença realmente é isto:
podemos sentir nosso Ser essencial, o "eu sou", como o pano de fundo da nossa vida o tempo todo? Para ser mais exato, conseguimos sentir o "eu sou" que somos neste momento? Somos capazes de sentir nossa identidade essencial como consciência propriamente dita? Ou estamos nos perdendo no que acontece, na mente, no mundo?

TODAS AS ESTRUTURAS SÃO INSTÁVEIS
Seja qual for a forma que assuma, a motivação inconsciente por trás do ego é fortalecer a imagem de quem nós pensamos que somos, o eu-fantasma que passa a existir quando o pensamento - uma enorme bênção, assim como uma grande maldição - começa a dominar e a obscurecer a simples, e ainda assim profunda, alegria da conectividade com o Ser, a Origem, Deus.

Independentemente do comportamento que o ego manifeste, a força motivadora oculta é sempre a mesma: a incessante necessidade de aparecer, ser especial, estar no controle, ter poder, ganhar atenção. E, é claro, a necessidade de experimentar uma sensação de isolamento, ou seja, de oposição, de ter inimigos.

O ego sempre quer alguma coisa das pessoas ou das situações. No caso dele há sempre um plano oculto, um sentimento de "ainda não é o bastante", de insuficiência e falta, que precisa ser atendido. Ele usa as pessoas e situações para conseguir o que deseja e, até mesmo quando é bem-sucedido, nunca fica satisfeito por muito tempo. Em geral, vive frustrado com seus objetivos - na maior parte do tempo, a lacuna entre o "eu quero" e "o que acontece" tornase uma fonte constante de aborrecimento e angústia. A clássica canção dos Rolling Stones (I Can’t Get No) Satisfaction ("Não consigo ter satisfação") é sua música.

A emoção subjacente que governa todas as atividades do ego é o medo. O medo de não ser ninguém, o medo da não-existência, o medo da morte. Todas as suas ações, enfim, destinam-se a eliminar esse temor. No entanto, o máximo que o ego consegue fazer é encobri-lo temporariamente, seja com um relacionamento íntimo, a aquisição de um novo bem ou tendo um bom desempenho numa coisa ou noutra. A ilusão nunca nos satisfaz.
Apenas a verdade de quem nós somos, se compreendida, nos libertará.

Por que o medo? Porque o ego surge pela identificação com a forma e, na verdade, ele sabe que nenhuma forma é permanente, que todas elas são transitórias. Assim, há sempre um sentimento de insegurança ao seu redor, mesmo que externamente ele pareça confiante.

Certa vez, quando eu caminhava com um amigo numa linda reserva natural próxima a Malibu, na Califórnia, chegamos às ruínas do que fora uma casa de campo, destruída pelo fogo décadas atrás. Aos nos aproximarmos da propriedade, toda cercada de árvores e de plantas magníficas, vimos, ao lado da trilha, uma placa que as autoridades do parque haviam colocado ali. Nela estava escrito: "Perigo. Todas as estruturas são instáveis." Comentei com meu amigo: "Este é um sutra profundo." E ficamos parados, impressionados.

Depois que compreendemos e aceitamos que todas as estruturas (formas) são efêmeras, até mesmo os materiais aparentemente sólidos, a paz surge dentro de nós. Isso acontece porque o reconhecimento da impermanencia de todas as formas nos desperta para a dimensão do que não tem forma no nosso interior, o que está além da morte. Jesus chamou isso de "vida eterna".

A NECESSIDADE DO EGO DE SE SENTIR SUPERIOR

Existem muitas formas sutis de ego que, mesmo sendo tênues, podemos observar com facilidade nas pessoas e, mais importante, em nós. Lembre-se:
no momento em que nos tornamos conscientes do nosso ego, essa consciência emergente é quem somos além do ego, o "eu" profundo. O reconhecimento do falso já é o surgimento do real.

Por exemplo, imagine que você está prestes a contar uma novidade a alguém. "Já sabe o que aconteceu? Não? Vou lhe dizer." Se estiver alerta o suficiente, no pleno estado de presença, será capaz de detectar um rápido sentimento de satisfação dentro de si imediatamente antes de dar a notícia, até mesmo se ela for má. Isso ocorre porque, por um breve momento, existe, aos olhos do ego, um desequilíbrio a seu favor na relação entre você e a outra
pessoa. Durante esse instante, você sabe mais do que ela. Essa satisfação provém do ego e ela surge porque sua percepção do eu é mais forte em comparação com a outra pessoa. Ainda que o interlocutor seja o presidente ou o papa, você se sente superior a ele naquele momento porque sabe mais. Esse é um dos motivos que fazem com que muita gente se vicie em fofoca.

Além disso, a fofoca costuma carregar um elemento de crítica e julgamento malicioso dos outros. Dessa forma, também fortalece o ego por meio da superioridade moral imaginada, que fica implícita em toda apreciação negativa que fazemos de alguém.

Se uma pessoa tem mais, sabe mais ou pode fazer mais do que nós, o ego se sente ameaçado porque o sentimento de "menos" diminui sua percepção imaginada do eu em relação a ela. Assim, ele pode tentar se recuperar procurando, de algum modo, criticar, reduzir ou menosprezar o valor das capacidades, dos bens ou dos conhecimentos desse indivíduo. Ou pode mudar de estratégia: em vez de competir, vai se valorizar por meio da
associação com essa pessoa, caso ela seja considerada importante aos olhos dos outros.

EGO E FAMA

O fenômeno bem conhecido de "citar nomes", a menção casual de pessoas que conhecemos, faz parte da estratégia do ego para ganhar uma identidade superior aos olhos dos outros e, portanto, aos seus próprios olhos mediante a associação com alguém "importante". O mal de ser famoso é que a verdadeira identidade do indivíduo torna-se totalmente obscurecida por uma imagem mental coletiva. A maioria das pessoas que se aproxima de alguém célebre quer melhorar a própria identidade - a imagem mental de quem elas são - por meio dessa associação. Talvez elas até ignorem o fato de que não estão interessadas no indivíduo famoso, e sim apenas em fortalecer sua percepção ficcional do eu. Acreditam que, por meio dele, podem ser mais.

Tentam se completar por intermédio dele ou da sua imagem mental como alguém de renome, uma identidade conceituai coletiva inquestionável.

A supervalorização absurda da fama é simplesmente uma das muitas manifestações da loucura egóica do nosso mundo. Algumas celebridades caem no mesmo erro e se identificam com a ficção coletiva, isto é, com a imagem que as pessoas e a mídia criaram delas, e começam a se considerar de fato superiores aos reles mortais. O resultado disso é que elas se tornam cada vez mais alienadas de si mesmas e dos outros, mais infelizes e mais dependentes da continuidade da sua popularidade. Cercadas apenas por pessoas que se aumentam da sua auto-imagem inflada, mostram-se incapazes de estabelecer
relacionamentos verdadeiros.

Albert Einstein, que foi admirado quase como sobre-humano e acabou se tornando uma das pessoas mais famosas do planeta, nunca se identificou com a imagem que a mente coletiva criou dele. Permaneceu humilde, sem ego.

E chegou a dizer o seguinte: "...uma contradição grotesca entre o que as pessoas consideram ser minhas conquistas e habilidades e a realidade de quem eu sou e do que sou capaz."5
É por esse motivo que um indivíduo famoso tem dificuldade para estabelecer um relacionamento verdadeiro com as pessoas. Uma relação autêntica é aquela que não é dominada pelo ego, que está sempre voltada para a construção da sua imagem e para a busca do eu. Num relacionamento genuíno, há um fluxo de atenção plena e receptiva que é dirigido à outra pessoa, e nele não cabe nenhum outro querer. Essa atenção plena é a presença - o pré-requisito para todo relacionamento autêntico. O ego age sempre da
seguinte forma: ou quer alguma coisa ou, se acredita que não existe nada para obter do outro, assume um estado de profunda indiferença e não se preocupa com ele. Assim, os três estados predominantes dos relacionamentos egóicos são: o querer, o querer insatisfeito (raiva, ressentimento, acusação, queixa) e a indiferença.

Trecho do Despertar da Consciência
Eckhart Tolle